3 de ago de 2009

Currículo.com

Quando a atriz Liana Naomi, de 25 anos, começou a atuar na websérie Mina & Lisa, uma produção independente na internet que acumulou mais de 500 mil acessos em 24 episódios, nem imaginava os sustos que teria pela frente. O primeiro deles foi quando o diretor Jayme Monjardim viu o trabalho, gostou, e a convidou para uma ponta na minissérie da Globo, Maysa - Quando Fala o Coração. O segundo veio da atriz e produtora de elenco Cecília Homem de Mello, outra admiradora do seriado online. O apreço resultou em mais um convite - Liana é a Emília de Som & Fúria.

"Mina & Lisa foi um jeito de exercer minha profissão, atuar. Não tinha ideia de que a viriam tanto, é totalmente inacreditável", revela. "Quando cheguei no Projac, a recepcionista logo me reconheceu, eu era 'menina da internet'", brinca.

Este é o exemplo mais recente de uma prática que tem se confirmado como tendência na TV brasileira: a contratação de pessoas que despontam na internet. É o ator que usa a rede para criar produções próprias, o comediante que cria esquetes no YouTube, a menina que faz sucesso no álbum virtual, o blogueiro de humor ácido...

Esse tipo de internauta não atrai os profissionais da televisão apenas pela fama virtual. É pelo talento mesmo. Se no passado um ator requisitado era aquele que também sabia dançar e cantar, o de hoje é aquele escreve um roteiro, dirige e edita um vídeo. "A internet serve para mostrar o seu trabalho, mas principalmente faz você aprender tudo sozinho. Não sabe algo? Busque um tutorial. Quer saber qual é a qualidade do seu trabalho? As críticas e elogios vêm como uma avalanche. É uma puta experiência", diz MariMoon, a colorida garota dos fotologs que é VJ da MTV desde 2008.

Para o ator Felipe Reis, de 25 anos, esse é o "profissional pensante". Ele surgiu na mídia com a websérie Conversas de Elevador. Desde o começo do ano ele virou repórter e apresentador do programa Nossa Língua, da TV Cultura."O ator é um criador acima de tudo. Como eu escrevia, dirigia e atuava no Conversas, tenho uma visão mais ampla do processo", conta. "No programa eu posso palpitar, falar de maneira construtiva sem ser chato. O ator pensante acrescenta à obra."Solange Martins, diretora do Nossa Língua, comenta que o fato de Reis ter uma produção na internet não foi crucial para sua aprovação, afinal, ele tinha de mostrar que, de fato, era bom. Mas admite que sua experiência na web o credenciou para um fator-chave: a habilidade de falar com o público jovem, conectado, espectador almejado por nove entre dez emissoras.


"A internet tem essa visão de ser algo 'mais pra frente', o que conta muito", comenta Lynn Court, de 24 anos, apresentadora da TV Globinho desde este mês. Ela, que comandava antes um programa de cinema no site de uma operadora de celular, explica outro benefício de ser uma artista 2.0. "Ganhei um portfólio em vídeo, de acesso muito mais fácil. Emissoras e produtoras puderam ver minha desenvoltura, como eu interagia com o público. Eu nunca fui chamada pra nada pela Globo quando eu fazia teatro e só ficava mandando foto", ri.

SITE DA MTV SERVE DE ESCOLA

A MTV tem em seu site, o www.mtv.com.br, uma escola de formação de VJs. A página costuma abrir espaço para parcerias com vários blogueiros famosos e produtoras independentes, que têm grandes chances de irem para a TV. É um laboratório para o canal", costuma repetir Mauro Bedaque, gerente de Conteúdo do Portal MTV."A bagagem da web dá segurança na hora de ir para a TV. Traz um know-how da comunicação com o público. Não adianta apenas bombar na rede, pois a audiência na TV é muito maior", explica.

Um bom exemplo é Didi Ferreira, repórter do Furo MTV. Conhecido na web como um dos colaboradores do blog Te Dou um Dado?, ele primeiro ganhou um blog dentro do site do canal. Em seguida, um programete online. Daí até cavar um espaço na televisão foi quase um ano."Fui ficando mais à vontade. Minha linguagem teve de ser adaptada, pois TV é mais popular, enquanto a internet fala de um jeito mais moderno, que atinge um público novo, mais formador de opinião", conta.

Segundo Bedaque, as parcerias são um processo natural. "A internet é uma rede social, feita para descobrir novidades. Pode ser uma nova namorada, um novo apresentador ou roteirista", exemplifica. O termo "processo natural" foi muito usado durante as entrevistas para esta reportagem. Possivelmente ninguém pode afirmá-la melhor que o publicitário Antônio Tabet, mais conhecido pela alcunha de Kibe Loco. Há quatro anos ele é roteirista do Caldeirão do Huck, na Globo.

"Na internet cada um é editor de si mesmo. Eu já trabalhava com redação, o blog só deixou meu trabalho mais visado, o que ajudou na minha contratação", diz. Para ele, a migração de profissionais da web para a TV põe fim a um mito. "Acaba com aquele papo de que a internet vai acabar com a televisão. São duas mídias que convergem muito bem".

10 ANOS DE VÍDEOS ONLINE


Pioneiro na produção de vídeos online, Rafinha Bastos é do tempo em que não existia YouTube nem internet banda larga. Na Página do Rafinha, há 10 anos ele filmava suas esquetes, paródias e imitações. Quem fosse assistir tinha de fazer o download - um vídeo de 3 minutos levava um dia inteiro para ser baixado!

Tempos depois, ele se tornou um dos comediantes mais famosos do YouTube, graças aos seus vídeos de stand-up. Desde 2008 ele é um dos âncoras do jornalístico-humorístico CQC, da Band. E avisa: "essa separação entre internet e televisão vai acabar".

Por que vai acabar?
Os veículos estão cada vez mais se encontrando. Tem vídeo do CQC que bomba mais na internet, tem vídeo da internet que bomba mais no CQC. Vai acabar essa curiosidade em relação à internet, de ela ser um modelo alternativo. As esquetes do (espetáculo teatral) Improvável têm mais audiência no YouTube do que na televisão. O Twitter tem mais visibilidade que TV. O.K, exagerei.

Como você vê a migração de talentos da internet para a TV?
É uma convergência natural. O pessoal que produz vídeos na internet tem mais conhecimento sobre o processo, pois tem de fazer tudo sozinho. Por isso é que dali saem os trabalhos diferenciados. Na internet não existe um Boninho por trás do seu trabalho.


Apesar de estar na Band há um ano, você continua a criar vídeos para a internet. Por quê?
Cara, tenho tesão de interagir com o meu público. Isso parece fala de gente idiota que quer ganhar ibope, mas eu me divirto muito em fazer coisas da minha própria cabeça, sem receber a influência de ninguém e ter um feedback. Descobrir essa conexão direta com o público me viciou! Tem pessoas que me seguem na internet há dez, cinco anos. É muito legal o público ver o meu amadurecimento profissional - há vídeos que fiz vestido de mulher há 8 anos (risos). É um orgulho!

*Matéria publicada no Estadon


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