28 de set de 2009

Toca um samba aí para eu 'fall in love'



O redator publicitário Túlio Pires Bragança mora há alguns anos na Argentina. Em Buenos Aires, especificamente. Com saudades da terrinha, ele mata as saudades tocando músicas bem brasileiras em seu violão. No repertório, vários pagodes que marcaram a década passada. Exaltasamba, Raça Negra, Molejão, Só Pra Contrariar, Travessos... Enfim, aqueles grupos em que o vocalista fica na frente cantando enquanto o resto dos músicos faz uma coreografia vergonhosa atrás.

Dia desses, Túlio fez uma brincadeira - transformou um dos sambas açucarados desses grupos em inglês. A tradução literal ficou engraçada e fez sucesso entre os amigos. Seguindo o ideal que impera na web 2.0, onde o verbo compartilhar é lei, o publicitário de 27 anos pôs suas versões no YouTube, com o nome de Pagode Versions. Imagina se não caiu na graça do povo...

Até agora foram três canções gravadas. "Que Se Chama Amor" virou "That's Called Love" (com a brilhante tradução: "It's a big saudade that break through my heart"), "Me Apaixonei pela Pessoa Errada" se transformou em "I've fallen in Love With the Wrong Person" e "Traz a Caçamba" ganhou o original nome de "Bring the Caçamba".

Túlio bateu um divertido papo comigo sobre a sua criação.

Não tem como não perguntar isso: de onde surgiu a ideia de criar as versões?

Sempre toquei pagode no violão, faz parte da minha educação musical como adolescente. Sei várias músicas de cor. Um dia, com uns amigos, comecei a cantar em inglês de brincadeira e aí rolou a ideia de gravar "Bring the Caçamba".

Isso em Buenos Aires?

É, com uns amigos daqui. Tenho muitos amigos brasileiros e, sei lá, parece que morando fora a nossa brasilidade aumenta. Fica tudo a flor da pele.

Quantas músicas já foram gravadas? A tradução é feita de forma literal ou há algum esmero, um cuidado com a métrica e com a rima?
Gravei três até agora, este final de semana gravo mais uma ou duas. A tradução é praticamente literal e a ideia é que não fique tudo certo. Com a rima não me preocupo não, mas com a métrica de cada frase sim, por isso às vezes tem que rolar uma adaptação.

Tipo "bring the caçamba" ou "it's a big saudade"?
É, essas coisas da brasilidade não rola. Muamba também é intraduzível!

O molejo é o pior grupo de se traduzir?
Quanto mais ginga e malemolência, mais difícil a tradução.

Como você traduziria "lá vem o negão, cheio de paixão?"
(Risos) Essa aí eu já comecei a pensar. "There comes the negão, full of passion. he's gonna catch you, gonna catch you". Só que "loirinha cafungada do negão é um problema" é um grande desafio lexical!

Quais são as próximas músicas a serem traduzidas?
"Smile that I'm Taping You", dos Travessos e "The Powerful", da Banda Brasil. Tem "Jeito Felino", do Raça Negra, que falta decidir se vai como "Feline way" ou "Cat way".



Há muitas sugestões dos internautas nos comentários dos vídeos. Já escolheu alguma?
A dos Travessos foi uma sugestãoo da audiência. Estão pedindo demais "Cohab City", mas essa é foda de tocar. (risos)

A preferência é aquele pagodão romântico...
É, esse é o pagode que toca o coração, que não tem malícia e duplo sentido. Não quero limitar tudo aos anos 90, mas ontem mesmo cantei para minha "muchacha" uma em inglês do Zezé di Camargo e já fiquei pensando em abrir o universo para "Sertanejo Versions" também. "Faz mais uma vez comigo uôôôô, só mais uma veeez comigo".

O que sua família, aqui do Brasil, achou dos vídeos?
Minhas irmãs acharam engraçado e dão risada do ridículo a que me submeto. Já meus pais não entendem a piada, dizem que canto bem e tal, mas não conhecem o significado do pagode para a minha geração.

E qual seria esse significado?
Eu morava em Santos, sem TV a cabo e sem internet no idos dos anos 90. O pagode era a voz das minhas primeiras paixonites. Com mais informação e mais opção, fui começando a gostar de outras coisas, mas isso não significa que eu não me identificava com as letras do Luiz Carlos, do Raça Negra, ou do Alexandre Pires no Só Pra Contrariar. Era mais ou menos a identificação que os emos têm com a música deles hoje, só que eu não chorava num quarto escuro nem usavas roupas e cabelos desaprovados pela sociedade.

* Matéria publicada no Virgula

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