17 de ago de 2008

Envergadura política

Marco Bianchi é, fácil, um dos humoristas mais legais que surgiram nos anos 90. Desde o seu começo no rádio, com Os Sobrinhos do Ataíde (que tinha ele, Paulo Bonfá e Felipe Xavier), até o RockGol, que eu acho ótimo também.

Gosto do humor de deboche nonsense com critica intelectualóide que ele e Paulo Bonfá fazem no programa, mas sinto falta deles criarem personagens caricatos, como na época do Sobrinhos. Peterson Foca, Homem Gemada, Homem Cueca, Marquinho e Seu Pai ("Xiiiii, Marquinho") são clássicos do humor nacional.

Por isso fiquei feliz com a série virtual Câmera dos Deturpados, que ele vem publicando em seu site e no FizTV. Bianchi escreve, atua, produz e dirige o programinha que satiriza as votações de leis do Plenário brasileiro. A cada novo episódio (já são oito no ar e ele quer fazer 30), o humorista faz uma paródia de figuras típicas da politicagem brasileira. O resultado é interessante - um pouco sem graça, vai lá - mas eu indico fácil. Respeito bastante quem procura novos meios de se expressar artisticamente (ainda mais quando é pela web e sem ser por meio de um blog).

Bianchi poderia fácil ficar só no conforto do seu RockGol, não?

Deixo abaixo uma rápida conversa que tive com ele nesta última sexta-feira.

O programa tem alguma relação com o fato de estarmos pertos das eleições?
Não, isso é uma idéia que tenho engavetada há muito tempo. É uma produção independente, não tenho a intenção de divulgar muito. Joguei em alguns sites para aproveitar esse boca-a-boca virtual. Já tinha colocado, há algumas semanas, oito episódios no meu site, mas ninguém falou nada. Ninguém entra nele! (risos). Sempre me envolvi com política e me incomoda que as pessoas preferem não saber disso. O programa é um protesto contra essa paralisia do Legislativo. O Congresso é um retrato da sociedade brasileira e ali há uma série de votações pendentes há décadas. Eu quero aproximar a política das pessoas pelo humor.

Seus fãs não vão estranhar esse seu lado de critico político?
Não sei, isso pode até fazer com que eu atinja outro público. Meu personagem no RockGol, minhas frases e explanações têm muito a cara de debates políticos. Eu adoro ver TV Senado e TV Câmara: são matérias-primas para o meu humor! (risos). Em época de eleição eu paro tudo para ver as propagandas dos candidatos.

Você escreve, atua e dirige o programa. É uma liberdade que você jamais teria na televisão, não?
Eu tenho de gostar daquilo que faço. Estou há 15 anos fazendo rádio e TV e nunca pude fazer o meu trabalho do jeito que acho bacana. Sempre tive ordem de diretor acéfalo que dizia que eu devia mudar as minhas piadas, que o público não entende isso, aquilo... A internet me deu uma liberdade de expressão importantíssima. Eu não quero ganhar nada com isso (o programa), só espero que depois de um tempo eu possa pagar o que estou bancando do meu próprio bolso.

Você acha que o formato e o estilo do Câmera dos Deturpados poderia funcionar na TV?
Eu sempre gostei desse formato de quadros pequenos, de piadas de dois minutos no máximo. No rádio tinha muito disso. Na TV eu não vejo ninguém interessado em exibir o programa se ele não tiver sucesso de público na internet antes. E também não sei se poderia ter essa liberdade que tenho nela. TV, querendo ou não, costuma ter sempre o rabo preso com alguém.


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