9 de set de 2009

Os perdedores contra-atacam


NOVA YORK - Pense naqueles personagens clássicos dos filmes teens americanos. O jogador de futebol americano que é a estrela da escola e que namora a chefe de torcida loirinha e popular. Ou o nerd que é enfiado na lata de lixo todo dia. Ou o cara estranho que não se encaixa em nenhum grupo... Agora pense neles cantando, felizes, como se não houvesse amanhã. Lembrou de High School Musical? Pois saiba que assim pode ser resumida Glee, a comédia sensação dos Estados Unidos que terá sua pré-estreia no Brasil no domingo, dia 13, às 22h, na Fox.

Antes, vale o aviso: não se deixe levar pelo pré-conceito desta breve sinopse. Glee é uma comédia musical de uma hora cheia de humor negro, que leva a assinatura de Ryan Murphy, a "mente doentia" por trás de Nip/Tuck. Exemplos: sabe o quarterback popular? Então, ele gosta mesmo é de cantar e dançar. Sua namorada cheerleader? Na verdade, ela é uma religiosa fervorosa, que adere ao voto de castidade. Isso sem falar do cadeirante dançarino, da lésbica punk e da filha de um casal de homens. Ficou mais interessante, não?

A história de Glee se passa dentro do McKinley High School. O professor de espanhol Will Schuester (Matthew Morrison) é um idealista, que assume a coordenação do Glee Club do colégio, um clube musical largado às traças. Como Will fez parte dele quando estudante, aceita o desafio de deixá-lo pronto para o campeonato regional de glees. Não será fácil: o diretor cortou todas as verbas e sua esposa simula uma gravidez para que ele largue o "frila gratuito" e arranje um emprego extra.

Os alunos que entram na empreitada são os losers . Só quando o astro de futebol americano Finn Hudson (Cory Monteith) se junta ao grupo é que toda a escola fica de olho no projeto. "O glee é o elo de todo mundo, que mostra que é O.k. ser quem você é", diz ao Estado a atriz Lea Michele, em evento para a imprensa mundial em Nova York.

Ela vive a protagonista Rachel, a menina sacaneada por todos, que é adotada por um casal gay e se acha a melhor cantora do mundo. Seu hobby é se filmar cantando para se exibir no MySpace.

DE REHAB A CHICAGO

O trunfo do seriado são os ensaios musicais dos alunos, que fazem releituras de sucessos do passado e do presente. "A música traz alegria às pessoas. O show vai abrir os horizontes musicais dos espectadores, as crianças agora vão ouvir John Denver", acredita Matthew Morrison, o professor Will.

O primeiro episódio de Glee é um bom aperitivo do que virá pelos próximos 21 capítulos da 1ª temporada. Os atores cantam hits radiofônicos da hora, como Rehab, de Amy Winehouse, e I Kissed a Girl, de Katy Perry. Mas também interpretam Mr. Cellophane, do musical Chicago, e Don’t Stop Believin, da banda de hard rock Journey.

A versão de Glee para essa música, aliás, vendeu 400 mil downloads no iTunes, o que mostra a euforia inicial em torno da produção, que terá o seu segundo episódio exibido nos EUA na semana que vem (e em 4 de novembro no Brasil). "Nossas versões são até melhores que as originais", diz Matthew, sobre o sucesso precoce da série. "Glee mostra mais a realidade de ser um estudante. No High School é todo mundo bonito", brinca Chris Colfer, que interpreta o gay/pavão Kurt.

Entre as músicas que aparecerão nos próximos episódios estão Love of My Life (Queen), Gold Digger, do rapper Kanye West, e inúmeros trechos de musicais famosos. O elenco é categórico ao afirmar que a mais talentosa ali é a atriz Amber Riley, intérprete da deslumbrada Mercedes. Perguntada sobre quem a inspirou para a construção da personagem, Amber falou, séria. "Em mim, na minha diva interna!"

OFF-BROADWAY

Cory Monteith, que faz o quarterback Finn, é o único que não cantava ou dançava antes – todo o cast tem formação teatral ou musical, com passagens pela Broadway. "Trabalhava em uma construção, só atuo há 6 anos. As danças do primeiro episódio eram até simples, mas apanhei horrores", ri. Ele também nunca tinha jogado futebol americano até então. "Não sabia para onde devia correr."

A molecada tem entre 18 e 25 anos e se considera uma família. Muitos dos atores até moram juntos em Los Angeles. "Fica um escutando o iPod do outro no set, mas sempre tomando cuidado com a cera alheia", brinca Chris. "Todo mundo canta nos intervalos. É para chamar a atenção do Ryan (Murphy), ele sempre inclui no roteiro as músicas que a gente gosta", diz Kevin Mchale, o nerd Arty.

Duas curiosidades sobre Kevin. Um: seu melhor amigo é brasileiro, então sempre passas as férias aqui. Dois: é um excelente dançarino. Mas Ryan Murphy, e seu conhecido humor negro, fez dele um cadeirante na série.

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Entrevista com Ryan Murphy: 'Glee é igual aos filmes do Rocky'
Ryan Murphy é o mandachuva de Glee. Além de ser um dos três roteiristas, é o principal produtor executivo da Fox. Nada entra no ar sem sua aprovação. Mas isso não faz dele alguém temido nos bastidores, ao contrário. Ele falou com o Estado um dia depois do evento com o elenco.

É verdade que a série tem muito da sua infância?

Me envergonha o fato de ter sido muito Rachel: era presidente de todos os clubes do colégio. Cresci em Indiana, era obsessivo com a ideia de ser maior que a minha cidade. O personagem gay de Chris Colfer foi tirado da minha vida. O primeiro filme que vi foi Funny Girl – A Garota Genial. Sempre quis usar a faixa Don’t Rain On My Parade deste musical nos meus trabalhos. Agora pude.

Você também criou 'Popular'. Isso ajudou na hora de voltar a escrever sobre adolescentes?

Popular foi sobre sobre seus problemas e incompreensões, era cínico e obscuro. Nunca quis fazer um show sobre teens, mas explorá-los.

Como será conduzida a história durante a temporada? O piloto mostra tudo de uma vez!

Não sei o que o futuro me reserva, faço isso mesmo. Mas sempre sei onde a história termina. Glee é igual aos filmes do Rocky. O primeiro tem os perdedores, que vêm do nada pelo amor de uma grande pessoa e buscam sair vitoriosos de uma competição. No segundo ano eles são campeões. O quarto vai ser na Rússia! (risos)

Como é o processo de gravação de 'Glee'?

É produzir um filme a cada seis dias. Definimos o tema do episódio e depois passo uns dias dirigindo por Los Angeles para selecionar umas seis músicas. As músicas têm de ser aprovadas pelos artistas, nenhum ainda disse não. Grandes estrelas, como Barbra Streisand, Billy Joel e Beyoncé, amam o tema do show. Depois escuto a demo da música, faço anotações e eles gravam. Daí são mais uns dias para a coreografia.

Existe a hipótese de pôr músicas originais na série?

Sempre disse que não, gosto do show porque as pessoas identificam as faixas. Recebo ligações de compositores todos os dias. Agora posso chegar nos tops do mundo e falar: "a Rachel tá se sentindo assim, me escreva uma canção, Diane Warren". Vamos ter um episódio com oito músicas originais para serem vendidas como singles depois.

Você aceita as sugestões musicais dos atores?

Quando se trabalha com um monte de crianças talentosas, seu trabalho é espioná-las. Teve um dia que eles cantaram Ride With Me do rapper Nelly, e amei. Na outra semana estava lá. Também estava conversando com o Chris Couler, que falou que as melhores canções da Broadway são cantadas por mulheres e que queria ser garota por um dia, só para cantar algo de Wicked. Falei: "você não precisa ser". E pus. Matthew é um grande dançarino e fez certa vez a dancinha do Thong Song ("música do fio dental"). Já viu... (risos)

* Matéria publicada no Estadão

Um comentário:

Anônimo disse...

There iѕ comρletely no hаssle; thегe аre no othеr issuеs to dο aside frοm placing it aгound уour wаist.



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