14 de mar de 2009

O veneno do Yahoo 2


E não é que a piada daquele post virou pauta? Há algumas semanas, entrevistei o Yahoo, banda fenômeno do final dos anos 80 e metade da década passada, que se notarizou pelas versões em português de clássicos do hard rock - logo emplacadas em alguma novela da TV Globo.

O grupo voltou ao batente no ano passado, com um CD/DVD ao vivo comemorativo dos 20 anos de existência. Uma música dele, para variar, entrou num folhetim global: De Volta Pro Amor, versão da açucarada canção tema do filme Letra e Música.

Tive uma divertida - e nostálgica - conversa com Marcelão, baterista do Yahoo. No jornal não coube 95% do material, então resolvi deixá-lo como um Entrevista de Sábado. E o tema é quente: sexta-feira a banda começou uma turnê pelo Brasil. A primeira, depois de 10 anos.

O que vocês fizeram nesses 10 anos de hiato?

A gente parou com a banda, mas continuamos juntos trabalhando, produzindo e fazendo arranjos em nosso Studio Yahoo. Todo ano tínhamos uma produção entre as Top 5 mais escutadas do Brasil. Teve Felipe Dylon, com Musa do Verão; Carla, do LS Jack. Tânia Mara com Se Quiser... Tudo feito em nosso estúdio no Rio. Vemos muitas bandas que se separam, ficam 10 anos sem se ver e voltam. Nosso caso é totalmente diferente, peculiar, e a parte de estúdio foi muito importante para a banda: além de ficarmos em contato com esses novos músicos, também sempre estivemos em contato com o sucesso. Isso nos deu uma experiência muito grande para esse DVD de 20 anos. Os 10 primeiros anos foram de Yahoo banda, fazendo mais de mil shows; os outros fomos nós no estúdio. Paramos como artistas em 1998.

Da formação original só saiu o Robertinho, né?

A formação original, que começou em 88, tinha o Zé Henrique (voz e baixo) e eu na bateria e percussão. O Val Martins está com nós desde o primeiro show, o Robertinho de Recife saiu em 1989 e o Serginho Knust está desde essa época. Ele (Robertinho) ficou um ano e meio, fundou a banda e saiu. Só queria fazer shows onde pousasse Boing (risos).

Como que vocês bolam as versões? Vocês ficam preocupados com uma tradução literal ou piram?

As versões são uma parte do nosso trabalho, do qual nos orgulhamos muito. É uma forma de homenagear grandes melodias e fazer com que as letras em português dessas músicas possam atingir e tocar aquelas pessoas que acham o inglês um grande blá-blá-blá que ninguém entende. É um trabalho muito difícil de se fazer. Partimos da ideia do clima da música, mas basicamente uma versão tem que ter um sentido bacana e uma sonoridade em português interessante. Você juntar essas duas coisas é muito complicado, não é fácil de fazer. O Robertinho fez, o Zé já fez, temos outros parceiros... Todos supervisionados por nós, e só gravávamos se nos sentíssemos satisfeitos. Fazer versão esdrúxula é muito fácil.

Já rolou algum elogio/crítica de alguma banda internacional?

Quando o Scorpions esteve no Brasil, depois do Rock in Rio, a MTV mostrou nossa versão para Wind of Change. Eles acharam que era playback! Fomos depois até camarim deles, batemos um papo, e ele até acharam que o assobio da música era deles. Eles brincaram que iriam ficar na praia e a gente faria o show!



Qual a história por trás de Mordida de Amor?

O Roberto teve a sacada de pegar essa música (Love Bites, do Def Leppard), que nem fazia sucesso lá fora. Ele conhecia alguém lá da Globo e sabia que estavam precisando de músicas para a novela Bebê a Bordo. (1988) O engraçado é que a gente tinha uma música para o Renato Russo fazer uma letra. Ele demorou, demorou, e um dia perguntamos no estacionamento da gravadora: "E aí, Renato, como anda aquela música?". Ele falou (engrossando a voz): "Olha, velho, tem um probleminha. Se a letra ficar boa, vou usar no Legião; já se ficar ruim, não vou dar para vocês". Daí a gente deu a melodia pro Evandro Mesquita, que fez uma letra legal. Ficou No País do Nada. Mandamos ela para a novela, numa fita cassete. A segunda música era Mordida de Amor, tava escondida, e o resto virou história... Em 15 dias estava estourada no Brasil inteiro e assinamos com a EMI.

Quantas músicas vocês emplacaram em novelas da Globo?

Foram 7 discos lançados e devemos ter 10 músicas em trilhas de novelas. Mordida, Anjo... O Kiko Zambianchi cantou de última hora Hey Jude, que a gente produziu, porque tinha um contrato que uma mesma banda não poderia ter duas músicas em novelas seguidas. Foi nosso primeiro sucesso como produtor. Delicious, Paixão Esquecida, Caminho do Sol, Estarei Pensando em Você... Puxa, me desculpa, mas é tudo novela de 91, 92. Só lembro das principais.

E novela é um puta marketing?

Não é o melhor. Tem 3, 4 novelas simultaneamente no ar, cada uma com 30 músicas. E são só três ou quatro que fazem sucesso! Se a música não for boa e não tiver um apelo com as pessoas, não ajuda nada. A música vem em primeira opção, depois o marketing. Se a Coca-Cola fosse ruim, no segundo dia estaria tudo encalhado, né?

O canal encomendava as trilhas diretamente com vocês?

Nunca. Pela nossa "tradição," eles buscavam no nosso disco mesmo.

O Zé ainda pega a Angel? (Mattos,cantora irmã da Marlene) É por isso que vocês tocavam tanto lá?

(Risos). Ainda são casados! A Xuxa, na época, de uma certa forma era ousada e dava espaço para a música ao vivo e lançava artistas. Isso hoje faz uma falta tremenda! Você não tem espaço para divulgar gente ao vivo nem espaço no horário nobre para tocar ao vivo. Somos muito agradecidos por ela.



Como vocês chegaram à canção do Letra e Música?

Eu nem sabia que era de filme, me apaixonei pela música quando me mostraram, uma melodia bem inglesa, que é a terra dos grandes melodistas. Nosso poeta Carlos Cola fez a versão, a Globo se interessou e a música está super bem aceita. Nunca vi esse filme, dizem que é até legal.

É bem difícil achar algo de vocês no Google ou no YouTube. Se eu digito "Yahoo", só aparecem coisas relacionadas ao portal de internet. Isso não ferrou vocês agora com o retorno? Eu penei para achar o site oficial do grupo...

Vendemos cerca de 1 milhão e alguma coisa. Na época (do surgimento do portal) o nome do site não atrapalhava muito por causa do estúdio, mas hoje nos sentimos incomodados (risos). Yahoo é um nome muito forte, de alegria. Estávamos atrás de uma expressão mundial que tivesse uma sonoridade bacana.



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