14 de fev de 2010

Grau 26 mistura literatura com seriados e redes sociais


Em plena época de convergência digital, muito se fala sobre o encontro de mídias em uma única plataforma: a internet. A televisão já migrou para esse ambiente, assim como o rádio, a telefonia, os jornais e as revistas. Mas e os livros? Para se ter uma ideia de como pode ser feita tal conversa, vale a pena dar uma olhada em Grau 26: A Origem (Editora Record, 420 págs.), batizado de “o primeiro romance digital interativo” da história.

Escrito por Anthony E. Zuiker, o criador da popular série de TV CSI, em parceria com Duane Swierczynski, a obra é um livro policial misturado com elementos cinematográficos e rede sociais. Estão chamando isso de “digilivro” (http://www.youtube.com/watch?v=6GfYeaU7r9A). Mas, antes de saber o que é isso, entenda a história de Grau 26. O romance fala sobre um psicopata que foi incluído dentro de um novo grau de perversidade. Quem trabalha com a lei sabe que os homicidas são classificados em 25 graus, de oportunistas premeditados a torturadores metódicos. Mas acontece que há mais de duas décadas um serial killer apelidado de Squeegel obrigou a polícia americana a classificá-lo em uma categoria: o grau 26.

Ele nunca deixou um vestígio para trás. Não tem uma assinatura, um método, nada. Mata qualquer pessoa que passar pela sua frente – menos bebês. Veste uma roupa de látex que cobre o corpo todo, apenas com aberturas nos olhos e um zíper na boca. Somente um perito criminal conseguiu chegar perto de Squeegel: Steve Dark. Os outros morreram ou ficaram loucos. Após ter toda a sua família adotiva morta pelo psicopata, Dark larga o caso e a profissão. Anos depois é “obrigado” a voltar a caçar o serial killer, que agora é quem o persegue.



O que existe de digital no livro aparece ao final de alguns capítulos. Em momentos de cliffhanger (aquele suspense final que trará uma revelação surpreendente), a história é interrompida e mostra o endereço do site http://www.grau26.com.br/, com um código de acesso para ver um vídeo que mostra o que vai acontecer. São 20 desses ao todo. É preciso entrar na página e criar um cadastro. Ela é praticamente uma rede social para os leitores conversarem entre si. Ao fazer uma conta, os primeiros amigos que aparecem são, justamente, os autores. Os vídeos têm entre dois e três minutos, trazem legendas em português e lembram um seriado online.


A fórmula é interessante, mas acaba com a imaginação do leitor. Vemos, em carne e osso, os personagens descritos na obra literária, assim como os cenários que criamos em nossas cabeças. Também não é nada prática ler um livro com o computador ligado ao lado, para fazer aquilo que Zuker chama de ciberponte. Um livro exige concentração e dedicação. Precisar entrar em um site para ver um filmete dispersa um bocado. O objetivo dessa interação é fazer de Grau 26 uma experiência.

É preciso deixar claro que ele pode ser lido normalmente: aquilo que aparece nos vídeos é descrito algumas páginas à frente, ou seja, as ciberpontes são um complemento do romance policial - muito bem escrito, por sinal, com uma história envolvente e viciante. No final, o que importa mesmo é o conteúdo literário, não o digital. Mesmo assim, conferir o universo de Grau 26 dentro da web é uma obrigação, até para entender esse formato, que indica uma nova forma de leitura. Essa interação pode não funcionar perfeitamente com um livro tradicional, mas irá permitir um grau de imersão interessante em e-books.

* Matéria publicada no Virgula

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