6 de jul de 2008

Emetebê




Como vocês devem saber, eu me formei em jornalismo no final do passado. Em janeiro tive de levar uma papelada de colação de grau para a faculdade, em fevereiro teve a festa de formatura e em maio colei o tal grau, com direito a juramento e tudo. Isso foi meio que um processo para provar aos meus pais que eu realmente não estava mentindo e, de fato, terminei a faculdade.

Porém, eu tecnicamente não sou considerado um jornalista por não ter o meu registro profissional, vulgo MTB. Médico não tem o CRM? Engenheiro o CREA? Então, jornalista tem o MTB.Na minha carteira de trabalho eu estou registrado como auxiliar de produção. Não sei que raios de profissão é essa. Talvez o assistente de um especialista em fertilidade, não sei. Mas, enfim, é assim que o meu trabalho me registrou para eu não ter mais o sofrível salário de estagiário e passar a receber o também sofrível salário de jornalista.

Ser um auxiliar de profissão não me incomoda (va). Mas, em duas vezes que fui tirar um documento e tive de levar a minha carteira de trabalho, neguinho ficou duvidando da minha real profissão.

- Mas aqui diz que o senhor é auxiliar de produção

- Então, é que eu não tirei o MTB ainda

- Saquei...

- Pois é...

- Porra, mas o que é um auxiliar de produção?

- Deve ser algum assistente de um médico especialista em fertilidade he-he

Ninguém ria dessa piada.

Cansado de passar por esses problemas, resolvi tirar o meu MTB. Fui até a faculdade levar uns documentos e ouvi que deveria ir até a Delegacia do Trabalho, no centro de São Paulo, para "dar entrada no meu MTB". Perguntei para a secretária que me atendeu sobre qual papelada deveria levar. Sem saber me explicar, ela tirou um papel do bolso e rabiscou alguma coisa com a caneta. E falou: "Não sei, liga lá".

Eu liguei. Uma vez. Duas vezes. Um dia. Dois dias. Ninguém atendia. Entrei no Google e achei um formulário de 2005 explicando quais documentos eu deveria levar: cópia do RG, da carteira de trabalho, do CPF e um comprovante de residência. Juntei a papelada e fui até a Delegacia do Trabalho.

Parei o carro na rua, comprei uma folha de Zona Azul e avistei o prédio. Velho, para variar. Um monte de gente tossindo e um monte de funcionário público fingindo trabalhar. Deveria ir até o segundo andar e entrar na sala X. O elevador demorou 10 minutos para chegar e mais 5 minutos só para ir do térreo até o segundo andar. Chegando lá, avistei a sala X e vi um balcão. Atrás dele, uma mulher fazendo palavras cruzadas e outra lendo um bolo de papéis. O telefone tocava. Do outro lado, um monte de cadeiras escolares, aquelas de um braço só. Vazias.

Cheguei ao balcão e dei boa-tarde. A mulher das palavras cruzadas se aproximou e perguntou qual era a minha senha. Eu falei que não tinha uma, e ela rebateu dizendo que só poderia me atender assim. Expliquei que a sala estava vazia e, obviamente, eu seria o próximo a ser atendido. Imbatível como um robô, ela pedia a porcaria da senha.

Saí da sala e achei um rapaz sentado numa cadeira escolar, com uns papéis na mão. Pedi a minha senha e ele me entregou um papel amassado, que claramente já tinha sido utilizado. Ao voltar para a sala X, haviam duas garotas sendo atendidas. Colei no balcão e ouvi novamente sobre qual era a minha senha. Falei o número e escutei que deveria sentar e esperar, pois as duas meninas estavam na minha frente.

Sen-sa-cio-nal.

Após 15 minutos, chegou a minha vez. Apresentei meus documentos. A mulher os olhava rapidamente e os carimbava. Um a um. Daí ela perguntou qual era o número do meu PIS.

- Eu não sei

- Mas você precisa me dar o seu PIS

- No site não dizia nada sobre isso

- Que site?

- Do Sindicato de Jornalistas

- ...

- ...

- Mas eu preciso do número do seu PIS

Por sorte (ou de propósito), havia uma unidade da Caixa Econômica Federal atravessando a rua. Desci correndo as escadas, pois só tinha deixado o talão do Zona Azul para uma hora de uso. Fui até a Caixa, furei fila e um rapaz simpático me atendeu. Falei o que precisava, ele pediu meu RG, digitou alguma coisa no seu computador e, bingo, surgiu na tela de seu monitor o meu PIS. Anotei o número na mão, atravessei a rua no farol verde, subi as escadas do prédio da Delegacia do Trabalho e, precavido, peguei uma senha.

Encostei no balcão e falei:

- Anota aí o meu PIS

- Tá, cadê o comprovante?

- Que comprovante?

- Do seu PIS

- É o meu número, toma!

- Mas eu preciso de algum documento que comproveu o seu PIS!

Antes de eu berrar e dizer que a vaca só tinha me pedido o número, bufei e sai em disparada. Estava chegando ao primeiro lance de escada quando ouvi um som alto de alguém correndo de tamanco atrás de mim.

- Eu não posso aceitar esse seu comprovante de residência

- Por quê?

- Ele não está em seu nome

- E daí? Eu moro aí, esse é o nome do meu tio, quer ligar para ele?

- Seu tio?

- É!

- Infelizmente não dá. Só aceito com o seu nome ou de algum parente de primeiro grau

Bufei novamente e quase atirei a mulher escadaria abaixo. A sorte é que me lembrei de um certo cheque de desconto da Claro que eu tinha na minha bolsa, com o meu endereço de Sorocaba. Ela olhou, fez cara de negativo e eu gritei, com educação.

- Moça, eu não vou voltar aqui de novo. Esse é o meu nome, ó, e isso é um endereço. Não interessa se é de Sorocaba, Bragança Paulista, Limeira...

Não tive tempo de citar outra cidade do interior paulista. Ela se virou e respondeu atravessado. "OK, serve. Mas preciso de uma cópia disso".

Desci as escadas, atravessei a rua e quase fui atropelado por uma carroça. Entrei na Caixa Econômica e, caramba, cadê o atendente tão prestativo que tinha me ajudado antes? Resposta: orientando uma senhora a fazer um depósito no caixa eletrônico. Acenei para ele, que gesticulou para eu ter calma e que aquilo iria demorar. Sem sacanagem: a tia ficou 10 minutos ali, de braços dados com o rapaz, só para pôr R$ 10 num envelope e o enfiar num buraco.

Feito isso, expliquei a minha situação para o atendente e ele comentou ironicamente. "Ê, Delegacia de Trabalho, viu... Peraí que eu resolvo isso rápido e... ai, caramba!". Olhei espantado. "O sistema tá fora do ar".

Juro, atirei pedra na cruz.

Olhei para o relógio e vi que faltavam 15 minutos para expirar a minha Zona Sul. Acabei atravessando a porta giratória do Caixa e fui tomar um copo d´água no fundo da agência. Na fila dos guichês, o pessoal, assim que teve conhecimento da queda do sistema, começou a sentar no chão. Eu também o fiz. Me esparramei, na verdade. Estava morto de cansaço.

5 minutos passados, o atendente começou a pular sobre os corpos estirados e fez um sinal de positivo para mim. Eficiente, ele já até tinha tirado um documento comprovando o meu PIS. Agradeci e sai correndo. 5 minutos para a Zona Azul. Tirei xérox do meu PIS, do cheque da Claro e peguei o elevador que, veja só, estava parado no térreo.

Entreguei para a vaca do balcão os papéis que faltavam, preenchi outro documento com garranchos puros e escutei que meu MTB só ficaria pronto em um mês. E deveria retornar lá para pegá-lo.

Bradei, resmunguei. E menti. Falei que precisava do documento com urgência, que seria demitido se não o tivesse em uma semana nas minhas mãos. A ruminante fez cara de foda-se e anotou um "Urgente" no envelope com a minha papelada.

Não tomei multa por ter ficado com o carro 20 minutos extras na Zona Sul e, exatos seis dias depois, recebi uma ligação de que meu MTB estava pronto. Voltei no dia seguinte, sem pressa dessa vez, e recebi a minha carteira de trabalho com um novo papel colado em uma das milhares de folhinhas dele. Dizia que eu era jornalista formado e, bem escondidinho, o número do meu MTB.

Provisório.

Descobri que esse documento tem um ano de validade e que, assim que meu diploma sair (na metade do segundo semestre), devo levá-lo para a Delegacia de Trabalho e pegar o meu registro definitivo, que ironicamente será o mesmo número do provisório. Dá para entender?

Eu estava saindo da sala X, fitando aquela carteira azul em minhas mãos, quando ouvi um som de alguém de tamancos correndo atrás de mim. Virei para trás, a mulher me deu um papelzinho e disse, com um sorriso que deixava seu lábio esquerdo meio torto: "Você também precisa trazer cópia de tudo isso aqui para mim da próxima vez".

Em letras miúdas, o bilhetinho dizia: cópia de CPF, cópia do RG, cópia de comprovante de residência, cópia da carteira de trabalho e cópia do comprovante do PIS.

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