8 de abr de 2004

Uma partida de futebol

Sou são-paulino roxo e há tempos que meu time não me dá grandes alegrias. Ser chamado na rua de bambi ou pipoqueiro não é fácil, mas mesmo assim, continuo firme e forte com o meu tricolor paulista, ainda mais que estamos jogando o nosso torneio preferido: a “Taça Libertadores da América”.

Jogos duros; tem que enfrentar nossos “hermanos” vizinhos. É uma ótima razão para se acompanhar ao vivo, no estádio. Torcida comparece em peso, mais de 40 mil pessoas vibrando por um ideal. Porra! É legal pra caramba! Até quem não gosta de futebol não consegue se deixar contagiar pelo clima de um estádio lotado. Você pula, vibra, xinga e sofre. É melhor do que qualquer psicólogo. “São tantas emoções”, já dizia o rei Roberto.

São-paulino é o torcedor mais inconstante que conheço. Time está jogando bem? Aplaudimos, berramos e incentivamos. Agora, quando erra um passe, perde um gol feito e nada do placar sair do zero? Dá até dó da mãe dos jogadores; a cada vez que vou eu aprendo um palavrão novo. Torcedor é uma figura.

Ontem, o jogo estava difícil, o tricolor jogava feio que até doía. Sorte que temos um atacante que joga pelo time inteiro. No início, tremendo sufoco. Diversos “treinadores” se manifestam. “Volta, Jean!”; “Olha a marcação!”; “Passa a bola, Simplício!”. Existem os religiosos, que a cada jogada erguem as mãos ao alto e tentam, de maneira atrapalhada, fazer o sinal da cruz. Às vezes sai uma Estrela de Davi, por distração.

Gol do Alianza. Silêncio... Impedido!, berro. Silêncio... A Independente puxa o coro: “São Paaaaaulooooooo! São Paaaaauloooo!”. O estádio obedece e o time vai pra cima. Bola na trave. Puta que o pariu!, exclamo, colocando as mãos na cabeça. Passe errado. Passa, filho-da-puta!; Vai!; isso... bate, bate, bate.... Gol. GOL! GOL! GOOOOOOOL!!. Estouram rojões, um sinalizador, ou coisa parecida, é aceso. Uma fumaça vermelha e branca toma conta da arquibancada. O juiz apita o final de primeiro tempo.

Olhamos um para a cara do outro. Nossos olhares expressam o mesmo sentimento. A torcida vibra, comemora como se fosse um gol; entra um time só de loiras de shortinhos, fazendo embaixada. Gostosa!; Tesão!, Tira a camisa!. A mulher se sente a Rita Cadillac em pleno Carandiru. O engraçado, é que só dá para ver a cabeleira das moças. Juro que se estiver um travesti lá embaixo, serão poucos o que notarão. O placar eletrônico dá a notícia preferida de são-paulinos, palmeirenses e santistas: gol do Ituano contra o Corinthians. “Ei, Corinthians! Vai tomar no **!”, ecoa Morumbi afora. Começa um das coisas mais legais já inventadas: a ola. O Morumbi vira mar e ondas são formadas. Ooooooolaaaaaa!, berro, levantando os braços e subindo na cadeira. Os times voltam, assim como o sofrimento.

Roubam a bola, lançamento para o Luis Fabiano. “Vai, caramba! Isso! Bate! Nossa Senhora! Que golaço, que golaço...”. GOOOOOOOOLLLL! Abraço sei-lá-quem. Amor de torcedor é amor de carnaval. Tiramos a camiseta e começamos a rodá-la no ar. Fica lindo. “Uh! Tricolor! Uh! Tricolor!”. A torcida inflama, canta o nome de seu ídolo-mor: “LU-IS FABIANO! LU-IS FABIANO!”. Mas como já disse, o meu tricolor adora gerar uns infartos em sua torcida. Passes errados, uma bola na trave contra, outra bola que passa raspando... CUCA, RETRANQUEIRO!, berro. A torcida chia, pede substituições. Após vinte minutos somos atendidos, entrando um baixinho, de Belém, chamado Vélber. “Esse joga!”, comenta o garoto ao meu lado. Joga mesmo: dribla, corta, passa direitinho. O paraense enfia uma bola magistral para o lateral direito, que cruza na medida para o nosso ídolo-mor, que de voleio marca mais um.

Daí vira uma festa. Gritamos “olé!” e “eliminados” para o time peruano. As camisetas novamente rodopiam no ar. Acaba o jogo e todos saem felizes. São Paulo vence e o Corinthians perde no amistoso que disputara. Uma quarta-feira perfeita.

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