4 de fev de 2009

No Estadinhon


Respeite o seu tio!

Enquanto fazem caras e bocas para as lentes do fotógrafo do Estadinho, Maria Júlia Cabral e Cunha do Espírito Santo, de 7 anos, e Heloísa Goes Espírito Santo Iasi, de 8, aprontam todas. São poses de modelo, caretas, jogadas de cabelo, brincadeiras com os cachorros Arroz e Feijão ... Aí, uma começa a bater na outra com uma almofada. “Ei! Me respeite que sou mais velha”, provoca Heloísa. "Ah, é? Mas eu sou a sua tia”, rebate Maria Júlia, com uma risada que exibe seus dentes metálicos.


Peraí, tia? Pois é! Maria Júlia é tia de Heloísa,apesar de ser uma no mais nova. Mas como? Assim: tia Maria Júlia tem uma irmã de 30 anos, a Bia. As duas são filhas do mesmo pai, mas de mães diferentes. Como Heloísa é filha de Bia, isso a deixa sobrinha de Maria Júlia.

Essa “confusão familiar” também existe entre Bruno Siqueira Ferreira, de 12 anos, e seu sobrinho Lucas Ferreira de Oliveira, de 13. Bruno tem cinco irmãos bem mais velhos. Uma delas é Aline, de 31, a mãe de Lucas. “As pessoas acham esquisito quando descobrem que o Lucas é meu sobrinho. Ele é bem maior do que eu!”, ri Bruno. “A reação é a de ver um fantasma. Tem uma amiga minha que ficou um mês inteiro duvidando que eu era sobrinha da Júlia”, jura Heloísa.

Os quatro se divertem com a situação e não se enxergam como tios ou sobrinhos. Maria Júlia e Heloísa passam o dia grudadas. Tudo nelas é igual: é a mesma flor nos cabelos, os mesmos chinelos e calças jeans... Até as capinhas rosas de seus Nintendo DS são idênticas. “A gente brinca de ser irmãs gêmeas. Gostamos das mesmas coisas: de Barbies, de conversar, ficar com os meus cachorros e de videogame”, conta Maria Júlia. “Por isso que não vejo ela como tia”, explica Heloísa.

Já Lucas e Bruno se consideram melhores amigos. Eles se veem poucas vezes por ano, pois moram em cidades diferentes (um em Curitiba, o outro em Florianópolis). Mas, quando estão juntos, também viram grude. “Jogamos bola e basquete. A gente fica no videogame jogando Mario nos Jogos Olímpicos”, diz Lucas. “Nem falo para meus amigos que ele é meu tio. Ninguém acredita e não me sinto assim”, comenta Lucas. “Só ele me entende”, confidencia Bruno.

A psicóloga Vera Zimmermann, coordenadora do Centro de Referência da Infância e Adolescência (CRIA) da Unifesp, diz que as crianças não têm uma concepção clara do que é ser tio/sobrinho tão cedo. E que, mais tarde, isso não terá diferença, pois o que sobra é o vínculo afetivo. “São os brinquedos em comum, as mesmas ideias, as histórias de convivência. O fato de ser tio ou sobrinho muito cedo não atrapalha em nada”, explica. Os quatro personagens dessa história, como já se viu, concordam. Eles só lembram de tal parentesco na hora de fazer alguma brincadeira. Uma vez, quando Heloísa não queria ir embora da casa de Maria Júlia, essa ficou parada em frente à porta, abriu os braços e pediu para a sobrinha: “Ahhh... Cadê o abraço da titia?”.

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