23 de fev de 2004

Vendo a banda passar

Eu sou uma vergonha ao povo brasileiro, um desaforo à cultura da terrinha: eu não gosto de carnaval. Pois é, brasileiro de carteirinha e não gosto da festa máxima do povo. Admiro a alegria daquelas pessoas, que por uma semana esquecem de tudo. “Vou dar pra quem aparecer primeiro, vou descer a cachaça goela abaixo”. É bonito isso, até resume o carnaval.

Talvez eu não tenha uma atração, porque eu, simplesmente, nunca vivenciei um carnaval de verdade. Carnaval de rua, festa popular, música rolando solta até tarde para a multidão... Isso eu conheço através de uma caixa de 29 polegadas. Na cidade em que moro, não existe carnaval de rua, para o povão. Se existe, deve ser feita por meia dúzia de folgados que pagam uma fortuna para usarem uma camiseta com o brilhante nome de seus blocos. Isso é o carnaval de rua sorocabano. Dizem que carnaval daqui, só os dos clubes. Como não sou sócio de nenhum, não tenho mínima idéia de como seja. Prefiro ficar em casa a ter que pagar uma mensalidade exorbitante para freqüentar um lugar habituado pela burguesia de Sorocaba. Neguinho tá lá, virando o whisky, porque “cerveja é coisa de pobre”.

Ano passado, saí apenas um dia. Com uns amigos fui até Itu, pertinho daqui. Foi bacana e divertido. Pena que o povo dessa região goste de valorizar o título de babacas por excelência. No andar de cima da casa noturna rolava música eletrônica. Os filhinhos de papai e filhinhas da mamãe adoraram. Música eletrônica é moderno, “samba e marchinha carnavalesca é coisa de pobre”.

Para não ser tão negativo, tem certas coisas boas do carnaval: não tenho aulas durante uma semana, por exemplo. Durmo de madrugada e acordo no horário do almoço. Isso já me deixa feliz. Não preciso de mais nada. Gosto também das marchinhas de Noel Rosa e Lamartine Babo. São deliciosas, ao contrário desses samba-enredos atuais (salvo os da gloriosa Mangueira).

Desfile de escola de samba é ótimo – pra dormir. Melhor que jogo da seleção brasileira. Os dois juntos batem qualquer Lexotan.

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