7 de jan de 2006

Feliz novo ano

Estava eu, quinta-feira, no ponto de ônibus da Avenida Paulista. Ponto este que por mais de dois anos foi o meu trajeto diário de voltar para casa, em qualquer ônibus laranjinha de nome "alguma coisa Continental". Desta vez eu esperava outro ônibus, agora de cor verde, que me levaria direto ao trabalho - sim, estou estagiando em um lugar bem bacana, há uma semana, mas depois conto isso melhor para vocês.

Um rapaz perto de mim, camiseta verde, cabelo bem curtinho de franjinha à la Brit Pop e usando óculos de armação grossa, folheava um livro, em pé. Admiro quem consegue essa proeza, a de ler em pé. Como de costume, passo perto dele e bisbilhoteio o que lê: Angústia, de Graciliano Ramos. Sempre tive vontade de lê-lo também, pois poucos livros em minha vida me tocaram tanto quanto Vidas Secas.

O ônibus verdinho passa e eu subo nele. Enquanto espero para passar pela catraca, avisto uma garota bonita, cabelos longos e claros, presos por uma faixa. Colar de Pau-Brasil no pescoço, blusinha de renda branca, está com a cara enfiada em um livro. Sento atrás dela, estico o pescoço e noto que ela lê Angústia, como o outro garoto. Deve ser para alguma faculdade, penso, pois tamanha coincidência é meio rara.

Eis que o menino que lia Graciliano em pé espera ansiosamente para passar pela catraca. Olho para ele e observo, que tal como eu, ele também se impressiona com a beleza da garota de cabelos castanhos claros. Ele força os olhos e dá um sorriso, percebendo que a capa do livro que ela lê com tanta atenção é o mesmo que ele guarda debaixo de um dos braços. Passa pelo cobrador e senta - adivinhem ao lado de quem!

Fico extasiado com a cena. Sentado atrás deles, consigo decifrar a cara de pau dele, que abre o seu livro, olha para o lado e solta um falso "não acredito!", cutucando-a de leve. "USP?", ela pergunta. "Engenharia Civil, e você?", ele dispara com um olhar 43. "Psicologia", responde a garota, rindo. Ele engata uma conversa, bobo que não é, e batem um papo sobre vestibulares, faculdades, cursinhos e professores chatos - coisas que todo vestibulando adora falar.

Esqueço um pouco deles e penso na vida, que em 2003 eu estava na mesma situação que os dois, prestando vestibular, e não sabendo como seria a minha vida no futuro. E lembrei que dois meses depois eu já morava em outra cidade e fazia o curso que eu tanto sonhei um dia fazer. E que um pouco depois eu namorava pela primeira vez, e achava que tudo o que eu almejava acontecia muito rápido e isso me fazia a sentir a pessoinha mais feliz do universo - exatamente como me sinto hoje, ao escrever esse texto ouvindo Clap Your Hands Say Yeah!, banda indie bem legalzinha, no som do meu quarto em Sorocaba.

Ah, em relação aos dois vestibulandos, digo que o rapaz mandou muito bem. Antes de descer em seu ponto, ele pediu para a menina se podia adicioná-la no Orkut. Ela respondeu positivamente, fazendo charme e dizendo "Eu não tenho caneta nem onde escrever". Ele balançou os ombros, como se dissesse "não tem problema, tenho uma caneta aqui na minha mochila". E foi isso que ele fez, dando a caneta para ela. Ela esperou e disse: "Mas onde eu posso escrever para você?". "Aqui mesmo", ele respondeu de lata, tirando o seu exemplar de Angústia do colo.

Depois ele foi embora e, juro para vocês, que ele chegou a dar um pulinho de alegria ao atravessar a rua.

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