13 de mar de 2004



Ser filho de médico é ser um “médico por tabela”. Impressionante como as pessoas pensam que apenas pelo fato de ter o papai doutor, o filho obrigatoriamente tem que seguir a carreira dos progenitores ou saber alguma coisa sobre medicina. Isso acontece com muitos, não precisa ser filho de médicos.

Sete anos atrás, eu estudei com a sobrinha do prefeito da cidade. A garota era o pombo-correio na escola. Professores e pais de alunos diziam ser vergonha nenhuma: “Viu, precisa asfaltar a calçada da minha rua”; “Quando vão construir tal estacionamento?”; “Sabia que é um absurdo o que eu pago de água e luz nessa cidade?”. Qualquer uma dessas frases era encerrada com o famigerado: “Vê se fala com o seu tio”.

Outro garoto que estudava comigo, tinha ambos os pais endócrinos. Chamava-se Carlos; era engraçado e gordinho. Nunca tinha pique para agüentar as tediosas aulas de Educação Física. Certa vez, o professor mandara todos os homens darem algumas voltas ao redor da quadra. Adivinhem quem não terminou o exercício? Sem um pingo de educação e mostrando todo o preconceito do ser humano, Carlos ouviu do treinador.

- Como você consegue ser gordo, se teu pai é endócrino?

Mama é dermatologista, e por isso já passei por incontáveis "saias-justas". Diversas vezes o telefone tocava em casa.

- Gustavo, sua mãe atende tal convênio?
- Não sei...
- Pergunta pra ela; eu espero.

Tentando ser educado, respondia:

- Ela está ocupada, quer o telefone do consultório?
- Ah, não sei... Não tem como falar com ela? É que eu tenho uma coceira estranha, meu primo tem uma mancha na perna...

Pior eram as meninas.

- Oi, Gustavo! Tudo bom? O que fez hoje? Hummm... sei... Viu, você pode me responder uma dúvida?
- Posso..., respondia pressentindo.
- Quanto que é o peeling? Arde? Queima? Dá pra conversar rapidinho com a sua mãe? Ela não faz um desconto? Somos amigos, não é mesmo?

A tática do telefone do consultório sempre funcionou - inclusive em casos piores. Como toda regra tem a sua exceção, essa tática já falhou. Certa vez, fazendo uma prova de recuperação, o “tiozinho” que supervisionava os alunos veio em minha direção, todo dengoso.

- Estava vendo seu sobrenome e, por acaso, você é irmão do Luizão?
- Sim. , respondia, maneando a cabeça.
- Seu irmão me arranjava umas amostras grátis...
- Bacana...
- ...
- ...
- Pede pra sua mãe um favorzinho? Ela sabe quem eu sou.
- Tudo bem. Peraí que vou te passar o tel do consultório dela.
- Não, não! Eu só quero saber o que é esse inchaço no meu tornozelo!

Juro que ele ergueu a barra da calça, abaixou a meia e mostrou o ferimento.

- Tá vendo, ó! Coça pra danar! Você não sabe o que é?

OBS: É nessas horas que eu agradeço por não ter um pai urologista.

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