19 de jan de 2010

"Não tenho saudades do Rá-Tim-Bum"

Os óculos vermelhos indicam um olhar para o passado. Mas não, não será dessa vez que o ligeiro repórter fictício Ernesto Varela sairá do baú. Um dos grandes responsáveis pela formação da “geração Rá-Tim-Bum”, Marcelo Tas está de volta ao universo infantil, com um novo programa no Cartoon Network. Plantão do Tas estreou no dia 31 e virou um noticiário diário com as
notícias mais absurdas do mundo (sempre às 19h).

Tas, que em 2009 teve mais exposição na mídia que Ivete Sangalo (ela teve um filho, por isso o 2º lugar), falou sobre como será conversar com as crianças conectadas de hoje, 13 anos depois do Professor Tibúrcio e do Telekid. E aproveitou para criticar a TV Cultura e explicar como o CQC virou a maior vidraça de sua carreira.

Era um desejo antigo ter um programa para as crianças?

Vem de muito tempo, há cinco anos converso com o Cartoon. A gente só não conseguia encaixar. Foi muito legal o jeito que aconteceu: em 2007, fui convidado para dirigir umas vinhetinhas para o canal. Elas iriam para toda a América Latina e a do Brasil não tinha ficado muito boa. A produtora era a Cuatro Cabezas (do CQC). Então me aproximei tanto da produtora quanto do
canal.

E como será o Plantão do Tas?
É um plantão de notícias de última hora. Estou em um estúdio muito realista, parece até de jornal da Globo. Só que as notícias são totalmente absurdas, então, a forma é muito realista, mas o conteúdo não. Essa é a graça. Sou o âncora e há dois repórteres crianças, que sempre chamo em algum lugar ao vivo. O bordão é dar as “notícias da hora”.

Há alguma diferença entre a criançada da época do Professor Tibúrcio para a de hoje?
Ao contrário de adulto, criança não muda muito. É sempre um público difícil, de características parecidas, que só se interessa por coisas que são importantes. Adulto que dá importância a um monte de besteira. Elas só param de fazer um negócio “memo” quando vale a pena. Nesse sentido, não mudou muito. O que mudou foi a velocidade, as crianças têm uma capacidade para
assimilar linguagem que acho incrível. O jornal é bem ousado em termos de formato, assim como era o Rá-Tim-Bum. A gente via ele ficando pronto e falava “nossa”. Diziam que as crianças não iam entendê-lo...

Não era aquela coisa de adulto querendo falar como criança.
Exatamente! Adulto querendo dizer o que é bom. O segredo é não falar para criança com linguagem de criança; ela tem horror desse tipo. Falo normalmente, nunca saiu da minha boca a palavra “galera” na hora de falar com o jovem.

Isso é uma crítica ao programa do Robertos Justus no SBT?
(Risos) Pode ser! Não dá, não é assim. Minha linguagem no CQC é a mesma do blog e, inclusive, do Plantão do Tas. O que muda é o conteúdo. Um projeto de criança que busca falar como criança será um fracasso. “Você aí sentadinho...” Isso não existe. Tanto que muita criança assiste ao CQC, apesar de eu não recomendar.

Os canais fechados infantis têm, hoje, o papel da TV Cultura dos anos 1980 e 90?
A Cultura perdeu várias chances, ela era referência de TV infantil no Brasil e no mundo. Perdeu-se a chance de dar continuidade a uma escola de roteiristas, atores, bonequeiros, figurinistas... Isso vale ouro! Minha visão é que ela tentou reinventar a roda três vezes. O Rá-Tim-Bum, um projeto extremamente ousado e bem-sucedido, foi abandonado para virar o Castelo, que também foi muito bem. Não precisava parar! Arriscou, tudo bem. Daí, em vez de ter continuidade, inventaram a Ilha, que fracassou. O Vila Sésamo está há décadas sendo produzido.

Evolução não é exclusão...
Claro que não. É uma mentalidade de prefeito de interior: um vai lá e faz uma ponte, daí vem um novo que faz uma caixa d’água nela só para poder pôr o nome na obra. A Cultura perdeu a mão em uma área em que era líder, abrindo espaço para as emissoras de cabo. Hoje não vejo ninguém deixando os filhos vendo programação infantil de TV aberta.

Além dos dois programas, você também faz palestras e eventos publicitários pelo Brasil, tem blog e Twitter muito ativos... Qual é o seu grau de comprometimento com as atrações?
Eu prometo que nesse ano serei mais discreto (risos). Olha, diria que é total, por incrível que pareça. Uma coisa legal dessa minha atual fase profissional é que tenho a possibilidade de articular equipes muito competentes. Conheço os roteiristas do CQC há anos e tenho um grau de
intimidade e rapidez com eles que me permite fazer um CQC a distância muitas vezes. Um deles eu trouxe do Saca-Rolha e ele agora está no Plantão do Tas.

Tem algum ex-programa seu que você considera ter sido injustiçado?

Televisão é que nem cachorro: cada ano vale sete (risos). O Saca-Rolha ficou dois anos no ar, mas com certeza poderia ter ido para uma audiência nacional. Ele ficou restrito ao público local. Fiz um piloto para a Globo, o Fora do Ar, que não acho que injustiçado seja a palavra, mas ele antecipava o CQC. Ele entrevistava políticos, fazia humor e tinha uma edição sofisticada. O pessoal do CQC argentino viu o Fora do Ar antes de me chamar. Amaram! Não choro sobre leite derramado, não tenho saudades do Rá-Tim-Bum. Sou ligado no presente.

O CQC recebeu neste ano suas primeiras vaias. Como isso repercutiu entre os integrantes?
No primeiro ano tinha aquela simpatia do público por sermos pequenos. Aqui as pessoas adoram os perdedores e têm problema com o sucesso. Esse ano o CQC esteve cheio de patrocinadores, reclamaram disso, mas sem eles não dá para pagar uma equipe com qualidade, de 40 pessoas. O CQC é a maior vidraça da minha carreira. Fico uma 1h40 ao vivo. Gosto que peguem no meu pé. É o melhor jeito de aprender.

O CQC é importado da Argentina. Isso não deixou o formato dele engessado após dois anos?
Não é verdade. O cara que inventou o CQC, o Diego Guebel, me mostrou a curva de amadurecimento do CQC brasileiro: conseguimos em um ano e meio o que as versões dos outros países, incluindo a Argentina, tiveram em seis anos. A avaliação dele é que o CQC brasileiro tem originalidade. O (quadro) Controle de Qualidade não existia, o concurso da nova integrante é nosso. É quebra de formato total! Estamos virando um “case” de sucesso para os outros CQC.

* Matéria publicada no Estadão
no final de dezembro

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