24 de mai de 2005

Lugares reservados

Andar de ônibus é uma maravilha. Cheio, então, nem se fala. São crianças berrando, meninas tricotando em voz alta, um rapaz que dorme ao seu lado e começa a usar o seu ombro de travesseiro... São muitas as histórias.

Ontem, por exemplo, aconteceu um fato deveras inusitado. Pego o famigerado Shopping Continental, em plena Avenida Paulista, com destino a minha casa. Hora do almoço, friozinho gostoso e, milagrosamente, o ônibus não está congestionado. Quando adentro tal meio de transporte e me deparo com algumas poltronas vazias, juro que felicidade maior não há. Passo pela catraca e sento na primeira vaga que acho, perto da porta. Começo a abrir a minha mala à procura de meus óculos. Noto uma sombra vindo em minha direção. Levantando suavemente o olhar, vejo um crachá e uma camisa xadrez a um palmo de meu nariz.

- Este lugar não foi feito para você! , ouço de uma voz rouca e impaciente.

Um pouco míope, fixo meus olhos no rosto do sujeito. Cabelo um pouco grisalho, ondulado e desarrumado, cavanhaque farto e também grisalho; óculos de armação de metal.

- Oi, perdão?

O tiozinho começa a jogar a sua saliência abdominal contra meu corpo.

- Um dia ainda vai chegar a sua vez, sabia?

Só agora noto que ele quer roubar o meu lugar. Olho para o fundo do ônibus e vejo que ele está mais vazio ainda! Reparo também que o meu assento tem o encosto pintado de amarelo, ou seja, ele é reservado para deficientes, grávidas, obesos e, logicamente, idosos. Antes da catraca, todos os assentos são destinados a tais características citadas. Passando pelo cobrador, umas quatro ou seis poltronas - e eu sentei em uma dessas.

Levanto-me, meio com vergonha, e ainda noto o senhor soltar uns impropérios para si mesmo, como se dissesse: "No meu tempo os jovens eram educados!". Mas, raios, se o ônibus está vazio, qual a razão do cara não sentar em outro lugar vago? Não, precisa dar show, impor a sua condição de "eu trabalhei a vida inteira por este país e o mínimo que eu mereço é um lugar reservado no ônibus". E ele era jovem, aparentava no máximo 55 anos - quase a idade de meus pais!

Olha, juro por minha falecida avó, que quando eu ficar velho não vou ser folgado. Lembro sempre de um episódio do Malcolm in the Middle para exemplificar o meu pensamento. Certa vez, numa liquidação em uma loja, a mãe do Malcolm pediu para ele e seus irmãos ficarem numa fila quilométrica apenas para irem ao vestuário. Quase uma hora e meia depois, os garotos finalmente iriam provar suas roupas. Mas, do nada, uma tiazinha de andador foi passando pela fila, como um carro folgado trafega pela pista do acostamento num congestionamento.

Os meninos brigaram com a tia. Sabe o que ela fez? Deu com a bengala na cabeça de cada um. Ela estava em seu direito, o que até concordo, mas coisa mais irritante que velho folgado não há. Ao menos que ele seja educado, peça licença e dê um sorriso. Não precisa vir desfilando, como se seus cabelos brancos e rugas fossem um atestado de "eu sou diferente e posso tudo". Só eu que não concordo com isso?

Agora, para finalizar minha raiva, alguns minutos depois o ônibus ficou lotado. Eu, sentado lá no fundão, mirava os olhos raivosos contra o tiozinho, desejando atirar uma flecha contra a sua nuca. E sabem o que foi irônico? Uma senhora, de 70 anos pra cima, estava de pé, ao seu lado. Ainda por cima, era obesa, estava com o pé enfaixado e carregava compras em seus braços. E, por acaso o tio do mal cedeu lugar para ela?

Coisa nenhuma! Fingiu que estava olhando a bucólica paisagem da Avenida Rebouças.

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