24 de dez de 2008

Perfume

Outro dia, eu e as meninas do trabalho estávamos falando sobre cheiros. Uma delas falou que todo pai/mãe sabe o cheiro do seu filho. É uma coisa de pegar o bebê recém-nascido, dar uma cafungada nele e tirar dali um odor de DNA para o resto da vida. Outra diz saber de cor a fragrância da casa de seus pais. Já uma, mais engraçada, comentou que seu irmão cheira à lavanderia: é só abrir a porta do armário dele para sentir o 5 à Sec.

Confesso que não sou muito de odores, mas de sabores. Porém, há dois cheiros que jamais esqueci, e que tento reproduzi-los ao máximo desde que saí da casa de meus familiares. São cheiros associados as minhas avós, duas loucas por limpeza e faxina: Antonia e Madalena.

Primeiro, uma confissão. Olha, eu não sabia lavar roupa até um mês atrás. Nunca tinha usado uma máquina de lavar ou encarado um tanque. Admito mesmo. No máximo, havia passado uma água em minhas cuecas e sungas no chuveiro. Então, quando lavei a minha primeira peça de roupa, o mundo foi pequeno demais para a minha felicidade.

Tirei a camiseta da máquina, pendurei-a no varal, fiz todo o ritual padrão. No dia seguinte, fui pegá-la. Estava uma beleza - era daquelas camisas de corrida, que não amassam, o que facilitou muito.

Mas, ao pôr a peça em direção à minha narina, logo a minha alegria foi embora. Não era o cheiro que estou há anos acostumado a sentir: o cheiro de roupa lavada pela vovó Antonia.

Eu sei que isso parece coisa de gente mimada, mas, dizaê, cheiro de roupa lavada, com aquela mistura equilibrada de sabão em pó com amaciante, não é uma delícia? Eu não consigo de jeito algum reproduzir essa fragrância. Sem sacanagem: as minhas roupas sempre cheiraram tão bem, que no primeiro da faculdade teve uma menina, sentada na carteira atrás de mim, que encostou a cabeça em minhas costas e revelou:

- Que gostoso esse cheiro de roupa lavada com carinho, com amor... É o que mais sinto falta desde que mudei para a república das garotas...

Já liguei várias vezes para a minha avó materna a fim de saber o que fazer para deixar a roupa tão cheirosa. A resposta do outro lado é sempre meio vaga. Afinal, sabe como são as avós...

- Traz aqui que eu lavo, vai!

Juro, eu escuto a minha nona sorrindo quando ela diz essa frase.

O outro cheiro, esse da avó Madalena, remete a minha infância em Tupã. Nunca gostei muito de ficar na casa de meus avós paternos, pois ela não era um lugar muito divertido, apesar da piscina. Mas se tinha algo que me fascinava naquele ambiente era o seu cheiro. No caso, do banheiro de visitas. Dava para sentir a fragrância de limpeza do corredor. Sério!

Minha avó dizia que o lugar mais pessoal da casa era o banheiro, então ele devia ser um cartão de visitas. Acho que ela o limpava todas as manhãs, bem cedinho, pois nunca a vi abaixada passando um pano na privada ou coisa do tipo. Também não tenho a mínima idéia dos produtos que ela usava. O cheiro era tão maravilhoso, que por várias vezes eu pegava uma revista e passava um tempão lendo sentado no trono, mesmo sem estar apertado ou coisa do tipo.

(Não tem gente que gosta de "abrir os pulmões" e sentir o cheiro da natureza? Eu fazia isso no banheiro de vistias da vó Madalena.)

Hoje, ela não está mais aqui. Mas, como bom alquimista que tento ser, em minhas experiências já passei Veja Multi-Uso no assoalho, água sanitária nos azulejos, Pato Purific na privada... E não consigo chegar aos pés do que era o banheiro da casa da minha avó de Tupã.

Nenhum comentário: