10 de mar de 2004

Guerreiras em Atenas

A ESPN Brasil, têm uns programas bem bananas. Um deles é “Histórias do Esporte”, que sempre conta algumas historietas, no modelo documentário, sobre esportistas desconhecidos brasileiros, que dão um tremendo esforço para se manterem numa modalidade que não recebem incentivo, suporte ou coisa parecida – já que no Brasil só futebol dá lucro, segundo o pensamento desses incompetentes que não sabem administrar o esporte tupiniquim.

Semana passada, o programa mostrou a terrível situação de nossas futebolistas. Estranho, não? Como o futebol pode ignorado no “país do futebol”. Isso acontece quando se trata do futebol feminino. Não existe nenhum torneio de futebol feminino em nosso país. Algumas jogadoras dão a sorte de conseguirem fazer o “pé-de-meia” na terra do Mickey. De nossa seleção feminina, acho que duas ou três tiveram essa oportunidade, já o resto, passa por algumas situações humilhantes, como: “treinar” no quintal de casa, correr no pasto ao lado de galinhas e ovelhas e ter como “partidas oficiais”, uma pelada no campinho de várzea de seus bairros, jogando contra guris de dez anos. É de dar raiva, tamanha injustiça com essas guerreiras – a melhor adjetivo pra defini-las. A atacante Maicon Jackson, mora numa casa de madeira, por exemplo.

O que me deixa puto, é tamanha desigualdade: o masculino, com seus contratos milionários, com Nike pra tudo quando é lado, com empresários e o escambau, não teve a decência de conseguir uma vaguinha para os jogos olímpicos de Atenas. Mas nossas guerreiras estarão na terra de Platão, batalhando por um holofote, uma chance de arrumar as trouxas e ir para os Estados Unidos, fugindo dessa terra desgraçada. Mostrarão para o Ricardo Teixeira, que o que vale na hora de vestir a amarelinha, é garra e paixão pela sua terra, e não há dinheiro que compre isso. Admiro-as, jogam melhor que esses pernetas, como Lúcio e Emerson.

Com um sentimento nostálgico, lembro de quando havia uma competição de futebol feminino no Brasil. Todo domingo de manhã lá estava Sissi, Kátia Cilene e cia dando um banho no gramado do Ibirapuera. Sissi – a Maradona feminina – é minha lembrança mais engraçada de uma partida de futebol. A torcida são-paulina - cansada das más atuações do atacante Valdir - cantava Morumbi afora: “Si-ssi! É melhor do que Valdir!”.

Dizem que não há dinheiro pra investir em nossas mulheres, por isso, dou cá minha sugestão: já que pra assistir uma partida no estádio tem que pagar 20 reais, por que não emendar o torneio feminino junto com o masculino? As partidas seriam antes da cuecada, como um jogo de abertura. Primeiro as mulheres, depois os homens, seguindo às regras básicas da educação, não é mesmo? Iria solucionar diversos problemas. Os estádios receberiam maiores públicos e a farra voltaria às arquibancadas. Nada como um bando de garotas de shorts pra animar os torcedores! Além de tudo, daríamos a nossas guerreiras aquilo que elas já merecem há anos: viverem daquilo que amam.

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