3 de jun de 2008

'80% do Brasil não entende o que a gente fala'


O "Entrevista de Sábado" – ou da terça-feira, no caso – é com os humoristas de stand-up comedy Rafinha Bastos e Danilo Gentili. Já entrevistei essa dupla várias vezes e, sempre que conversamos, o papo é ótimo. Essa foi a primeira oportunidade que eu os entrevistei como “estrelas da TV”, pois desde março eles fazem parte equipe do programa mezzo-jornalístico-mezzo-humorístico Custe o que Custar (CQC), da TV Bandeirantes. Rafinha apresenta o programa ao lado de Marcelo Tas e Marco Luque, além de tocar o quadro Proteste Já. Danilo é um dos repórteres e faz muito sucesso com o personagem Repórter Inexperiente.

O CQC vem sendo um sucesso de crítica e até de audiência e, ao mesmo tempo, também bomba na internet, principalmente no YouTube. Como vocês estão acompanhando esse fato?
DANILO - O feedback que a gente tem do CQC vem mais de gente da internet, do YouTube, do que da TV. Ibope não prova muita coisa, a audiência do programa é relativamente baixa, mas em todo lugar que eu vou escuto alguém que viu o CQC. Mesmo com Ibope de 3,5 pontos, muita gente nos assiste depois na internet.

RAFINHA – Toda semana eu dou uma olhada nas comunidades do CQC no Orkut e o que eu notei muito é que tem muita gente que não deixa de fazer os seus compromissos no dia do programa porque sabe que no outro dia ele estará disponível na internet. Para mim isso é maravilhoso. É uma audiência que não tem como quantificar. É diferente do negócio do stand-up. Lembra quando a gente conversou (no ano passado) do negócio de a piada cair na rede, o pessoal copiar e eu odiar isso? Então, na TV é diferente, pois lá o conteúdo vai ao ar apenas uma vez. Então não tem problema o programa parar lá. A internet hoje virou um arquivo mundial de emissoras de televisão.

D – Você entra na comunidade do CQC na segunda à noite e você vê que eles assistem ao programa e ficam no computador comentando ao mesmo tempo.

R – Quer coisa melhor do que isso? O melhor é quando essa galera de internet começa a te linkar com seus outros projetos. Realmente a internet não é o público que vai dar audiência para o programa, que o vai pagar. Ao mesmo tempo, o que a gente está fazendo hoje é meio que voltar no tempo, porque o que nós fazemos na internet é um passo a frente. Eu achava isso até pouco tempo atrás, mas, na verdade, hoje atinjo outro público, como os amigos do meu pai.

D- Quando a gente sentou aqui o cara do bar falou. "Eu vi nesta segunda o programa pela primeira vez na TV, eu só o tinha visto no YouTube".

Vocês mesmo colocam seus quadros no YouTube. A Band, como dona dos direitos autorais, não reclama?
R – Cara, eu não vejo o porquê de a emissora ser contra. Tem espectador que já põe na rede o programa logo depois de ele acabar. A Bandeirantes também coloca, mas ela não é uma emissora que não nasceu para a internet. Acho que nenhuma emissora nasceu.

D – Fiz um show em Florianópolis recentemente. Foram 900 pessoas no teatro. Daí passou alguém da platéia e falou: "Agora está enchendo só porque você está na TV". O produtor da casa respondeu: "Não, encheu por causa do YouTube".

R – Talvez se ele estivesse feito esse show há alguns meses, antes do CQC, ia dar esse público mesmo. Quando eu me apresentei lá deu isso: 900, mil pessoas. Se eu voltar agora será a mesma coisa. A galera acha do caralho também poder te ver na televisão, mas eu duvido que a TV mobilize alguém para sair de casa e ir para o teatro.

D – Eu recebo o mesmo comentário. Agora ouço. "Pô, que do caralho! Eu te via na internet, agora você está na TV!"

Elogia-se muito que o CQC está revelando novos talentos do humor brasileiros, mas vocês já estão no ramo há muito tempo - mas fora da televisão. O pessoal da produtora argentina procurou vocês por fazerem sucesso no teatro, serem da internet e terem um público fora da TV?
D – Você ouviu falar que eles entrevistaram mais de 700 pessoas do Rio e de São Paulo para o programa? Eu fui um dos últimos.

R – O programa foi todo selecionado por uma equipe argentina, que tinha uma cabeça livre, vazia das celebridades e dos artistas daqui. Não sabiam que era o Datena, o Leão Lobo... Então eles chegaram e perguntaram quem teria talento para fazer alguma coisa no formato que eles buscavam. Aí eles foram parar na stand-up comedy porque é um humor rápido, sagaz, de tiradas inteligentes; é diferenciado. E vou dizer: talvez 80% do Brasil não entenda o que a gente fala.

Eu percebi isso na platéia. Ninguém ria antes de suas tiradas, agora eu ouço mais risadas
R- Sabe por quê? Teve um dia que eu botei a boca no trombone. Gente, eu e o (Marco) Luque somos de palco e somos motivados pela platéia. Então coloquem lá (na platéia) quem nos entenda. Hoje ouço o pessoal batendo palma durante as matérias do Danilo. Antes quem ia nossa platéia era o mesmo público dos outros programas da Band. Era o mesmo povo do É o Amor, é o mesmo pessoal que no intervalo fica gritando: "Cadê o meu sanduíche?"; "Eu quero mijar!". Eu ouvi isso já. Agora 50% do público é feito pela (produtora) 4 Cabezas e 50% pela Band.

D – A risada que vai na reportagem não é fake, é da platéia. No último programa teve várias no meio da minha matéria.

No ano passado, quando eu os entrevistei, ouvi que o humor que existe na TV brasileira é burro. Vocês não fazem stand-up no programa, mas também não fazem um humor caricatural, de contar piadas de português ou colocar mulheres bonitonas no palco. Vocês estão tendo de se adaptar à televisão?
R – Com a nossa experiência de palco a gente sabe para quem está falando. Outro dia o (repórter) Rafael Cortez fez uma matéria em uma festa, bebeu muito, e o Luque falou: "Imagina você acordar no dia seguinte e ter o Rafael ao seu lado, que horror?!" Ai eu soltei: "Tive um caso pior. Um jogador de futebol, amigo meu, do Rio, pegou três prostitutas, dormiu com elas e no dia seguinte um extraterrestre implatou pênis nelas!". Se talvez eu não falasse "Rio de Janeiro", "jogador de futebol", ninguém entenderia a minha piada. Na TV eu sei que quanto mais informação eu falar, mais pessoas irão me entender.

D – No palco você controla o seu tempo. Na TV o Tas já interrompe. Eu acho que deviam ter uns dois segundos de riso para cada piada nossa.

R – O CQC nunca vai ser um programa popular pra caralho, ele nunca vai fazer 20 pontos no Ibope. Ele não tem o perfil. Nós ainda vivemos num País pobre. Eu sempre falo que esse programa tem muito mais chance de ser um sucesso comercial. O dia que o mercado entender que a gente fala para o público A e B inteligente, que tem dinheiro e quer uma opção diferente na sua TV, ele vai ser um puta sucesso.

Vocês vão começar a fazer merchandising então?
R – Já tem

Mas da Skol, e é uma propaganda inseriada antes de uma reportagem ir para o ar. Não tem ainda Techpix ou iogurteira Top Therm...
R- Não, o formato do programa não permite que o cara interrompa rapidamente e fale: "Olhe, a Techpix!".

D – Nenhum país que exibe o CQC permite isso.

Se o programa fosse feito por brasileiros ele não seria assim? Não estou querendo dizer que os argentinos são mais culturais..
D – Não é o argentino, o povo dos outros países latino-americanos é mais politizado que o brasileiro. A Bolívia, que é um país muito pobre, em todos os lugares que eu fui só encontrei pichações políticas. Não tinha nada do tipo: "Ei, seu viado!"

O pessoal está estranhando vocês falarem tanto de política?
R – A gente não tinha a cultura de fazer isso no palco.

D - Eu me arrisquei algumas três vezes na stand-up e nunca tive resposta do público – ou eu que não tinha bagagem para fazer uma piada tão boa. Agora está mais fácil. Quando eu tinha material político eu o deixava no blog.

R – O formato de palco é mais do dia-a-dia. Uma coisa nossa é que, quando escrevemos um texto, a gente o pensa para que ele fique com você para sempre. E a política, infelizmente, você fala do Renan Calheiros hoje e amanhã sai outro escândalo. É mais fácil escrever sobre seu amigo perneta.

O que rola ali no balcão, as piadas entre o Rafinha, o Luque e o Tas. É tudo improviso ou é combinado?
D – A maioria é combinada. Mas a gente já prevê a reação de uma piada.

Vocês assistem TV?
D – Não, faz muitos anos. Na internet eu escrevo, leio... Eu baixo para assistir depois, não tenho saco de ficar pesquisando.

R – Já assisti muita comédia no YouTube, ver comediantes de outros países para ver o estilo deles, mas hoje eu dei uma largada.

D – Só vejo sitcom em TV a cabo e cinema.

Hoje não precisa mais de TV para ver TV?
R – Agora talvez não, mas acho que em 20 anos, com o crescimento da banda, é possível que isso aconteça. Você já viu o Joost? Eu tenho em casa, é on-demand. É uma locadora de vídeos, dividida em canais. A qualidade é muito boa.

D – Mas eu acho que eu baixar o programa na internet para ver no computador ainda é TV. O que está mudando é o formato. Cada matéria do CQC tem dois, quatro minutos. É o tempo de internet.

R – Eu falei isso quando saiu o Repórter Inexperiente. Ele tem humor rápido, tem umas coisas visuais legais. Já o Proteste Já tem uma historinha, é mais para a televisão. Eu acho que daqui um tempo não será o formato de TV ou de internet, será tudo conjugado.

D – E vai ser tudo mais dinâmico. O pessoal está cansado de ficar esperando a novela começar.

R – Existem mil maneiras de você conseguir isso. O TiVo nunca veio para o Brasil porque não é interesse das emissoras de televisão possibilitar que as pessoas possam interagir com ela. A Globo quer que você acorde com o Bom Dia Brasil, almoce com o Jornal Hoje e jante vendo o Jornal Nacional. O brasileiro médio não cansou disso, mas essa nova geração quer interagir, gravar, assistir em outro horário.

D – Já tem TV com HD embutido, você nem precisa mais de videocassete

Mas elas custam 7 , 9 mil, Danilo!
D – Mas na próxima Copa eles já vão parcelar! Essa possibilidade é o novo controle remoto. Quando ele surgiu, a publicidade teve de quebrar a cabeça, pois antes o pessoal deixava lá no canal e tinha preguiça de mudar. Aí começaram a zapear e inventaram várias maneiras de a pessoa não mudar de canal. A televisão vai ter de pensar agora nessa possibilidade, de se gravar e assistir quando quiser.

O que a TV tem de fazer para fazer o pessoal não sair dela e ir para a internet?
R – Tem de parar de querer isso, porque é inevitável. A minha mulher não tem mais o horário dela, ela não quer mais esperar o comercial para ver a novela. Tem de parar de tentar barrar essas tecnologias e entender a nova cabeça dessa galera que não assiste ao CQC na segunda à noite e o vê na terça à tarde. A Globo tira do ar conteúdo que seus espectadores disponibilizam no YouTube. Essa coisa de preservar informação não existe mais.

A televisão mudou algo para vocês?
D – Estou mais cansado...

R – A gente está fazendo menos shows fora do estado e para empresas, que é o que nos dava mais dinheiro.

Ainda não precisa da TV para fazer sucesso? Vocês falaram isso para mim nas entrevistas do ano passado. A cabeça de vocês mudou após irem para a televisão aberta?
D – Não, não mudou nada.

R - Eu faço uma experiência: tem uma parte do meu show em que faço uma piada que tem na internet também. Depois e eu pergunto quem a ouviu no YouTube. 90% do público levanta a mão. Agora eu faço essa mesma piada no show, faço a mesma pergunta e depois também pergunto quem me assistiu no CQQ. Daí só 65% levanta a mão para essa questão. Ou seja: eu tenho a prova de que o meu público está vindo mais da internet do que da televisão.

* foto: Robson Fernanjes/AE

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