26 de out de 2009

The Big Bang Theory: qual é o segredo da fórmula?

SAN DIEGO - Os nerds contra-atacam. Após meses de espera, The Big Bang Theory retorna à TV brasileira com novos episódios. Às 21h30 desta terça-feira, 27, começa a 3ª temporada pelo Warner Channel. Vale ficar de olho: trata-se de um fenômeno de audiência, que bate recordes nos EUA a cada semana – o último capítulo teve mais de 15 milhões de espectadores. E o título é, ao lado de Two and a Half Men, a comédia mais vista da América Latina.

Não por acaso, os dois sucessos levam a mesma assinatura: Chuck Lorre. Com Bill Prady, um ex-desenvolvedor de softwares, ele produziu esse show sobre dois amigos físicos, Sheldon e Leonard, que sabem tudo sobre o universo mas são incapazes de conversar com uma mulher. Ao lado de dois amigos inseparáveis, Howard e Koothrapali, seus hobbies são comprar quadrinhos, jogar paintball e ir a festas de cosplay.

O quarteto é metódico, a ponto de ter uma noite da semana voltada só para jogar o game Halo, e outra para jantar comida chinesa. A vida deles é transformada após a chegada de uma vizinha ao edifício que tem o seu elevador quebrado ad eternum: a loira Penny, uma garçonete aspirante a atriz. "Ela é o passaporte deles para o mundo exterior. Ela é divertida e relaxada, e isso os influencia", explica a atriz Kaley Cuoco, a Penny.

O roteiro é inteligente e, mesmo cheio de referências tecnológicas e científicas, agrada todo tipo de público. Mas a graça mesmo está no elenco de nerds – em especial, o personagem Sheldon Cooper, um monstro criado pelo ator Jim Parsons (leia entrevista ao lado). Obsessivo, ingênuo e antissocial, Sheldon é a figura mais carismática da TV atual. The Big Bang Theory, no entanto, não se trata de um one man show, diz Lorre.

"Grandes personagens surgem de histórias coletivas. Jim é uma pessoa que se destaca, mas todos são muito talentosos. O grupo funciona como um time, isso é o que o torna tão especial", diz. "Você imaginaria Archie Bunker (Tudo em Família) sem Edith? Um show não se sustenta sem personagens interessantes, pois só assim você tem várias histórias para contar."

DOIS PROJETOS, UMA SÉRIE

A série nasceu de dois projetos distintos. Lorre queria produzir uma série sobre uma garota sonhadora, que tem de lidar com as agruras da vida. Já Prady queria transformar em personagens seus ex-colegas dos tempos de programador. Até que veio o clique: "e se ela conhecesse os nerds?"

Sheldon e Leonard seriam coadjuvantes de Penny, mas grupos de discussão se mostraram muito mais interessados pelas histórias dos geeks. "Achei que no começo eu seria só a loira gostosa e tapada que mora ao lado", admite Kaley.

Em tempos em que as comédias americanas buscam inovar seus formatos, como os falsos documentários de The Office e Modern Family, The Big Bang Theory segue a tradicional fórmula das três câmeras filmando um cenário, com uma plateia assistindo tudo ao vivo (daí aquelas risadas ao fundo). "É excitante por termos essa resposta imediata, mas também é muito vulnerável. Se o material não funciona ouvimos um silêncio, é um som terrível", diz Lorre. "Paramos a gravação e reescrevemos a piada. Se ela é uma droga com a plateia, também será na TV", acredita.

Um professor de física e de astronomia é responsável por revisar o roteiro e fornecer o denso material. Aos poucos, ele mesmo começou a sugerir umas piadas. O texto é um desafio ao elenco, e os atores admitem que entendem patavina do que falam. "Como laboratório, eu e o Jim saímos com uns professores e cientistas de Los Angeles para tentarmos aprender algo. Bastaram 20 minutos para percebermos que não tinha como", ri Johnny Galecki, o Leonard.

Na nova temporada, ele e Penny vão namorar. Questionada se já se apaixonou por algum nerd, Kaley sorri. "Totalmente! Amo conversar sobre física e qualquer coisa que envolva matemática. Graças ao show, sei muito sobre Star Trek e mais do que preciso sobre Star Wars."

Mas... e Sheldon? Será que um dia ele também irá encontrar um grande amor? Lorre responde com bom humor. "Sheldon é apaixonado por física. E pelo Sheldon. É um caso de amor com o próprio cérebro, por isso ele é tão especial."

'Eu me sinto uma vovó'
Jim Parsons diz não ter nada do seu Sheldon Cooper. Quando contou isso, os jornalistas que se aglomeravam na mesa em que ele estava ficaram decepcionados. Mas basta fechar os olhos para ter a sensação de que a pessoa que está ali, sentada ao seu lado, é realmente o físico especialista na Teoria das Cordas.

A voz que chega a afinar nas exclamações e até a risada característica fazem parte de Parsons. Não foram trejeitos criados pelo intérprete, que neste ano foi indicado como melhor ator de comédia ao Emmy. Simpático até dizer chega, ele respondeu às perguntas de cada jornalista. E atendeu às solicitações dos mais empolgados, que pediam para ele sussurrar "I’m Batman", ou exclamar um "Bazinga", e até mesmo dar um "oi, mamãe" às câmeras do celular.

Qual é a sensação de ser indicado pela primeira vez a um Emmy?

Nossa, foi como se eu saísse do próprio corpo. Logo vieram falando se eu saberia o que iria vestir e achei isso estranho, porque não é só pôr um smoking? Me senti com 15 anos. De onde você é?

Eu? Do Brasil!

Ah, sério? Eu fiz um comercial no Brasil uma vez e eu era o único ator que falava inglês dali. Essa foi a experiência mais estranha da minha vida!

Inclusive tem uma camiseta que vende por lá com sua foto. Você aparece de Che Guevara e embaixo está escrito "Cheldon". Como é virar um ícone nerd?

Não sei como é se sentir assim, é algo muito novo, especialmente agora que você falou desta camiseta! Por que você não me trouxe uma? (Risos)

E você tem algo de nerd?

Nada. Nunca fui bom em videogame, mas jogo pingue-pongue com o pessoal do elenco e da produção. Sou nerd no sentido de ser praticamente um velhinho. Gosto de dormir e acordar cedo, ouvir rádio enquanto me exercito... Isso é muito mais do que você precisa saber, mas eu me sinto uma vovó. Eu não sou o cara mais bacana do mundo.

Você entende algo daquelas referências que o Sheldon adora jogar na cara dos outros?

Ai... Eu não digo isso de uma maneira ruim, mas raramente. Entre o fã de quadrinhos e o cientista há uma linha tênue de conhecimento. Eu sei o que estou dizendo, mas nunca parei para rir depois de ler uma fala e berrar: "Entendi!" Teve uma cena na loja de HQs que eu não tinha muito o que fazer, então li um gibi. Nem lembro o nome dele, era com tiros. Foi agradável!

O Sheldon tem um jeito todo especial de falar e de se expressar. Essas idiossincrasias foram criações suas?

Eu diria que o "knock-knock-knock, Penny, Penny, Penny". Mas é algo meio "o ovo ou a galinha?" Não sei se alguém escreveu ou se fui eu que fiz. E tem pequenas coisas que os roteiristas escrevem ao me observarem. Eu não tentei pôr uma voz, um jeito especial de andar... Eu apenas estudo as palavras.

Como os fãs se aproximam de você nas ruas? Eles acham que você é igual ao Sheldon?

Não. Eu até sonho que alguém chega até mim e diz coisas estranhas, que pensa que sou um cara muito esperto... (Risos) Mas não, eles sabem que sou um ator.

* Matéria publicada no Estadão

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