5 de fev de 2010

Lost: dois homens e um segredo

LOS ANGELES - Lost não é só um programa de TV. É um universo, cuja história é complementada em jogos de realidade alternativa (os ARGs), games para celular e iPod, podcasts, blogs, livros e episódios exclusivos para a rede. O começo do fim deste universo aconteceu a partir amanhã, com a estreia da 6ª e última temporada nos EUA - e no dia 9 no Brasil, pela AXN.

Mas quem vê Lost sabe: assim que se ouvir o tradicional "poum", com o logo da série em um fundo preto, indicando o final do episódio, uma correria tomará a web: o mundo todo irá baixá-lo e legendá-lo em tempo recorde. Fora quem já o assistiu, ao vivo, por serviços de live streaming.

Para entender a engrenagem da série, é preciso conversar com os produtores e principais roteiristas da trama: Carlton Cuse e Damon Lindelof. A dupla é responsável por quase todos os mistérios e enigmas da produção, além de fazer parte do seleto clube que já sabe o final de Lost.

"Chegamos à imagem final na 1ª temporada. O fim ainda não foi escrito, há toda uma mistura de mitologia e elementos que estão intactos para esse momento, pois muita coisa relacionada aos personagens ainda será trabalhada", disse Cuse, em coletiva realizada em Los Angeles, pouco antes do Estado ser o único veículo brasileiro a falar com exclusividade com a dupla em 2010.

"Faz parte do processo criativo. Se alguém dissesse, cinco anos atrás, que o Sawyer se tornaria o xerife da Iniciativa Dharma em 1977, isso soaria a coisa mais ridícula do mundo. É divertido saber o final sem termos ainda a sua execução pronta."

Para o season finale, Lost irá mudar a narrativa mais uma vez. Depois dos flashbacks e flashforwards, vêm por aí duas realidades - umas delas, alternativa. A dupla sabe que pode arriscar, pois conhece bem o "nível" do telespectador da série: no podcast oficial do seriado, eles se divertem com as teorias dos fãs. "Tenho certeza que Lost não existiria se não houvesse esse enorme debate sobre a série", resume Lindelof, enfatizando a repercussão que o seriado encontra depois que vai ao ar - e que se multiplica exponencialmente online. Porém, o fato de ter um público específico é uma pressão enorme sobre os dois, ainda mais no 6ª ano.

"O pior final que poderíamos dar seria o final seguro, atrativo para um maior número de pessoas", diz Lindelof. "Obviamente, nem toda questão será explicada e muita gente ficará chateada por não ver certos momentos resolvidos. Sinto que seria muito pedante nos concentrar apenas em responder as dúvidas", completa Cuse.

Muito se especula sobre o futuro de Lost. Por ser uma produção multiplataforma, com extensões no mundo da literatura e dos games, a expectativa é que a série renda produtos. Dizem até que um dos parques de diversão da Disney, distribuidora do seriado, pode ter um brinquedo de Lost! "A história que contamos há 6 anos acaba em maio, não pensamos em sequência", rebate Cuse. "Vai ter gente falando que é o pior final da história da TV. Mas tem gente, como a minha mãe, que diz que será o melhor final de todos, apesar de ela não entender o programa", ri Lindelof.

A preocupação com os fãs fervorosos explica porque a série não é queridinha da crítica. "Em premiações, você manda três DVDs separados com dois episódios cada. Para quem não assiste ao show, avaliá-lo fora do seu contexto é desafiador. Contar a história de uma maneira mais acessível seria uma forma de alienar o fã", diz Cuse.

Apesar desse discurso, eles admitem que o último ano de Lost é mais acessível. "A narrativa é diferente e não exige um vasto conhecimento sobre o show. As histórias desse ano estão conectadas com o primeiro ano. E ter visto a 1ª temporada é a parte mais importante agora", explica Cuse.

No final da coletiva, cito para a dupla a tese do primeiro parágrafo e pergunto sobre o legado da série. Lindelof: "Acredito que o legado acontecerá de duas maneiras. Uma semana após o final só se irá falar dele. Estava comentando sobre o final de Família Soprano outro dia: não lembrava se o A.J. tinha ido ou não ido ao exército. Mas me recordava, quadro a quadro, da cena do jantar e do final", diz. "Conforme o tempo passa, lembra-se de Sopranos como um todo. Desejamos que as pessoas lembrem da experiência de assistir a Lost, e de como elas se sentiram gratificadas e felizes por terem dedicado 120 horas de tempo e energia a ele"

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Carlton Cuse
Produtor-executivo de Lost e um dos principais roteiristas da série. Natural da Cidade do México, estudou em Harvard e participou do roteiro de filmes como Máquina Mortífera 2 e 3 e Indiana Jones e a Última Cruzada. Seu primeiro trabalho como roteirista na TV foi em Crime Story (1986-88), produzida pelo cineasta Michael Mann.

Damon Lindelof
É o criador de Lost, ao lado de J.J. Abrams (Fringe, Alias, Cloverfield), além de ser um dos produtores-executivos. Assina os textos dos episódios mais marcantes de Lost, geralmente aqueles que trazem grandes viradas para a trama. É um dos criadores da série Crossing Jordan e também atua como escritor de HQs.

* Matéria publicada no Estadão

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