29 de out. de 2004

Saudades


Porra! Hoje eu me toquei que faz um ano que o Seu Gilberto partiu. Fez as malas e voou para a sua Pasárgada. Longe de parentes enjoados, senis companheiros de asilo, idas e vindas de hospitais. Achou melhor cair fora, dar tchau pra gente. Foi numa boa, tranqüilo, rapidão.

Usou da velocidade que nunca teve andando, para voar, ir a um lugar mais bacanudo, onde ele pudesse chamar as mulheres de chuchu, os garotos loiros de alemão, e, o melhor do pacote: contar as suas famosas historietas. Seu Gilberto pode não estar mais aqui, mas pode deixar que de seus casos eu me recordo muito bem. Ouvi tantas vezes os momentos de viagens do velho, das escalações clássicas do São Paulo, de suas excursões junto ao time da Portuguesa... O sujeito era uma figuraça.

Outro dia sonhei com o seu Gilberto. Foi engraçado, ele me aplicava diversas peças, contava piadas, tirava um sarro de cada brincadeira minha. Foi muito divertido, deu saudades. Lembro direitinho do sonho - e acreditem: só ao acordar é que me toquei que ele não está mais entre nós.

Ele está entre nós, Gustavo! Larga de ser bobo! Está mesmo; foi tanta coisa boa acontecendo neste ano, que vejo o Seu Maia lá em riba, arquitetando algo de bom para mim, servindo de anjo da guarda do seu neto são-paulino.

25 de out. de 2004

Como traumatizar uma pessoa


É batata, podem acreditar: nenhuma criança terá o presente que tanto sonhou na vida. Isso foi na época de nossos papais e mamães, de nossos avós e em nossos tempos. Por isso repito: nenhum guri ou guria terá o presente tão sonhado e pedido.

Conheço certas pessoas que são recalcadas por nunca terem tido um videogame. Neca, nenhum. Um amigo, certa vez me confidenciou que era louco por um par de patins caríssimos (aqueles rollerblades maravilhosos). Está até hoje esperando de seus pais tal mimo. A época do pônei marcou legal. A garotada pirava naquela amostra grátis horrível de cavalo. Todo aniversário era a mesma coisa: o moleque corria para o jardim e via um pônei marrom, com um laço azul no topete. "Ganhei um pônei, que legal!", suspirava o filhote. O pai, meio sem jeito, coçava a nuca e acabava com as esperanças do pivete: "É, filho... Papai não teve dinheiro esse ano... Este pônei é do buffet...".

Eu nunca liguei para mini-cavalos, patinetes ou mansões da Barbie (ainda bem, hein!). Eu curtia mesmo era uma bateria. Grandona, daquelas que na primeira bumbada a polícia já era acionada por algum vizinho. Todo aniversário eu sonhava com a minha batera. Via-me tocando "We Will Rock You" e "That Thing You Do", seria popular entre as meninas, meu desejo era ser um rock star. Daí eu acordava e me deparava com a mavilhosa coleção de cuecas e meias da Lupo, que a minha querida tia-avó insistia em me dar todo aniversário.

Até no vestibular eu fiz promessa. Se passasse, deveria ganhar uma bateria. Não deu certo. Tentei argumentar que alguns pais chegam a dar carros aos filhos quando passam nas faculdades almejadas. A resposta ouvida? Que eu trocasse de pais. Nunca, mais nunca eu convenci a mama de me dar uma bateria. Papai já era outra história; também era fã de um batuque. Ele é daqueles que tiram um som do volante a cada semáforo vermelho. Bate com o dedo aqui, batuca acolá. Sempre no compasso da batida do rádio.

Pessoas frustradas por não terem uma bateria aderem ao air-drumming. No Orkut, descobri que existem outros traumatizados como eu. Trocamos experiências e fazemos até uma set list de nossas músicas prediletas. "Supersonic" do Oasis é a minha do coração - depois de qualquer uma do Queen, lógico.

22 de out. de 2004

Os melhores presentes


Meu gosto musical é fino, não vejo distinções. Adoro promoções de CDs e me recuso a pagar mais de 30 reais numa caixinha de plástico. Como é gostoso achar discos baratinhos. Uma delícia! Sabe aquelas promoções das Lojas Americanas? Nossa, faço à festa. Ostento com orgulho um do Wheatus, adquirido pela bagatela de 3,90 reais. Bom e barato; há coisa melhor?

Olhando o meu porta-CDs, muitos dos "meus filhos" foram comprados por até 10 reais. Melissa Etheridge? 3,90. Los Hermanos e Zélia Duncan? Idem. O Rappa, Tianastácia, Rumbora... Sete reais e alguns centavos. Comecei a ouvir música nacional após as promoções da vida. Neste ano, as minhas grandes aquisições foram: Adoniran Barbosa, Tim Maia, Leoni e Trio Mocotó. Foi-se o tempo do "quase quatro conto". Agora é tudo 9,90, popularmente conhecido como "CD de quase 10 real". Na internet chega a rolar uns pega-trouxa. Com o frete, CD sai por quase 13 reais. Perde a graça, poxa! O mais legal é sacar aquela nota vermelhinha, da arara.

Os CDs baratinhos já me quebraram muito galho. Em aniversários, hoje em dia, não existem mais aqueles presentes. Ou não se ganha nada ou um presente coletivo rola entre os amigos. Lembrancinhas são os mais comuns. CD é algo bacana, todos gostam de ganhar. Passo no Carrefour mais perto de casa e pronto! Aniversariante mulher? Algo romântico ou de MPB. Raparigo? Rock. Coletâneas também são ótimas pedidas. Não façam como a mama que comprou para uma amiga (amiga?), um imprescindível As Melhores Trilhas de Novelas em Italiano. Agnaldo Raiol na veia!

Até este blog possui uma história bonita dos CDs de 3,90. A dona Bruna, após ajeitar o layout deste humilde espaço, foi agraciada pela minha pessoa por um Fiona Apple legítimo. Custou-me 3,90 tal mimo. Ele era chato demais, mas ela gostou. Inclusive, na pechincha, há a sua música favorita da cantora. Ficou emocionada.

Graças aos CDs de 3,90.

18 de out. de 2004

O cuco da vovó


Desde pirralho, eu nunca fui com a cara do cuco da minha avó. Marrom escuro, aparência muito velha e, o principal: tinha um passarinho pra lá de escroto. O passarinho do cuco da minha avó parece que voltou da guerra: todo estrupiado, magrinho, feio que dói. Deve ter sido esculpido por um menino de 6 anos.

O cuco da minha avó foi, e é, a coqueluche da criançada. Meus priminhos adoravam aquela obra rústica no canto da parede, assim como o bebê da vizinha. Eu sempre o achei horroroso. Como a casa era antiga, considerava tal objeto como parte de uma decoração, sem significado algum. Ledo engano. Aquele cuco faz parte da família; a minha nona se livra até dos netos, mas suplica para o maldito cuco continuar a nos atazanar com aqueles tic-tac de seus gongos.

Certa vez eu puxei a cordinha dele. Parou de funcionar. Celebrei com um sorriso à façanha: eu matara o pássaro. Ele nunca mais sairia da porta da casinha, eu nunca mais ouviria aquele canto agudo dos infernos, eu nunca... CUCO! CUUUUUUCO! O danado ressuscitara.

Hoje, ele continua vivo, persistindo em "decorar" o apartamento de minha avó. Aquele relógio não combina com nada da sala, mas ele continua lá, intocável em seu canto. Já descobri como pára-lo: basta segurar os gongos que contam os segundos. Pena que o passarinho só entra em coma, nunca morre - sempre dá um jeito de acordar.

De tão mimado, só deixa de "cucar" quando estamos dormindo (sim, o cuco é considerado gente por vovó). Dorme no mesmo horário que eu, acorda idem.
O cuco é o seu neto mais querido.

15 de out. de 2004

Descarrego

Tem gente pondo macumba pra riba de mim. Deixo não, meu caboclo pega essas coisas ruins. Desinfeta, passa, vá pra bem longe! Não quero coisa do diabo ao meu lado. Esta nuvenzinha escura bem pequenina, que insiste em pairar em meus ombros.

2004 está sendo um ano bacanudo. Ambiente novo, vivências novas. Mas que tem encosto sendo posto pra riba de mim, ah, isso tem. Vovó diz que a felicidade incomoda. Há sempre um danado fazendo vodu pra ti. Deixa não, meu caboclo. Manda pro raio que ti parta, invejoso danado e sem-vergonha. Deixa eu brincar com o meu nariz, ser feliz. Atrapalha a minha vida e, conseqüentemente, as dos meus próximos também. Pega ele, caboclo.

Inveja é uma coisa feia. Posso dizer que sou motivo de macumba por parte de certas pessoas. Venho concretizando os meus sonhos, recebo mais elogios que críticas. Estou sorrindo à toa. Fui à luta para ter concretizado isso, não fico assistindo a banda passar.

Fala mal de mim; xinga para o resto das tuas bandas, leviano! Vai te danar, preto véio amargurado! Enquanto tu reclamas da vida alheia, vou continuar a pintar o nariz daqueles aos quais eu amo tanto.

14 de out. de 2004

Recebi um email deveras em engraçado. Tinha tudo para ser politizado, sério. Mas é engraçado.

Alguns negos "engajados" da minha faculdade, e de outras universidades, irão fazer uma passeata, no dia 18, até a Avenida Jornalista Roberto Marinho (em frente à sede da TV Globo), antiga Avenida Água Espraiada. Sabe qual é o motivo da manifestação? Rebatizar a avenida com o nome de Wladimir Herzog (???).

Gente, o nonsense chegou ao limite. Qual a finalidade deste treco? Qual o problema do nome? Uma avenida, em frente ao complexo da Globo, só poderia ter o nome de seu antigo "imperador", ora! Ok, o Marinho era um escroto, todos sabem a sua história (ligado à Ditadura, eleições de 89...), mas, repito: Qual a finalidade deste treco? Sendo assim, é melhor rebatizar rua, rodovia, avenida... Começaria pela Castello Branco ou Anhangueras.

O coitado do Herzog deve olhar para essa cambada de estudante de Comunicação, e chorar feito um condenado. Nem ele é poupado, tadinho. Deve estar querendo se enforcar com as grades do portão do céu - mais ou menos do mesmo modo que os militares o "suicidaram".

12 de out. de 2004

Legume dos infernos


Qualquer pessoa, em algum momento da vida, irá vivenciar um causo com pimenta. Uma história engraçada, que será passada de geração em geração. Pimenta malagueta, um vidro de Tabasco, pimenta do reino, pimenta calabresa... São muitas as opções; basta escolher a sua.

Meu velho tem uma legal: um amigo seu, fã da vermelhinha, certa dia quis porque quis comer pizza de alho. Pediu para o garçom caprichar na especiaria e ainda lascou ¼ de Tabasco na comida. Passou tão mal, que demorou dois dias para voltar a sentir a língua. Papai disse que o seu camarada transpirava alho.

Eu, neste final de semana que passou, entrei para o "Hall da fama dos causos ocasionados pelo abuso e excesso de pimenta". Alimento? Pizza. Do quê? Picante. O que tinha nela? Tais ingredientes: calabresa, mussarela, molho picante e pimenta calabresa. Uma bomba.

Ultimamente estou indo na onda de trecos spice. Dar aquela quentura no esqueleto, sabe? Mas é bom levar uma na cara (na língua, quer dizer) e aprender a deixar de ser trouxa. Na primeira mordida, a pizza estava legal. Bastaram dois segundos para eu sentir um calor em meu corpo. "Esquentou?", perguntei para Irena. "Não", foi à resposta. Não era culpa do tempo: era o efeito da "Pizza Picante".

No terceiro pedaço, não sentia minha boca. Ardia tanto, rapaz, mas tanto. Virei uma lata de Coca e nada. Fui ao banheiro e joguei água na língua. Bulhufas: até grudei papel higiênico na dita cuja. Para piorar, eu sou sovina. Decidi comer a pizza, porém, só a massa. Ainda havia resquícios de pimenta. Fumaça saía pelas orelhas. Via aqueles pontinhos pretos malditos e infernais por todos os lados. Senti-me o Homer naquele episódio em que ele devora as pimentas picantes do chefe Wiggun.

Só faltaram as alucinações que o pai de Bart teve após a refeição. Foi por pouco.

7 de out. de 2004

Raça mardita



Pichador é um bando de escroto. Tenho uma relação de ódio com essa raça. Sujeitos vagabundos, que agem na covardia, quando estamos de olhos fechados. Escroques de primeira grandeza.

Nunca peguei um pichador com spray na mão. Dando risada ao lado de sua "turma", rabiscando uma parede ou escultura. Quando pirralho, o muro da minha casa era todo "abençoado". Papai não desistia; pegava o tonel de tinta e limpava. Não funcionava. Bastava acordar e se deparar com a frente de casa toda zoada com nomes estranhos e símbolos de anarquismo.

Pichar está em voga. Na Bienal, duas obras foram pichadas. Algum babaca chamado "Não" resolveu se manifestar, dando o ar de sua graça. Pior, só quem passa todo dia pelo túnel que liga a Av. Dr. Arnaldo com a Av. Paulista, mais conhecido como o buraco da Paulista.

Há algumas semanas ficou mais gostoso andar por tal túnel. Grafiteiros reproduziram diversas obras de artistas modernistas em suas paredes. Ficou sensacional o mural. Já cansei de pedir para o meu tio passar mais devagar com o carro no local, apenas para eu admirar os Di Cavalcanti e Portinari grafitados.

Além de bonito, há uma história por trás dos compressores e pistolas de ar usados. O projeto "Os Modernistas na Paulista" foi patrocinado pela Caixa Econômica Federal, fazendo uma parceria com a Ong Revolucionarte. Doze jovens foram treinados para criarem a galeria de arte exposta. Ou seja, ao invés de um moleque assaltar ou roubar, usa do grafite (uma arte) para se expressar. Daí vem um bando de cu e picha.

Pichador deve ter caído do berço quando criança. A minha vontade é pegar um e pichá-lo inteirinho (espero que a tinta seja tóxica). Por fim, pegaria a latinha e enfiaria no rego do dito cujo.

Deveriam elaborar uma lei a partir do meu desejo.
OBS: O louco do Ronald criou uma comunidade pro tio aqui no Orkut.
Assim eu fico emocionado, pô...

4 de out. de 2004

***Mais uma crônica, do sujeito que aqui escreve, foi publicada no jornal Contraponto (Jornal Laboratório de Jornalismo da PUC). Resolvi, desta vez, falar de ninguém menos que Chico Buarque; uma unanimidade entre as garotas do meu curso.

O mais legal foi o fato de não terem mudado uma vírgula do texto. Está igualzinho. Muito bacanudo, não?

Devia ter dedicado esta crônica a todas às mamães e vovós. Elas iriam adorar


O que será que será?
Será Chico divino, uma estrela? Por que Chico continua a entrar em nossas vidas?

Eu quero ser o Chico Buarque. Amado pelas mulheres, invejado pelos homens, idolatrado pela mídia. Sério, alguém reparou como 2004 foi - e é - o ano do Chico? O cantor-escritor-intelectual-compositor e sex symbol está em todos os outdoors e listas de rodapé. O tio Chico está com tudo. Seu último livro é sucesso de critica, Benjamin foi adaptado com sucesso às telinhas do cinema, um espetáculo escrito pelo próprio há décadas vendeu horrores na paulicéia. Se já não bastasse tanta pompa, o seu aniversário de 60 anos rendeu tanta capa de revista, que colocou o primeiro parabéns da Sasha no chinelo.

Digam, queridos leitores: não seria bacana, ao menos por um dia, ser Chico Buarque? Abrir um jornal e ler elogios até cansar, saber que todas as gurias do sexo feminino fariam de tudo por você? Duvido. Eu, pelo menos, toparia sem reclamar. Gustavo Buarque de Hollanda. O que será, seria: um artista brasileiro.

Chico dá esperança aos feios ou, como diria Xico Sá, os "mal- diagramados". Por favor, leitoras, sejam sinceras: o Chico não é lá grande coisa fisicamente. Tem duas varetas, o cabelo é ruim e, ainda por cima, é magricelo. "Ai, mas ele é o Chico Buarque!", exclamaria a saudosa fã de laquê no cabelo. Pois é, rapaziada, ele é Chico Buarque. Talvez o responsável pela minha existência e a de vocês. Há uma grande hipótese de nossos papais terem cantarolado algo do rapaz de pai paulista e avô pernambucano, apenas para impressionar as nossas mamas. Chico foi o Barry White tupiniquim!

O danado é esperto, tem aquele sorriso de malandro carioca, tal qual o personagem de seu musical. Escreve bem, é intelectualóide, toca violão e ainda possui um par de olhos de arrebentar a Sapucaia. Qual é, deixa um pouco pra gente, tio Chico! Na minha classe, por exemplo, Chico é apontado como unanimidade entre as gurias. As garotas piram no sexagenário. "Se ele cantarolasse algo bem baixinho no meu ouvido, nem sei o que faria", denunciou uma delas. Tenho uma professora que sonha dar aulas baseadas nas letras de Chico. Pode? Ele pode.

Chico parece não estar nem aí para tanta prosa e confete. Não fala com jornalistas, desdenha a rapaziada de microfone e bloco de anotações em punho. Gosta de ficar em casa, à toa na vida, vendo a banda passar. Deve estar cansado de ver, e ler, o seu nome usado em vão. Dia sim, dia não, alguma novidade de Chico é publicada. Um futuro álbum? Um livro a ser lançado? Ninguém sabe, somente Chico tem a resposta. Chico vende sem precisar dizer uma palavra, já perceberam? Basta o seu nome aparecer em negrito, num periódico qualquer, para esgotarem as publicações.

De Chico Buarque não tenho nada. Não sei fazer poesia (o Chorão idem) e apesar de meus olhos serem claros, eles estão longe de chegarem à ardósia. Se não tenho coordenação motora para dançar, o que diria tocar uma viola? Escrever sobre o amor, então: uma tristeza. Sou pior que o Oswaldo Montenegro.

Ao menos, de Chico, ostento uma leve semelhança: os nossos belos gambitos. Isso ninguém me tira.

2 de out. de 2004

Domingão de eleição



Amanhã é dia de pegar o título de eleitor e ir votar. Exercer a cidadania. Escolher uma pessoa como porta-voz do povo, pôr a responsabilidade em um nego de terno - ou uma nega de tailleur. Amanhã é dia de eleições municipais.

Aqui, em São Paulo, a coisa está pegando fuego. Dona Marta de um lado, com sua cara de barbie sexagenária e, segundo a palavra de muitos, a arrogância em pessoa. No outro córner do ringue, está um velho sem graça, careca e de olheiras assustadoras, chamado José Serra. A briga está feia e, dizem a boca miúda, que um deles terá de obter o apoio dele, o político mais carismático e odiado do nosso Brasil varonil: Paulo Maluf.

Caso eu votasse na capital paulista, apertaria 13 e confirma. Não sou chegado no PT, muito menos na Marta, mas, por "motivos de força maior", nutro uma antipatia crassa pelo Drauzio Varella do PSDB. Acho-o sem carisma, sem força de vontade... Parece que não sai da segunda marcha. Os seus discursos são decorebas, dificilmente inova ou sai daquele clima zen. José Serra, ao meu ver, corre o risco de ser o eterno perdedor.

Há chances de ganhar da mãe do papito? Muitas. Isso, pelo fato que a prefeita é odiada pra dedéu. Esburacou a cidade inteira e construiu coqueiros (?) numa avenida. Uma belezura, como diria a própria. Eu, ao contrário, votaria nela. Já levei xingo da namorada e coquinhos do titio. "Você está louco em votar naquela idiota!". Outros acham que estou apenas "fazendo charme".

A Marta, desde a minha mudança para São Paulo, favoreceu - e muito - a minha vida. Ela incentivou à minha cultura! Fico tanto tempo preso nos ônibus (cerca de 40 minutos no trajeto "Paulista-casa"), que agora estou lendo mais livros do que li na minha vida inteira. Só em 2004, já foram 18 (planejo chegar aos 24). Como não poderia agradecê-la?

Curiosamente, amanhã estarei "votando" no Correios mais próximo que achar. Justificarei. Como não tenho candidato nenhum em Sorocaba, prefiro me abster de qualquer palpite. Só sei, que para vereador, o Chiquinho do Suco é grande favorito. Tira um suco de polpa de fruta que é uma beleza.

Já teria o meu voto.

28 de set. de 2004


Pela primeira vez, faço um post com o intuito da participação de você, amigo leitor.

É o seguinte: planejo criar alguma comunidade no Orkut. Obviamente será algo relativo a minha pessoa. Motivos pessoais, leia-se. Após várias pesquisas, decidi por três alternativas.

Aqui vai:

1) Eu já capotei da esteira

Porque: não há sensação melhor do que ser jogado a metros da esteira; não há sensação mais prazerosa que dar um tropicão em plena corrida... Enfim, não há sensação mais horrível do que ver a academia inteira dando risada da sua cara.

Comunidade dirigida àquelas pessoas que já levaram um capote na esteira da academia. Não vale ser esteira caseira, precisa ser de academia.

2) Eu não tenho bunda


Cansado de andarem com a calça caindo? Cansado de pegarem ônibus e morrerem de dor no traseiro no dia seguinte? Cansado de terem os glúteos tachados de aspirina? Vamos juntar nossas forças e acabemos com os bundões deste Brasil varonil! Porque não ter bunda também é motivo de orgulho.

Comunidade para quem, simplesmente, não tem recheio no popô.

3) Meus pais são malufistas

Filhos de pais malufistas, uni-vos! Morremos de vergonha de nossos progenitores, que espalham para a vizinhança inteira que o bom prefeito deve voltar. Porque ele rouba, mas faz; porque ele é engraçado; porque sem ele, São Paulo seria um caos; porque ele é amigo do Sílvio Santos...

Comunidade para quem dá a benção por malufismo não ser hereditário.

Obs: Votem com o coração

24 de set. de 2004

Virando hominho II


Imagine receber uma oferta de trabalho, em plena faculdade, tendo que aceitar uma entrevista marcada em cima da hora? Resumo da ópera: correria. Camiseta laranja, bermuda de surfista até a canela, cabelo desgrenhado. Um candidato forte, digamos.

Casa da patroa, tirar oleosidade da pele. Preciso fazer a "barba". Gilete? Uso o dela mesmo. Ok, ela o usa para depilar as pernas, mas dane-se. Não é hora de nojo ou preconceito, Gustavo! Vai esse mesmo. Falta gel de barbear. Roubo o do sogro. Não tem espuma, que droga! Imprimir o maldito currículo. Está incompleto, raios! Senta da poltrona e digita o que falta. Nem revisa o texto. Falta um acento aqui e uma vírgula acolá. Foda-se! Correria para sair do apartamento à entrevista em poucos minutos.

É muito estranho - e ao mesmo tempo legal - dar uma olhada para um ano atrás e compará-lo com o presente. Eu, há 365 dias, estava estressado com manuais de vestibulares e só sabia de dormir nas aulas de Química. Agora: faculdade, trabalhos e, inclusive, procura por trampo. "O trabalho dignifica o homem", já diria o barbudo socialista.

A primeira coisa a ser feita é elaborar um currículo. Chega a ser engraçado, pelo motivo de eu, simplesmente, não ter nada de bacanudo a acrescentar no bichinho. Conhecimentos de informática em níveis básico, intermediário e avançado. Tratando-se de aparatos tecnológicos, sou uma anta. Se ICQ, Kazaa ou Orkut servissem para um CV, certamente eles estariam como avançado. Do resto, não entendo bulhufas. Deixo tudo no "básico".

Entrevista é o mais engraçado. Sabe aquela idéia de: "A primeira aparência vale tudo". Então, eu a levo como uma cartilha. Tento domar os bem recentes cachos vermelho-acaju, com cera e um mousse de ostras que eu tenho (presente da mama dermatologista). Também me disfarço dos pelinhos em minha face. Taco um perfume, uso uma roupa "esporte-social" e simbora, nego! Seja o que Deus quiser.
Neste caso, o Senhor é o tio atrás da outra mesa. Oremos.

22 de set. de 2004

Cama de Gato


Já escrevi aqui que cinema brasileiro deve desencanar do estereótipo "nordeste-fome-miséria-xoxota". E parece que ainda há luz no final do túnel, com o bacanudo filme de Alexandre Stockler "Cama de Gato".

É criativo pra chuchu! Em algumas cenas, ocorre um certo desconforto (vide o momento do estupro). Tal cena é mais pesada que a famigerada cena de "Irreversível", película em que a Monica Bellucci era enrabada em plena estação de metrô.

Até cheguei a julgar que tal encenação (encenação?) fosse desnecessária, porém o filme, em seus momentos finais, explica o porquê de cada take, cada fala, cada interpretação. Fique atento às declarações dos jovens paulistanos.

É uma tremenda critica. Bom para fazer uma análise sobre nós - jovens mundiais (não apenas os brasileiros).

Recomendado.

20 de set. de 2004

Um novo dia especial



O dia 20 de setembro passa a ser um dia especial para o pelego que escreve neste humilde espaço. O dia de 20 de setembro representa o nascimento duma garotinha muito bacanuda que, com certeza, mudou a vida deste cidadão. O dia 20 de setembro é aniversário da Irena, rapaziada! 19 aninhos de vida. O último "teen" de sua vida.

Vamos cantar "Parabéns" para a fã de Tom Jobim e Nina Lemos, chocólatra e fã das guloseimas de minha vovó. Vamos saudar a Irena, pessoal! A minha namorada de nome difícil, mas de personalidade facinho de lembrar. Irena é sinônimo de gente boa, finíssimo humor, risada inesquecível, meiguice além da conta.

Já tenho dito: quem não escrever um "parabéns" para a Irena nos meus comentários, bom sujeito não é.

Está esperando o quê? Corre pra lá! Eu estou indo agora mesmo.

OBS: Na foto acima, estão reunidas duas grandes paixões da Nena: porquinho e geladeira (cheia, diga-se de passagem).

17 de set. de 2004

Ode aos banheiros

Para um estabelecimento receber a minha aprovação, é necessário que ele tenha um banheiro bacana. Sabem como é: limpo, cheiroso, com música ambiente adequada. Realmente isso não é algo fácil. Banheiro deve ser simples, mas charmoso. Pequeno ou grande, não importa. Banheiro deve ser banheiro, ponto final.

Na PUC, os banheiros do prédio de Comunicação são uma lástima. Até o final do primeiro semestre, nem sabonete líquido eles tinham. Ora, pensa o leitor atento. Sabonete líquido é fundamental. E é mesmo. Nós, homens, somos seres sebosos e de pele gordurosa. O sabonete líquido ajuda, e muito, a eliminar tal defeito. Ponto pra PUC. Outro ponto positivo da PUC é as portas das casinhas pichadas de caneta, branquinho...
Peço desculpas às faxineiras de plantão, mas banheiro masculino deve ter alguma coisa rabiscada de caneta na porta da casinha. Seja com mensagens de amor (amor?) a desenhos de gostos duvidosos. Frases de efeito, como: "Pichei, saí correndo, pingolim naquele lugar de quem tá lendo", já é meio ultrapassado. Neste quesito, a USP saiu ganhando. Reza a lenda, que no banheiro do pessoal de Física da faculdade, há uma mensagem muito simpática: "A diferença entre cagar e dar o loló, é uma questão meramente vetorial". Genial, ponto para os nossos futuros físicos criativos.

Desde brejeiro visito todos os banheiros possíveis. Restaurante, faculdade, casa de amigos, shoppings... É uma mania que talvez Freud explicasse. Sem sombra de dúvida, o melhor banheiro de São Paulo é o da academia Runner Club. É limpo, têm faxineiros simpáticos e mictórios na altura certa. Um banheiro de homem. Até existem secadores de cabelo na pia! Quem adora são as "barbies", que passam horas e horas secando as madeixas. Um banheiro de homem - meio suspeitos, digamos.

11 de set. de 2004

Braçada, braçada


Voltei a nadar. Após quase um ano fora das raias, retornei às braçadas, viradas, flutuações e todos aqueles nomes estranhos. Bem-vindos: touca, sunga, óculos, protetores de ouvidos e cloro. Saudades.

No vestiário, aconteceu o inusitado: cadê o elástico da minha sunga? Aposto que muitos já passaram por tal situação: uma das pontas do cadarço (é esse o nome?) que servem para arrumar a sunga resolveu se "esconder" nas estranhas do maiô. Fiquei dez minutos, escavando e escavando, até conseguir puxar a outra ponta. Tomei uma ducha para tirar o suor e, pronto, já estou nadando. Dou uma braçada, outra braçada, respiro. O procedimento dura cinco minutos. Depois ele fica: braçada, respiro, respiro, braçada. Respiro, respiro, braçada, respiro.

Cansei, já não agüentava mais. As pernas estavam moles, meu corpo gritava: "Socorro, eu quero terra-firme!". Pior, perdi o protetor de ouvido da orelha esquerda. Se naturalmente já sou ruim de vista, imagine embaixo d'água! Dou uma cusparada nas lentes do óculos (não embaça, acreditem) e, imerso, procuro o maldito pedaço de silicone. Olho daqui e quase sou atropelado pelo Willy (o sujeito era meio grandinho). Vasculho mais um pouco e, enfim, acho a massa.

Volto a nadar (agora com a ajuda dos palmares) e sinto um cheirinho de uva. Porra! Desde quando palmar tem cheiro de uva? , filosofo na piscina. Devem ser infantis, pois alguns pirralhos nadavam antes de mim. Caso resolvido e volto à rotina de braçadas e respirações.

Terminado o treino, arranco a touca, o protetor direito, o esquerdo... Caramba, o esquerdo deve ter grudado na orelha. Dou um puxão danado, acompanhado de um berro, perco dois fios de cabelo e vejo uma massa roxa em minhas mãos. Seria um... Chiclete! Que porco quem jogou aquele Babaloo no fundo da piscina! Sadismo do puto! A anta que vos escreve ainda enfia o danado no canal auricolar.

E a pessoa devia ser bem enjoada. Pelo cheirinho gostoso que ficou à orelha, dava para sacar que o chiclete ainda tinha gostinho. Que nojo!

7 de set. de 2004

Virando hominho


Lá pelos 12 ou 13 anos, descobri algo que todo pré-adolescente sonha em ter: uma espinha. A espinha é o elo entre os meninos e meninas. A partir do nascimento daquela criatura amarela e cheia de pus, podemos ser chamados, oficialmente, de garotos, garotas, ou, como preferimos, adolescentes.

Não sei dizer qual foi o dia em que eu percebi que era um teen. Talvez quando os primeiros pelinhos começaram a nascer sobre o meu lábio, talvez após a primeira masturbação. É algo difícil de dizer, veja só. Se não estou enganado, uma menina vira garota logo após a menarca, é isso? E os rapazes? Espinha, bigodinho ou bronha?

Acredito, realmente, que a primeira vez em que me senti "adulto" foi quando comprei a minha primeira Playboy. 14 anos, oitava série, Tiazinha. Ah, Tiazinha! Aquela máscara e aquele chicotinho são inesquecíveis. Apesar de ainda não ter pêlos nas pernas ou barriga, o meu sonho era ser depilado pela guria, deitado naquela poltrona. Tudo pelo rebolado daquela morena.
Eu morria de vergonha da Playboy adquirida. Escondia-a no armário, dentro dum fichário antigo.

O tempo passava e a sem-vergonhice aumentava. Resultado: não cabiam mais Playboy no maldito fichário. Decidi que teria de me desvencilhar de uma de minhas musas. Tiazinha, jamais! As Sheilas? Nem pensar: duas pelo preço de uma. Feiticeira? Tá louco! Acabei optando pela musa mais magricela e sem graça: Deborah Secco. Ela não tinha retaguarda nem comissão de frente (já hoje em dia...), por isso a minha decisão não foi muito complicada e sofrida.

Enfiei a revista embaixo da camiseta e logo procurei um lixo. O maldito do vigia da rua estava de botija em mim. Desisti e caminhei mais um pouco. Avistei um terreno baldio e não pestanejei: "Bye, bye, Deborah!". Puxei-a da camiseta, enrolei-a e... Nada. Morri de dó, tadinha! Gastara quase dez reais numa Playboy e este acabaria sendo o seu destino? Grama e estrume? Nem pensar!

Sorte a minha (e da pequena Deborah) que um mendigo, vulgo morador de rua, estava passando por aquelas bandas. Saquei a Deborah, agarrei o sujeito e exclamei: "Toma, fica pra você!". Ele deu uma olhada, procurou algum vestígio duvidoso e, logo em seguida, fez um sinal de positivo, agradecendo: "Valeu, garoto! Esta é das boas!".

Jamais esquecerei desse dia. Foi o meu primeiro trabalho beneficente.

5 de set. de 2004

Poupem seus reais. Não assistam!

Benzadeus, que filme horrível! Alguém leva o tal de M. Night Chihuahua pro inferno! Vá ser pedante lá na casa do chapéu, meu querido! Não sei como um estúdio financiou o seu "filme". Dá até dor de barriga, de tão ruim que é a película. Poupem seus reais, queridos leitores!

A história é essa: numa vila muito distante, os seus moradores são aterrorizados por criaturas (aquelas-de quem-nunca-falamos), que vivem no bosque ao lado. Há uma fronteira e tudo, separando o bosque da vila. Ninguém ousou sair da vila, ultrapassar a fronteira e ir ao bosque. Mas há uma esperança: o personagem de Joaquin Phoenix (Lucious).

Saco roxo, ele é destemido. Mostra ter colhões e quer ir ao bosque, mas nunca consegue a aprovação dos diretores do vilarejo. A criatura, num tal dia, "visita" a cidade. Todos saem correndo, morrendo de medo. Outra personagem corajosa é uma ceguinha (Kitty), filha do Ron Howard na vida real, que se apaixona pelo Phoenix e ele idem. O casório está marcado.

Adrien Brody faz um retardado, apaixonado pela ceguinha. Acaba esfaqueando o Phoenix por ciúmes (ele vai passar o resto do filme em uma cama, num morre não morre). O ferido precisa de remédios, mas eles só podem ser adquiridos na cidade. Quem teria coragem de ir até ela, enfrentando o bosque, as criaturas? A ceguinha.

A moça acaba por descobrir pelo seu pai (um dos diretores da vila) que toda a lenda por trás do bosque é uma falácia. Os diretores inventaram a criatura (uma fantasia tosca, na verdade) e seus derivados (a cor vermelha é maldita, atrai as criaturas). Tudo para que ninguém pudesse ir à cidade, aonde tudo é perigoso e a vida não é justa. A vila foi criada pelo pai da ceguinha, junto de outras pessoas, cujo elo em comum é o fato de terem diversas tragédias familiares envolvidas enquanto moravam na cidade. Fugiram e se isolaram, criando uma comunidade.

Gente, o filme é isso. A ceguinha vai à cidade, pega os remédios e volta. Como ela é cega, não viu como é a cidade, o bosque ou a criatura. Todos ficam felizes: ela, o esfaqueado, os moradores e diretores da vila. Menos o retardado do Brody, que morre (ele roubou a fantasia e acabou caindo num buraco do bosque). A teoria do medo continuará a viver sobre os moradores da vila e pronto!

Sim, eu desobedeci ao pedido feito pelos comerciais. Eu contei o final do filme. E daí? Estou ajudando muitas pessoas, que assim como eu fiz, desejam gastarem um pouco mais que cinco reais para desvendarem todo os mistério por detrás daquele trailler maldito. Não gastem seus dinheiros, não vão ao cinema ver essa merda!

Alguns críticos afirmam que o bom do filme é a metáfora por trás dele: a fomentação do medo na sociedade dos EUA, como forma de manipulação do governo. Bush usa do medo para criar uma ilusão à realidade americana. Até aceito esta teoria, porém não imagino que o Shyamalan tenha tido tal idéia ao escrever o roteiro de "A Vila".
Ele é ruim e ponto final. Hitchcock é único, sua anta!

1 de set. de 2004

Serenidade nos olhos


Corredores frios e longínquos. Dá para ver, no final dele, uma pequena luz. Sabe aquela famosa cena de final de filme, quando o personagem morre e ele deve seguir uma luz? É mais ou menos esta a sensação de estar dentro do Hospital das Clínicas de São Paulo, o HC.

Hospital, junto com cemitério, dá-me medo. A idéia da morte estar ao redor é assustadora. Aquelas paredes brancas, o cheiro de éter, as vozes de centenas de pessoas se misturando. Olhar para o lado direito e ver pacientes esperando ser atendidos. Idosos colocam o papo em dia, uma mãe está com o filho no colo. O segurança indica a direção para uma senhora. Talvez esta senhora esteja, assim como eu, procurando o Banco de Sangue. Sim, decidi, pela primeira vez em minha vida, doar sangue. Decidi enfrentar o meu medo de hospital, fazendo o bem a alguma pessoa. Ajudando uma ou várias vidas, não sei. Estou ansioso, com aquele friozinho na barriga. Como será doar sangue?

Desço quatro andares e ouço de uma recepcionista muito educada se estou de acordo com certas normas de procedimentos. Para doar sangue é preciso, por exemplo, não ter adquirido alguma gripe recentemente ou não ter feito alguma tatuagem nos últimos 12 meses.
Em outra sala, tenho uma pequenina amostra de sangue tirado de meu fura-bolos esquerdo, para saber se estou anêmico ou não. Também tiram a minha pressão e perguntam o meu peso. Pessoas abaixo de 50kg não podem doar, e aqueles com até 57kg doam 400ml de sangue. Acima deste peso, doa-se 490ml.

Observo as pessoas na sala de espera. Muitos idosos e pessoas simples. Aparentam tranqüilidade, há uma serenidade em seus olhos. Conversam, assistem à televisão e aguardam o momento de serem chamados. Agora estou um pouco nervoso. O clima do ambiente ajuda, não há energia negativa.

Ao ser chamado, respondo um questionário feito por um médico. Responder oralmente se já usei drogas, é umas das perguntas. Em seguida sou encaminhado para um mesário, onde uma urna me aguarda. Lembra uma votação. Engraçado, pois em ambos os casos, eu sinto que estou exercendo a minha cidadania.

Assino o meu nome, e em alguns segundos estou sentado numa poltrona confortável. Uma médica mulata, de sorriso encantador e de nome Ivone, me atende. Já não estou mais ansioso e nervoso. A senhora de jaleco branco conversa comigo, enquanto desinfeta com álcool o meu braço-esquerdo. Passa o algodão sem nenhuma pressa, procurando à veia perfeita. Garrateia com um pedaço de cilindro plástico o braço e, sem perceber, reparo que já estou doando sangue. Vejo aquele meu líquido roxo ir e voltando do pequeno tubo. Abro e fecho a minha mão bem devagar, conforme fui indicado. É uma sensação boa.

Fecho os olhos e começo a acreditar que a vida vale a pena. Com pequenas ações dá para ajudar o mundo, uma pessoa. Será que estou ajudando uma vida? Tomara que sim. Saber que 490ml de sangue "O positivo" contribuíram para ajudar uma vida. Já pensaram nisso?

Recebo um leve cutucão no ombro e acabei de doar sangue. Eu doei sangue. Em apenas sete minutos e alguns segundos, contribui para uma causa. Fui voluntário, e é algo tão simples, fácil e gostoso. Não custa nada, demora pouco e vale muito. Vale sete minutos meus, pode valer a vida de uma pessoa. Não é bom saber disso? Hoje eu não preciso daquele saco plástico de 490ml de sangue "O positivo", mas o que dirá o dia de amanhã?

Saio do hospital, com um lanche na mão e uma serenidade em meus olhos. Tal qual as pessoas da sala de espera.

28 de ago. de 2004

Carne é o que há


Qual é a graça de uma mulher magra, alguém pode me explicar? Tábua, sem peito, sem recheio, sem carne. Há alguma graça? Da finura de um celular, não ter bochecha para apertar, não ter uma gordurinha ali pra pegar. Há alguma graça?

Sempre fui fã das fortinhas. Mulher tenra, gostosa mesmo, sabe? Mulher de capa da Sexy, não da Playboy. A chamada "mulher de construção". Pedreiro sabe o que é mulher de verdade. Para receber um "Ô, lá em casa!", ou algum "Vixi, santa!", a mulher deve ser, digamos, voluptuosa. Magricelas não ganham berros e urros. Elas não estão com nada!

Mulher ruim de garfo é broxante. Eu, por exemplo, não consigo dividir a mesa com alguma enjoada. Estou lá no churrasco e ela na salada. Eca! Há um quê de especial naquela mulher que come pizza com a mão, lambuzando todos os seus manicurados dedinhos. Há sensualidade em se comer com as próprias mãos - bem feitas e aparadas, obviamente.

Rapazes do meu Brasil: esqueçamos as anoréxicas. Deixem essas infelizes acompanhadas de suas ricotas, tofus, alfaces e afins integrais. Sabe aquela gordinha feliz, espalhafatosa? Comece a aprender a olhá-la de outros modos.

Não estou fazendo um movimento pró-musas do Botticelli. Sou fã da famosa cinturinha, mas eu gosto de carne, meus amiguinhos! Como diriam os nossos vovôs, "Quem gosta de osso, é cachorro!". E não me venham com essa de "O que não cabe na boca é desperdício", por favor!

23 de ago. de 2004

Coleções


Adoro gente estranha. Gente com manias estranhas, síndromes e afins. Simplesmente adoro. Fazem um bem danado à pele, rejuvenescem, gente. Nada mais legal do que ter como amigo uma pessoa especial, em especial os colecionadores.

Colecionadores são estranhos. Alguns costumam roubar, veja só. Conheço uma garota que rouba tudo o que encontra num bar. A sua cozinha já tem pôsteres da Bavaria e outro da Antarctica. O pai de uma amiga é mais impressionante. Sabe o que ele coleciona? Pratos, aqueles de sobremesa. Fui no aniversário da filha do meliante e me diverti à beça. O mais disputado era o prato do KFC, que deve ser aquela figurinha mais difícil do álbum.

Colecionador perigoso anda de mochila, já reparam? As mulheres são as piores, graças ao advento da bolsa a tiracolo. Tenho um amigo, que no último dia de aula da oitava série, resolveu roubar o relógio de parede da sala de aula. Esperou o inspetor do corredor dar bobeira para subir na cadeira e arrancar o relógio. Ainda por cima, levou pra casa o apagador, o porta-giz e um pedaço de madeira da carteira em que sentava. Todos bem escondidos na mochila, é lógico.

Colecionadores são pequenos assaltantes em potencial. Quando afanam o objeto alheio, logo usam da velha desculpa: "Ah, sabe como é: é pra coleção". Às vezes, pegam até o que não precisam. Na quinta-série, um aluno roubava as chapinhas Giroflex das cadeiras. Virou moda: todos começaram a usar de compasso e régua em plena sala de aula. A cada chapinha arrancada, comemorava-se feito um gol. Parecíamos mineradores: réguas e compassos serviam de picareta, as cadeiras eram a nossa Serra Pelada. Tal mania acabou quando a diretora deu suspensão para a garotada. Foi divertido.

Quando pirralho, as coleções eram as mais bacanas. Formiga em pote de vidro, quem nunca fez? O episódio mais engraçado foi na terceira série. Plena Copa do Mundo e a pirralhada pirava no brinquinho do Romário (aquele de argola, com uma cruz pequenina pendurada). Pois bem, toda a molecada queria porque queria furar a orelha. Algumas mães deixaram, outras, como a minha, vetaram. Não estar na moda é um saco, porém, é neste momento que a criatividade rola solta. O Tiago, amigo meu daquela época, "inventou" um brinco de pressão. Era assim: sabe aquelas bolsas de avó, com aquelas correntes de argolinhas, uma atrás da outra? Eles dão um belo par de brincos de pressão.

O gênio, o Tiago, simplesmente arrancou a alça da bolsa da sua velha e começou a vender os gominhos para os meninos da sala. Lucrou horrores. Pena que depois devolveu todo o dinheiro para a pobre vovó comprar uma bolsa nova, com a ajuda de dois reais meus. Como fui trouxa.

* Gustavo, atualmente, coleciona CDS. É simplesmente viciado naquelas promoções de CDS a 9,90 reais. Recentemente pagou 12 reais no último CD do Trio Mocotó. Acha que fez o melhor negócio do mundo em tal compra.

19 de ago. de 2004

Tristeza, tristeza


Nessas Olimpíadas, não sei se vibro ou choro. Comemoro, já que nossa natação brasileira conseguiu participar de quatro finais, algo impressionante. Choro, pois percebo cada vez mais que o esporte tupiniquim vai de mal a pior. Dá dó daqueles atletas. Esbanjam alegria, agitam a bandeira e, depois, saem de cabeça baixa - outros vibram, seja qual for o resultado.

Em Atlanta, 96, a participação foi supimpa. Iriam ocorrer vários investimentos, Campinas teria um centro de natação para formar futuros campeões. Isso ocorreu? Nops. Judô, alguém por acaso já viu um torneio de judô sendo exibido? O esporte rende uns bronzes e ninguém dá bola. Deixa os neguinhos de quimono se virarem, procurarem patrocínio.

A situação está tão ruim, que nem atleta gostosa existe. Exceções existem, é lógico. Mariana Brochado e a eterna Ana Paula. O duro é ter que levantar a bandeira pela Edinanci. Orra, trabuco! Nem a seleção feminina de vôlei se salva. Valeskinha? Suplico pela volta da Leila. Nada como a Leila dando umas cortadas e recepções.

Odeio a BAND-SPORTS. Os jornalistas cobram, na cara dura, para os atletas ganharem medalhas. Tenho vontade de atirar naquele Elias Jr. "A Daiane vai trazer a douradinha, o Scheidt não perde nem se estiver de jangada". Poxa, e se eles não conseguirem nada? Vão exorcizar os coitados, tal qual aquele cavalo de nome esquisito do Rodrigo Pessoa em Sydney. E, caso ganhem, vão dar um abraço no Lula e serão convidados para sentarem no sofá da Hebe, contando como é duro ser atleta neste país.

Pena que os vencedores logo serão esquecidos. Pelo menos por quatro anos.

16 de ago. de 2004

Querido leitor,
Estou demorando pra atualizar este blog, tô não? Peço desculpas àqueles poucos loucos que sempre me encheram de comentários a cada história contada por este sujeito. A verdade é que ando meio cansado, sem vontade de escrever, parece que existem muitas coisas prioritárias agora.
Ando escrevendo quando dá na telha. Quero fazer outras coisas, mudar um pouco. Até estou empolgado com certos trabalhos da faculdade. Elaborar uma revista, fazer uma crônica para o jornalzinho. Ainda quero aproveitar um pouco mais São Paulo, conhecer mais de tudo e de todos. Tenho uma ótima companheira de aventuras. Irena, você é o meu Toddynho.

Quero, de uma vez por todas, perder esta maldita saliência abdominal. Estou sedentário, vivo resfriado e doente. Um pouco mais de luz em minha vida esportiva. Chega de promessas, seu falso gordo de araque. Resista aos quitutes de vovó Antonieta.

Ano passado decidi que seria o meu ano para a escrita. Agora estou dedicando-me a leitura. Maravilha, rapaz! 12 ou 13 livros até agora. No momento, entrego-me às palavras de Fernando Morais, com o seu grandão - porém bacanudo - Chatô, O rei do Brasil. Pretendo, até ao término do ano, chegar aos 24. Número lindo, eu sei, mas representaria dois livros por mês. É uma marca satisfatória.

Fica decidido assim, rapaziada: venho cá e publico algo, mas não com a freqüência de outrora. Façam algo de proveitoso enquanto isso. Beijem, trepem, vão perder aquelas gordurinhas indesejáveis. Assistam às Olimpíadas, que é bem legal. Falando nisso, quase escrevi no sábado que aquela tocha parecia um baseado de Itu, mas o Kibe Loco sacou primeiro. Miserável.

12 de ago. de 2004

Caso de internação
Estou começando a me considerar uma pessoa hipocondríaca. Estranho, pois fui criado num lar, cuja matriarca era médica. Bastava um resfriado, uma dor de cabeça, qualquer sinal de anormalidade, para consultarmos à "farmácia". A "farmácia" era uma caixa de madeira, entupida de caixa de comprimidos. Devia ter te tudo lá, inclusive alguns famigerados "tarjas pretas". Bons tempos.

O pessoal da faculdade, e da casa de vovó, ficam impressionados com a minha facilidade para enfiar um comprimido goela abaixo. Na minha mochila, há uma mini-filial da "farmácia". "Este é caso eu tenha dor de garganta, aquele outro é a vitamina, aquela caixinha é o meu Sorine...". Olhos assustados, e demorei a entender o porquê da repulsa por minha pessoa: sou hipocondríaco.

Fico assustado e neurótico com alguma dor muscular. Penso em correr à prateleira e logo tomar um Dorflex. Resfriado - algo comum se tratando de São Paulo - chega a ser uma tentação. São tantas as opções, que o vício piora. Loranil D, Claritin, Alegra, Biofenac, Viox, Daisy... Sei até a potência de cada! "Este é bom pra inflamação na garganta, já aquele tira o mal estar do corpo...". Gente, alguém me ajuda!

Até o momento, estou me automedicando (a coisa me persegue). Parei com tudo, apenas continuo com a vitamina. Decidi viver no século 18. Bebo um chá quente, durmo bastante, tomo um caldinho de feijão. Qualquer coisa para estar longe dos comprimidos. São uma droga aquelas pílulas malditas, e vicia mesmo! O Sorine vem sendo o pior. Como resistir ao maldito ar da paulicéia? Descolei um inalador com a vovó e caso eu pare de respirar, é só pegar aquele aparelho e enfiar o nariz na máscara. Daqui a pouco vicio nisso também...

Tinha um sujeito que estudava comigo, e ele era hipocondríaco de carteirinha. Na própria formatura o danado não foi, alegando estar com uma bola da garganta. Outra vez - dizem as más línguas - ele levou a travessa de água de seu cachorro para o professor de Biologia. Reza a lenda que ele havia achado um mosquito estranho na água, e logo supôs ser um caso de dengue. A travessa era para ser examinada no laboratório da escola!

Pense positivo, Gustavo. Você ainda tem esperanças. Só fique longe da travessa do cachorro, só isso.

9 de ago. de 2004

Hoje é o seu dia, que dia mais feliz


Oxê! 19 anos não são completados todo o dia. Sinal de que estou ficando velho. Alguns fios de cabelos começam a cair com mais freqüência, ganho uma forte saliência na região abdominal. Estou ficando velho, vejam as irmãs Olsen. Uma daquelas garotinhas que cresceram comigo está internada numa clínica de desintoxicação. É o tempo passando.

Mas estou feliz, rapaziada! Ainda não estou broxa, ora pois! Tenho muita vida a seguir, muitos sonhos e desejos a serem concretizados. Falta muito para Gustavo se declarar inválido. Sinto que devo prestar para alguma coisa. Quero muito ter um emprego, um apartamentinho básico. Nada pomposo, luxuoso. Quero tudo simples e no sacrifício, pois assim é mais gostoso.

Estou feliz. Estudo na cidade que gosto, tenho excelentes novos e velhos amigos e ostento uma namorada bacanuda. Estou feliz. Seria muito pedir algo mais para o Tio de riba. Some deixe a continuar tendo boas notícias por esses próximos 365 dias, meu camarada! Já se foi o tempo de chorar. Vou deixar a vida me levar, já dizia Zeca. A vida vai levando, mas corro atrás do que quero. Simbora, negada! A vida é boa, meus queridos; basta acreditarmos.

Parabéns para mim!

6 de ago. de 2004

Um caipira na Paulista


O ápice de minha estada em São Paulo aconteceu hoje, em pleno horário de almoço, em plena Avenida Paulista. Estava eu, no ponto de ônibus em frente ao Conjunto Nacional, esperando a minha condução. Olha pra lá, procuro algum ônibus laranja, observo algumas pessoas, faço algum passos de dança sem sair do lugar e cutucam o meu ombro. Viro.

- Olá, moço! Aqui por acaso passa o (ônibus) Barra Funda?
- Opa! Passa sim! , disse numa rapidez, um quase reflexo do meu cérebro.

Continuei a minha dança imaginária e dei uma refletida. Cacete! , pensei. Estou ajudando alguém a se achar em São Paulo! Um singelo soco no ar foi a minha contida comemoração. O quê? O pé de barro aqui dando uma de guia na capital? Ah, que maravilha! Na empolgação, fui ajudando tanto, que só faltava eu estar usando uma batina. Voltei-me ao senhor que pedira a informação e continuei.

- Oi! O senhor que ir apenas para a Barra Funda?
- Hein? Como?
- O senhor vai só pra Barra Funda?
- Não... Eu vou até a Cardoso (de Almeida).
- Ah, legal. Pois o senhor saiba, que além do Barra Funda, os ônibus Edu Chaves e Vila Brasilandia fazem o mesmo trajeto do Barra Funda.
- Poxa... Obrigado mesmo. Estou grato pela explicação.

Dei um tremendo sorriso de "Qualé, tio! O garoto aqui manja, dá licença?!". Mal olhei para a avenida e recebo um leve cutucão no ombro esquerdo.

- É... Não pude deixar de ouvir a sua conversa, e já que o senhor é tão educado, você me dizer qual o ônibus que passa pela Cerro Corá?

Não acreditei. O que estava acontecendo com o mundo? O irônico é que eu também sabia dar a informação para a senhora. Com uma ereção moral, respondi:

- O Parque Continental e o Rio Pequeno passam. Eles passam direto por aqui.

A mulher me fitou com uma satisfação tremenda. No mínimo pensou "Nossa, taí um tremendo paulistano que conhece a cidade inteira!". Confesso que também comecei a me achar assim. Quem sabe os dois senhores não lembrem algum dia daquele garoto de cabelo vermelho e bagunçado, que sabia tudo de São Paulo? Quem sabe?

Mal sabem eles a farsa que apliquei. Conheço o trajeto dos ônibus da primeira informação, pois estudo, coincidentemente, na rua paralela a Cardoso de Almeida. Já no segundo caso, os ônibus aos quais eu me referi, são exatamente os mesmos que pego para poder chegar em casa. Dei uma sorte tremenda.

Mas que o caipirão aqui se sentiu a última bolacha do pacote, ah, isso ele sentiu. E gostou, tá?


** Gustavo, apesar de tudo, é paulistano. Odeia quando o chamam de pé de barro, pé vermelho e caipira. Ninguém perdoa a fato dele ter morado 14 anos no interior paulista.

4 de ago. de 2004

Momento ombudsman

De vez em quando, recebo alguns emails de alunos de outras faculdades de comunicação. A maioria fala sobre reuniões, palestras e eventos futuros. Juro, nenhum dos milhares de emails recebidos se compara ao que veio hoje a minha caixa postal. Leiam à pérola:

Aos amigos e companheiros:

Atenção, repasso aqui a data de reunião da Regional de São Paulo.
Para os que não sabem, a maioria, existe um executiva nacional dos estudantes de comunicação social. O chamado ENECOS. Que reuni estudantes, CAs e DAs de comunicação pelo país.
Nós da Metô, temos que entrar nessa discução com toda certeza. Devemos espalhar esta boa nova em nossa universiade. Aos estudantes de comunicação e principalmente aos estudantes de jornal, com seu Novissimo CA e os alunos de RTV (que estão mais que bicudos para ter montado o estatuto para iniciar eleição emergencial em 2004),
Bom segue abaixo a data da reunião para darmos as caras. a regional é de todo o estado de são paulo creio eu, por tanto quem puder espalhar a notícia para amiguinhos de outras universidades, faça-o com fé.

Estamos ai...
Luiz RTV 4o semestre manhã METÔ!!!!

2 de ago. de 2004

Não quéio, não quéio!


Será que eu sou cabeça dura? Tenho esta leve impressão há certo tempo, e, hoje, ouvi tal afirmação saindo da boca de uma pessoa. "Gustavo, você é muito cabeça-dura!". Eu? Por quê? Ah, porque tenho certos hábitos, manias e pré-conceitos de garoto mimado. Tal alcunha - ser teimoso - é bem aplicada na hora de almoçar ou jantar.

Desde pequerrucho, sou enjoado. Qualquer coisa verde e gelada posta em meu prato era motivo pra ergh. "Come cenoura, querido. Faz bem pros zóio", dizia a minha nona caipira. Legumes e vegetais sempre me causaram certo enjôo. Ameaçavam-me muito, faziam profecias. Já era para eu ter morrido de anemia há muito tempo, segundo as previsões de Papaistradamus. Pizza? Massa com molho. Hambúrguer? Pão, carne e maionese. "Especial pra você", vinha escrito na caixinha do McDonald?s. É gostoso ser chamado de especial, ora bolas!

Não experimentava as comidas por birra mesmo. Nem aviãozinho funcionava.
Se não ia com a aparência daquilo exposto à minha a minha frente, eu não comia mesmo. Com o passar do tempo, melhorei um pouco, mas, por exemplo, ainda renego à comida japonesa. Não há santo que faça enfiar um treco daqueles pro meu estômago. Benfazejas ainda existem, como a Irena, por exemplo.

Toda mãe tem ciúmes da namorada do filhote. "Vai tomar o meu lugar, sua mocréia?", algumas filosofam. Também, quem pediu pra 15 anos mais tarde, uma garota, sentada na mesma mesa que a sua, pegar um tal de sashimi de salmão, molhar no shoyu e brincar de aviãozinho? Ainda por cima, solta a frase campeã: "Abre a boquinhaaaaaaa!". Rapaz, é quase impossível não materializar a sua genitora naquele momento. Faço berreiro, tal qual estivesse no chiqueirinho e visse uma colherada de sopinha de legumes plainando. "Não quéio, não quéio!".

Acabo experimentando, visto que as namoradas possuem maneiras de persuasão bem eficazes. Dou uma mastigada. Duas mastigadas. Passo o peixe cru para o outro canto da boca. Terceira mastigada. A expressão da patroa é impressionante. Dá aquele sorriso sincero e que diz com tanto orgulho: "esse é o meu garoto". Engulo o pedaço de salmão e fico quieto.

- Gu...
- Hummm.
- E aí?
- Que foi?
- Gostou?
- Do quê?
- Você sabe.
- Não sei de nada...
- Gostou. Sabia!
- É...

Fico sem palavras, sinto-me pusilânime (obrigado, Paulo Bonfá), e confesso: sim, gostei. Apesar de mole e estranho, até que é gostosinho. Já o sushi, não teve jeito: achei horrível. Mas outras experiências gastronômicas me aguardam pela frente. Devo fazer o mesmo com a namorada. Experimentará com toda a sua graça e pompa, um tradicionalíssimo churrasquinho de gato. Irá adorar.

30 de jul. de 2004

Quer ser o meu amiguinho?



Credo! Como este tal de Orkut é viciante! Mania de xeretar a vida dos outros, procurar conhecidos de outros tempos, ser - quem sabe - amigo de alguém famoso. Existe alguém não entregue ao tal programinha?

Quando me convidaram pela primeira vez, resolvi não abrir o email. Não sabia o que "orkut" significava e logo julguei ser algum vírus de nome terrorista. Convidaram novamente e mais uma vez não aceitei. O tal "vírus terrorista" insistia em adentrar o meu micro. Eis que matérias e mais matérias pipocam nos telejornais e revistas. "Panelinha Virtual!", foi o título dado. Colunistas favoritos escrevem linhas e elogios à geringonça. Porra! Alguém me arranja um convite pro Orkut?

Já sabendo do que se tratava, agora aceitara a intimação e era mais um brasileiro cadastrado no site. Tentei logo entender sobre o que era o bichinho e acabei broxando. Nada de mais, acreditei. Ignorei. A namorada entra na comunidade e faz altos elogios. "É uma belezaaaa! Achei amigos do arco da velha e existem muitas comunidades muito legaaaaiiis!". É mesmo? Fucei de novo no Orkut. Viciei.

Sou voyeur, bisbilhoto a vida dos outros. Quero saber o que fulano gosta de ler e ciclana adora assistir. Pratos prediletos, interesses pessoais... É muito bacanudo! Tenho poucos amigos no danado e adoro as comunidades. Faço parte de três sensacionais: Air Drumming; Nós Adoramos o Xico Sá e Eu Odeio a Sarah da MTV. Ótimo saber da existência de indivíduos que compartilhem gostos em comum.

Dá até pra ser amiguinho daquela celebridade. Quase bati um papo com a anoréxica da Yasmin Brunet. Vou tentar pedir um estágio pra Nina Lemos ou pro Lúcio Ribeiro. Será que consigo? Talvez a história mais engraçada do Orkut venha do famigerado Léo Jaime (aquele que fez a Monique Evans ter um orgasmo pela primeira vez). O cantor gordinho já arrebatou mais de mil amigos no Orkut. Como o programa só aceita até mil friends por pessoa, Léo acabou fazendo um outro cadastro em seu nome. Chama-se "Léo Jaime 2".

É a internet e suas maravilhas. Tornou-se possível até abrir franquia de si mesmo.

24 de jul. de 2004

O medo que acomoda a gente


Eu tenho medo de ir ao dentista. Não do próprio, de jaleco branco e máscara à Michael Jackson. Tenho medo, daí sim, das engenhocas do sujeito. O barulho, o espelhinho de guarita, a poltrona, ah, aquela poltrona. Reclina-te a não sei quantos graus, mas sempre fico com o pé pra fora. Quem manda ter crescido tanto?

Certa vez, enquanto colocava celante nos dentes, vomitei na cara da dentista. A dona sabia que eu tinha há tempos um tal de "refluxo gástrico" e, mesmo assim, teimou em me deixar na posição 180º graus. Foi lindo, bastou eu engolir algum líquido estranho para o meu estômago se manifestar. Huuuugo! Se ela não tivesse um baita reflexo, a acertaria em cheio. Fui exorcizado pela dentista.

Fazer limpeza de dente é horrível. Começa pelo famigerado bicarbonato de cálcio. Ô coisa que pinica! Já é duro agüentar minutos e mais minutos com a boca escancarada e, ainda por cima, tua língua começa a levar jato duma substância salgada? É aflição demais, coceira demais. Sem esquecer, obviamente, da broca usada para retirar o tártaro. Argh!

Eu não tenho cárie alguma, mas, em compensação, tenho tártaro em cada cantinho dos dentes. A ajudante do dentista - o próprio só consulta, perceberam? - liga a britadeira. Fueóoon! Fuéiiiin! Enquanto o aparelhinho vem à tua boca, os seus olhos vão fechando, as suas mãos agarram nos braços da poltrona e assim se começa à faxina. Sinto-me dentro duma obra da Marta Suplicy, tamanho o barulho que faz.

Agora, eu queria mais do que tudo nesse mundo, ganhar aquele treco de sugar à baba. Sabe? É aquela caninho que fica no canto da sua boca, faz um barulhinho idêntico ao se tentar tomar vitamina em rodoviária? Sluuuuuph! É genial aquela geringonça, ainda mais para pessoas babonas, como eu. Basta dar um berro para eu molhar a pessoa ao meu lado. Às vezes, eu pareço um São Bernardo, de tanto que salivo.

 Seria muito legal ter um daqueles no meu bolso, na minha mochila. Alguém deveria lançar um "sugador-portátil". Ajudaria muito a recuperar aqueles pedacinhos de alcatra no final dos dentes, sabe? Pô, seria demais!

22 de jul. de 2004

Fama e Anonimato
 


Continuo com a mesma mania: não ler como deveria algumas obras indicadas por meus professores. Deveria ler Chatô nessas férias e, confesso, morro de vontade de lê-lo, pois adoro o escritor Fernando Morais. Acontece que eu tenho a carne fraca para CD e livros. Há tempos eu morro de vontade de ler Fama e Anonimato de Gay Talese. O que me impedia de comprá-lo era justamente o seu preço um tanto salgado. Mas bastou uma promoção na livraria da PUC para sossegar o meu facho. Saí todo reluzente com aquele livro, de capa cor de estrume, debaixo de meus braços.

Gay Talese se autodenomina um "serendipitoso", uma pessoa capaz de notar pequenos momentos que passam despercebidos aos olhares humanos, menos no de pessoas "serendipitosas". Bastam algumas palavras e aqueles pequenos momentos ganham vida, tornam-se vangloriosas, de destaque. Talese tem este dom, escrevendo perfis de pessoas desconhecidas a famosas (Frank Sinatra, Joe DiMaggio) ou relatando o cotidiano da construção de uma ponte. Jamais pensei que teria prazer em ler algo sobre roldanas, parafusos e vigas de alumínio.

A vontade de pegar este livro na palma da mão e ler vorazmente, vem por eu me identificar com o chamado Jornalismo Literário (New Journalism). É, segundo Talese, "a arte de sujar os sapatos". É procurar a notícia em lugares inusitados, com pessoas inusitadas. Ter uma apuração enorme, cuidado com cada palavra, dar idiossincrasia ao escrever. Hoje, uma redação de jornal é baseada em telefonemas e pesquisas na Internet. Um jornalista, muitas vezes, nem precisa sair de sua mesa para cobrir um furo.

Assim como Talese, eu abomino o uso de gravadores. Penso que fica superficial, sem aquele toque pessoal. Gosto de ouvir a outra pessoa, procurar saber o que acontece dentro daquela cabecinha. Horrível quem entrevista olhando apenas para o bloco de anotações, não prestando atenção no entrevistado. "Qualquer coisa, o gravador salva", pensa o grande jornalista. Pior que salva; já pensou se o entrevistado disser que eu editei as suas palavras? É uma ótima arma contra processos judiciais. Mas prefiro não depender do maldito aparelhinho.

Talese me deu um pouco de esperança. Ele fez o tipo de jornalismo que me agrada, aquele jornalismo das antigas. Tenho a consciência do quão difícil será fazer aquilo que tanto gosto. Vou ter de agüentar muito patrão alterando meus textos, muita pauta obrigatória, não vou poder demonstrar um estilo próprio. Talese passou por isso no começo de carreira, porém, demonstrou esperteza e talento ao conseguir fazer aquilo que realmente gostava: sujar os sapatos.
 
 Talese me deu boas esperanças.
 

19 de jul. de 2004

Férias?  
 

 

Alguém, por acaso, gosta realmente de ter férias? Sério, na primeira semana é aquela maravilha: acordar ao meio-dia, café da manhã acoplado com o almoço, passar a tarde no sofá vendo Clodovil, filmes no Telecine e desenho no Cartoon Network. Ir até à cozinha e assaltar um pacote de Trakinas. Fica aquele clima de ócio, pijamas o dia inteiro, tomar banho só na hora de dormir. Remela no canto do olho, cheirinho nada atrativo. Alguém, por acaso, realmente gosta de ter férias?
 
Para outros, é época de viajar, visitar os parentes do interior. No meu caso, férias é sinônimo de ficar em casa, coçar a bolsa escrotal e passar a madrugada Internet afora. Meus dias são preenchidos pelo famoso check-up que minha mãe realiza anualmente com os seus filhotes todo mês de julho. Ir ao dentista, oftalmologista, otorrinolaringologista e qualquer coisa "ista" que aparecer. Ser filho de dermatologista é pior ainda (mais um "ista" para a lista). Limpeza de pele? Vamos tirar aqueles cravos pretos? Fazer um peeling para a sua pele não ficar tão gordurosa? Fiz uma bateria de exames alérgicos, passando três dias com 61 adesivos em minhas costas, para saber se tenho alergia a ácaro, mertiolate, laranja, amendoim...
 
Não, eu não quero voltar para a faculdade com a visão de uma águia, com a pele de um bebê. Quero ser o Gustavo de sempre: cabelo bagunçado, que pede chiclete para qualquer um que senta ao seu lado, que fica dez minutos para achar a folha da última aula de Francês em sua mochila. Aquele Gustavo que não consegue caminhar quatro metros sem desamarrar o cadarço do tênis.
 
Quero voltar a ver a minha namorada, dar aquele baita abraço nela em plena sete horas da manhã. Reclamar da aula de Artes, tomar um café-com-leite na cantina comendo pizzinha de queijo, fazer piadas de humor duvidoso e ouvir de meus amiguinhos o quão horrível será agüentar quatro anos convivendo com as minhas piadas.

Acaba, férias! Faça esse favor com este humilde guri. Faça chegar logo o dia dois de agosto. Não agüento mais estas semanas de sedentarismo, de Clodovil e Eufrásia. Não agüento mais ter de ouvir a voz da Irena através de um aparelho eletrônico, sem sentir aquele cheirinho gostoso. Faça chegar logo o dia dois de agosto. Prometo assistir até uma aula inteira de Artes. Juro, palavra de escoteiro. 

17 de jul. de 2004

Bãããã


Odeio gripe. Dor no corpo, garganta, pescoço, orelha, língua... Ah, odeio. Ter de "viajar" em comprimidos, ficar com o termômetro embaixo do braço. 36º90. Uh, quase! Sobe mais um pouco para eu ficar de febre, sobe!
 
 Maldita febre; sua covarde. Resolve atacar quando estou dormindo, nas minhas costas. Tenho medo, não. Já dizia o velho Rei: "Pode vir quente que eu estou fervendo". Isso, continua assim. Gotas de suor em minha testa, sinais de sinusite. Cadê a minha voz? Sumiu, escafedeu-se. Vamos lavar o rosto, Gustavo. Não há forças, as pernas tremem - o corpo treme. Acordo de meia em meia hora. 4h30m, 5:00... Às dez horas consigo sair da cama. Apóio o braço na cadeira e capóin! Maldita cadeira de rodinhas. Gustavo no chão, Gustavo no chão! Para-médicos, man hit!
 
Não veio ninguém com uma cruz vermelha no braço. Frustração. Vejo alguns comprimidos. Oba, comprimidos! Tylenol e Loranil D. 20 minutos depois meu organismo dá sinais de reação. Está em terceira marcha, louco para engatar uma quarta. Vamos, vamos! Reage, homem! Juro, meu primeiro filho se chamará Tylenol. O pequeno Ty.
 
Deito. Mal estar novamente. Saudades do tempo em que alguém vinha me dar um caldinho e passava horas entrelaçando os dedos em minhas madeixas. Hoje, mama me entope de drogas e apela até para o Tomahank dos comprimidos.
-         Gu, se você não melhorar, vou lhe aplicar um supositório.

 Levanto da cama, faço dez polichinelos e demonstro a minha melhora. Febre, que febre? Voz rouca? Estou imitando a Elza Soares, mãe. Estou bem, pode ficar tranqüila. Feche a porta e me deixe tirar uma soneca. Ah, pode levar esse supositório. Não preciso, não, minha flor.

15 de jul. de 2004


 
Papai do céu,
 
 Nesse próximo dia nove de agosto, eu quero muitão ganhar um Play Station 2. Eu sei que é caro, mama e papa terão que dar um duro trabalho pra pagar, mas como sou um garoto ajuizado e espertalhão, proponho que os meus titio ajudem em tal mimo. Em São Paulo tem lugar que vende por preço "baratinho". Eu sei que eles são contrabandeados, mas pensa assim, Papai do Céu, um videogame ajuda - e muito - no ambiente familiar.
 
Quando eu e meu irmão estamos jogando, fazemos aquilo que dois irmãos fazem de melhor: brigar e xingar um ao outro. Sabe, Papai do Céu, irmão que é irmão bate no braço do outro, chama de viado, e quando está perdendo uma partida de futebol, corre até o console e aperta o reset. Daí eu exclamava: "Mãe, o Fernando está roubando!". Logo em seguida recebia um pontapé. Eram tempos bons, Papai do Céu. Tinha o braço e a canela cheios de hematomas. Era uma delícia. Era eu, meu irmão, nossas brigas e o videogame. Ah, o videogame.
 
Prometo deixar o meu tio jogar. Ele sempre quer ganhar da gente, mas não tem problema. Foi-se o tempo em que titio me aplicava uma sova no videogame. O Play Station 2 também funciona como DVD. Quando a minha tia - ou a minha mãe - quiserem assistir a um filme sossegadas, basta correrem pro quarto e ligar o Play Station. Como o Senhor pode observar, é um investimento e tanto. Tudo bela união familiar. Além disso, pesquisas apontam que jogar videogame ajuda a desenvolver o cérebro mais rapidamente. E eu não quer ser uma anta, sabe?
 
Fui bom aluno, não fiquei em nenhuma D.P. Escovo os meus dentes direitinho, limpo as minhas orelhas e passo os cremes que minha mãe tanto enche o saco. Sou um garoto de responsabilidades, poxa! Pego ônibus todo dia, tendo que voltar da faculdade pra casa de vovó. Sabe o que são 40 minutos num ônibus lotado, de pé e sendo encoxado? Não é fácil, Papai do Céu. Ao voltar pra Sorocaba, enfrento outro ônibus. Este dá pra sentar tranqüilo, mas foram poucas às vezes em que eu não tive a companhia de uma criança chorando ou de velhinhos roncando. Paciência é uma virtude.
 
Espero que o Senhor goste do meu pedido. Gostaria muito de acordar na manhã do dia nove de agosto e dar logo de cara com aquela caixa preta (se possível acompanhada de dois joysticks e um joguinho). Se eu não ganhar tal presente, não há problema. Ainda tem o Dia das Crianças e o Natal, Papai do Céu. Tão cedo o Senhor não se livra de mim.
 
OBS: Enviarei esta carta para mama e titia 

13 de jul. de 2004

It's a kind of magic

Já que hoje é o Dia Internacional Do Rock, por que não falemos da maior banda de todos os tempos, hein? Seriam os Beatles? Não! Virgulóides? Erraram. Estou me referindo ao Queen, meus queridos.

No início dos anos 90, as férias de julho eram na casa da vovó de São Paulo. Guloseimas, shopping, futebol e, porque não, rock'and'roll. Sim, na casa da velha rolava um som todas as tardes. Não da parte da nona, que só cantarola Agnaldo Raiol até hoje. Minha tia, sim, era fã de música boa. Enquanto corrigia provas ou fazia faxina no quarto, um fundo musical ecoava de seu quarto. Entrava sem bater e roubava umas Balas 7 Belo que ela tanto adorava. Enquanto os restinhos da bala ficavam presos em meus dentes, perguntava todo pimpão:

- O que é isso que tá tocando?
- Isso, disse minha tia, é Queen.
- Põe de novo aquelas músicas que estava tocando? , pedia, roubando outras balinhas.

"Radio Ga Ga" e "We Will Rock You" faziam a minha festa. Balbuciava as letras, batucava na mesa imitando a fabulosa percussão de Roger Taylor. Era uma farra. Gostava tanto daquele disco, que certa vez ao pedi-lo emprestado, tive a capacidade de jamais devolvê-lo. Exibo com o maior orgulho, ao canto esquerdo de meu porta-cds, aquele "Live Wembley 86". Talvez esteja riscado, de tanto que já o escutei. Os solos de Bryan May e a cantoria eterna de Freddie Mercury ainda arrepiam.

Lembro quando o líder do Queen morreu. Vi no Fantástico um bigodudo de peruca, num clipe musical, bancando a faxineira - com direito a passar aspirador e tudo. Nunca tinha visto a imagem daqueles rapazes, e tomei um belo susto ao perceber tal visual. Achei demais, mas o que me conquistou, antes de tudo, foi o som. Mercury podia ser um anão, igual ao Tatoo, que mesmo assim eu seria fã.

Dizem que o rock morreu, a sua essência foi embora. Credencio está culpa à MTV. Hoje são poucos aqueles que se apaixonam com os ouvidos, choram com belas letras, sobem na cama e pulam ao ritmo da bateria de "We Will Rock You". A imagem ficou cada vez mais importante; mostrar os peitos pra vender CDs, beijar outra cantora para divulgar o álbum a ser lançado, dar uma cabeçada em outro músico para ter a atenção da mídia.

Jet, The Darkness, Ryan Adams, The White Stripes e Los Hermanos são, hoje, os meus favoritos. Todos são ótimos, mas posso garantir: ninguém chega aos pés do meu Queen. Nenhum deles faz eu batucar na mesa do computador ou tocar um hair guitar sem vergonha alguma. Eles não têm gosto de 7 Belo.

11 de jul. de 2004

Bozo? Fernanda Lima?


Qualquer mulher na face da Terra já teve treta com cabeleireiro. Queimaram o seu cabelo, pintaram duma cor errada ou cortaram muito curto. Podem perguntar. Eu, hoje, posso me enquadrar a tais mulheres. Queria porque queria deixar um visual mais bacanudo, moderninho, mais cool. Ora! , pensei. Vou pintar o cabelo!

Há um ano, meu cabelo era compridinho, com direito a luzes e tiara. Uma baitola em potencial. Depois cortei, rasparam (faculdade) e ele começou a crescer. Eu deixava um moicano paraguaio, depois, o bagunçava até ele ficar normal, de gente. Seria uma boa hora para mudanças? Sim! Loira novamente? Não: vermelho fatal! Fogo, desejo, paixão. Um tesão para o inverno. Apenas algumas mechas, lógico.

A bicha que me atendeu perguntou:
- Como você vai querer?

Sou enjoado, portanto, dou uma resposta enigmática:
- Como estivesse pintando um quadro, jogando tinta nele. Pá! Esparrama tudo, não quero nada bonitinho.

Confuso, não? Quem mandou assistir um filme sobre Pollock? Arte de vanguarda e surrealista no meu cocoruto. Chamou a assistente, explicou o procedimento; ela maneou a cabeça e preparou a tintura. Enquanto pincelava o meu cabelo, lia uma Vip, pois estava precisando mostrar que ainda há um lado macho em meu organismo. Foram 20 minutos de espera.

- Posso ver? , perguntei.
- Tem que lavar antes... , ouvi da assistente monga.

Lavou e ainda ganhei uma massagem. Maravilha! Olhei para o espelho e gostei do resultado - diferente. Ao chegar em casa, ouvi de meu irmão:
- Fernanda Lima?

Ignorei. Ouvi de papai:
- Bozo?

Peraí! Bozo é mancada, pô! Meu cabelo não estava pra tanto assim. Corro até o banheiro, fito os olhos ao espelho, coloco as duas mãos na bochecha, tal qual Macaulay Culkin em "Esqueceram de Mim".

- Putaqueupariu! Que merda!

Pica-pau, Thundercats, água de salsicha. Com um pouco mais de atenção, estava a cara do Júlio, falecido tecladista dos Mamonas Assassinas. A mama veio até o banheiro, pois ouvira um grito, obviamente, e não disse nada, apenas começou a dar risada. No salão, o cabelo estava molhado, ou seja, a tinta não realçava tanto. Bastou ele secar pra nascer o Curupira que aflorado dentro de mim. Broxante.

Resumo da ópera: comprei um shampoo tonalizante e agora o cabelo está um vermelho bem bonito. Bacana. Pena que o castanho-claro natural está meio acaju.

8 de jul. de 2004

Havia um Ford Ka no meio do caminho

Sociedade machista é a velha história: quem dirige? O homem. É muito raro ver uma garota levando o namorado no banco do passageiro. Algumas vezes, a guria é mais velha, noutras, ela tem carro; ele, não. Outra possível hipótese é ter como namorado alguém como eu, um folgado de marca maior.

Sim, eu não tenho carro e, sim, eu não gosto de dirigir. Não tenho muito tesão por carro, não. Nunca fui de assistir a corridas, nem tive vontade de ir a uma feira de automóveis. Carro, segundo meu ponto de vista, tem que andar e ponto final. Basta! Não ligo pra marca, potência ou coisa parecida. Mas voltemos ao fato de a minha namorada ser a condutora do relacionamento.

Ela, sim, adora dirigir. A primeira coisa que fez ao tirar a carta de habilitação foi comprar um chaveiro de porquinho para colorir o molho de chaves do veículo. Um carro velho, digamos; dividido com a sua mama. Jamais dirigira sozinha, sempre com os pais ao lado se descabelando para evitar certas manobras da figura. Quando conseguiu se desvencilhar dos seus geradores, escolheu alguém como companheiro de aventura: eu. Honrado? Imagina: aterrorizado.

Mas ela dirige bem (tive que falar isso a ela). Sai direitinho, troca às marchas que é uma beleza, raramente deixa morrer o carro (já vi morrer quatro vezes). Resolveu me levar até a locadora próxima à sua casa para escolhermos alguns DVDs. Anda na faixa destinada aos ônibus, em plena Avenida Paulista. O velho Citroen 93 é o recheio de um sanduíche formado por um Barra Funda e um Parque Edu Chaves.

Medo. Pára no estacionamento e quase arranha as calotas na guia. Ela tem santo forte, acredito. Estaciona direitinho, mas medroso que sou, já vejo a hora dela sair com o carro. Brinco de flanelinha e ajudo a moça. "Direita, esterça, vira, pára, volta tudo...". Se não der no jornalismo, já sei qual profissão seguir: guardador de carros.

Saímos do estacionamento. Trânsito de sexta-feira à noite em São Paulo é um caos. Gente apressada, que buzina o tempo todo, que decide frear em cima da faixa de pedestres e... PIMBA! Pimba? Havia um Ford Ka no meio do caminho, no meio do caminho havia um Ford Ka. Olho pro pára-choque do carro abatido e vejo a merda: afundou bacana. A namorada ensaia um chororo e pede para o namorado - no caso, eu - a enfrentar o condutor do outro carro. Abro a porta e nem imagino o que dizer. "Oi! Ferramos o teu pára-choque, mas, ó, foi sem querer!". Quem sabe essa: "Batida? Que batida? Teu carro já estava sem pára-choque desde o último farol!".

É por isso que ainda vivemos numa sociedade machista. Na hora do aperto, o homem é quem tem que segurar as pontas e dar a cara pra bater. Por que a mulher não faz isso, hein? Saber dirigir e afundar um pára-choque alheio é tarefa fácil, né?

Ainda bem que quem conduzia o outro veículo era uma garota miúda e de óculos fundo de garrafa. Já imaginou se encontro um Vitor Belfort pela frente?

7 de jul. de 2004

Salve pro mano!


Opa, opa! Alguém sabe que dia é hoje? Este humilde espaço completa um aninho de vida. Viva! Congratulações, meu querido!

Em julho passado, resolvi encher a paciência da Bruna para ter um layout bacana, num servidor bacana (Blogger Brasil - como eu era trouxa). Eu tinha um blog com o mesmo nome usando um servidor mixuruca.

Dei algumas sugestões e a baixinha deu vida a esta maravilha que aparece hoje aos olhos de vocês, queridos leitores. Foi num sete de julho. O meu trabalho foi apenas colocar a cachola pra funcionar e escrever as besteiras e indagações que surgissem.

Daqui pra Lá! foi um nome que me agradou muito. Da minha cabeça, deste computador, das minhas palavras para a casa, escritório ou escola de quem esteja lendo. Até leitora em San Diego eu tenho. O nome surgiu por um lapso que tive e, alguns meses depois, ao ler tal palavra sendo repetida três vezes no livro "Um Sopro de Vida" de Clarice Lispector, percebi que Daqui pra Lá! era perfeito. Caiu como uma luva.

Para comemorar um ano de vida, virá um novo layout por aí. Repetirei a minha parceria com a Sra. Magarotti e, quem sabe, daqui uns 365 dias, tantas coisas boas que aconteceram nesses últimos 12 meses se repitam ou, até, melhorem. É esperar, criançada. Bola pra frente!

5 de jul. de 2004

Grandes amigos


O que eu posso dizer sobre essa série? Bem, durante alguns anos, terças-feiras à noite foram um grande motivo para a minha família se unir, jantando e colados à telinha. Na escola, muitos papos nasceram sobre os episódios. Nutro por seis anos uma paixonite aguda pela mulher do Aquiles. Não consigo mudar de canal quando vejo um capítulo do seriado no ar. Pode ser repetido, mas não ligo. Revejo cada piada, revivo cada momento.

Sou viciado, assumo. Sei até as falas de cor e salteado. Consumista, comprei até as trilhas sonoras, e aguardo ansiosamente o dia em que terei os DVDs das dez temporadas ilustrando a minha prateleira. Queria ter um Central Perk para reunir os meus amigos; queria ter essa amizade de friends para sempre.

Ainda vejo graça em cada novo momento - talvez por ser algo que me acompanha há tantos anos, sei lá! O humor pode não ser mais o mesmo, mas é difícil perder algo que ainda te recorde tão boas lembranças. Tenho em casa, uma maníaca por limpeza, tal Monica; sou apaixonado por uma avoada, tal qual Rachel. Eu adoro comer sanduíches e fazer piadinhas em momentos inoportunos, assim como Joey e Chandler.

Certamente, Friends terá um cantinho especial em minhas memórias de adolescente. Foi bom, muito bom.

4 de jul. de 2004

O hype é ser indie


E o Chorão enfiou a bolacha no Marcelo Camelo. Notícia quentinha trazida, ontem, pelo Seu Ronald. Deu um belo soco no nariz adunco do Los Hermanos. Tadinho, deve ter doído pra dedéu. Também, quem manda comprar briga com aquele king-kong skatista? Quis tirar satisfações só porque o vocalista do Charlie Brown fez propaganda para a Coca-Cola? "O quê? Jabá para o símbolo do capitalismo, é? ", deve ter dito o barbudinho. Levou uma na fuça como resposta. Bem feito.

Odeio essas pessoas "politicamente corretas e engajadas". Geralmente são filhinhos de papai, que cansados da vida da marofa, decidem criticar aquele país em que eles passavam as férias em suas infâncias. São alternativos, né? Valorizam o passado, nunca o presente. Tudo que está em voga lá na conchinchina é bacana, mas se pega no Brasil, já perdeu a graça. Ah, estas pessoas geralmente ficam entoando as músicas do próprio Camelo, pois se "Chico Buarque é Deus, Marcelo Camelo é seu profeta". Ridículo.

Adoro Los Hermanos, e acho que todos que lêem o blog sabem disso. Cantarolo as letras, emociono-me, admiro, mas não sou nenhum baba-ovo dos rapazes. Não os coloco num altar nem a pau. Eles são os modelos de pessoas alternativas, indies, hypes, sei lá, que me irritam. Veneram Lúcio Ribeiro (gosto dele) e tênis All-Star (bacanudo). Odeiam os yankees e se acham os donos da razão. Adoram falar, mas não sabem ouvir.

O tecladista do Los Hermanos tem blog (quem não tem hoje?). Eita sujeito arrogante. Adora se vangloriar que só veste um par de tênis, uma jaqueta e uma camisa pólo. Filme que presta, apenas aqueles de neguinho passando fome ou qualquer um do Gus Van Sant. Faz questão de exibir a aparência de sujinho metido a intelectual. O resto da banda faz o mesmo, assim como seus fãs. Só o Barba que tem jeito de ser gente boa, por nunca abrir a boca, apenas sorri. Se eu não me engano, a maioria dos músicos se conheceu na PUC-RJ. Será que eles são pobres? Creio que não, PUC é sinônimo de exploração em qualquer lugar. Deviam ser daquela banda de violão em punho e beque na boca. Conheço muitos assim e, até respeito, mas não acrescentam nada a minha vida.

Acho engraçado que os fãs de Los Hermanos execrem Ana Julia - os membros da banda, idem. Por quê? Será que se não fosse por uma música puramente comercial, de refrão chiclete, eles fariam sucesso? Talvez sim, porque são talentosos, mas talvez não, porque são feios pra burro! No clipe, a tal da Ana Julia era interpretada por uma atriz global. O passado condena teu presente, querido Marcelo. Tua música foi a mais tocada no carnaval baiano de alguns anos atrás. Vem querer pagar de bobalhão e apontar o dedo no nariz do outro? Tem que apanhar mesmo, tal qual alguns de seus fãs idiotas, esses tal de indies.

Hoje vocês são alternativos, mas tenho certeza de que muitos de vocês já ralaram a boquinha da garrafa, já dançaram Macarena e já cantaram dance music. Vocês nada mais são do que meros modistas. Gostaria muito que o Los Hermanos lançasse um cd de funk pancadão. Seria um orgasmo visual ver os cabelos desgrenhados e sem-corte à brit-pop substituido por um totalmente lambuzado de gel, as sandálias de couro de burro e jaquetas da Puma dariam lugar a um par de jeans Gang. Tati Quebra-Barraco será o verdadeiro hype, meus amiguinhos.

2 de jul. de 2004

Meet the parents

Todos, um dia, vão passar por tal experiência: jantar com os sogros. Senti-me no papel de Ben Stiller em Meet the Parents. A única diferença é que os pais eu já conheço bem, o papai da Irena não é ex-agente da CIA e nem me colocou sobre um detector de mentiras. Ah, ele também não tem nenhum gato que saber usar a privada. Ufa!

Chegamos no elevador e já ouvi um conselho da namorada:
- Meu pai não gosta de palavrões, portanto, evite.

Danou-se. Quem me conhece, sabe que é impossível eu não dizer uma sentença sem um "porra", "cacete" ou "merda". Subimos no elevador: eu, agregada e sogra (muito gente boa, adoro-a). Eram nove andares, então deu tempo de eu tentar forçar o meu cérebro a não produzir nenhuma palavra de baixo calão.

Adentramos ao apartamento e estava a família toda reunida. Família Doriana. Mais gente para eu tentar não pagar mico. Com a mãe e a irmã, eu me dou super bem, mas ainda não fiquei mais de um minuto conversando com o sogro. Óbvio que eu estava nervoso, óbvio que eu estava louco para me jogar varando abaixo e fugir de tal compromisso. Mas é nessas horas que eu preciso honrar a minha honra, o meu orgulho. Seria mesmo?

Avisto o alvo, quer dizer, o sogro. O cara, de longe, dá medo. Jogou basquete a vida inteira, ou seja, não é nada pequeno. Porém, é engraçado e adora dar umas tiradas irônicas. Digo um "oi" bem longe e após alguns minutos o grande momento chega: o jantar. Mal estou chegando e a sogra já diz:
-Toma vinho, Gustavo?

Será que a velha está querendo me embriagar. Não, ela é gente boníssima. Mas eu não bebo... Será que se eu não beber, serei mal educado? Tudo isso passou por minha cabeça durante três passos. Sentamos e chega a bóia. Um arroz com uns trecos estranhos (tinha tomate, isso eu sei), uma carne ao molho, peixe e, ufa, suco! Ponho um pouquinho de comida, pois sou caipira e acho que encher o prato é má educação.
- Vai se engasgar, hein, Gustavo! , brinca o sogrão.

Faço uma piadinha e consigo me safar. Silêncio na mesa. Tentando me mostrar comunicativo, digo aquilo que todos fazem num jantar quando não há assunto: elogio a comida.
- Muito bom esse arroz, principalmente o grão de bico, falo, com o maior carinho do mundo.

A resposta não vem tão carinhosa:

- Isso é champignon!! , exclamam os três.
- Agora eu sei porque alguém escolheu jornalismo... , ouço do sogrão.

Burro e burro! Como confundo um treco duro como grão-de-bico, com algo mole e sem graça como champignon? O melhor é dizer isso para um sogro que tem "apenas" um restaurante e deve manjar de comida pra cacete!

Parabéns, gugu...

29 de jun. de 2004

Se joga, bi!

Todo mundo lembra do filme acima, não? Aposto que muito recordaram daquela famosa cena em que o personagem interpretado por Kevin Kline se assume de vez, ao tocar "I Will Survive" no seu som. Impagável.

Ontem, na academia, tal cena veio à minha memória. Academia, como muitos sabem, é reduto das bibas. Geralmente eles vão em duplas, exibindo orgulhosos os bíceps e peitorais aos colegas e, não sei por raios, adoram se julgar os pegadores. "Tal fulana eu peguei mesmo!", exclama um suspeito. Impressionante, não vejo razão pra tanta falsidade. "Se joga, bi!", diria um amigo gay.

No mesmo dia, um Dj estava discotecando. No início, apenas "músicas Jovem Pan". Aos poucos foi melhorando, colocando alguns clássicos até chegar ao auge: hinos incondicionalmente gays. A caixa de som soltava o refrão: "You just good to be true...". Não tive dúvidas: virei o rosto para trás e vi os "machões" se segurando em pé para não soltarem os quadris. "Can't take my eyes off you...". Caras e bocas eram feitas, e a música continuava. Do refrão não passa, do refrão não passa, era o meu mantra. Vem a famosa entradinha e o refrão: "I love you baby...". Dois cantam e balançam a cabeça. Outros olham, começam a mexer um pouco os braços e bater o pé levemente.

O Dj, percebendo a reação, solta "Staying Alive". Ah, agora só deu neguinho saindo do armário. Sensacional! Entoavam a letra, faziam alguns passinhos à John Travolta. As mulheres, boquiabertas, apenas olhavam. Juro, se tal música estivesse tocando no vestiário, só ia rolar um trenzinho básico e barbie dando toalhada no outro.

28 de jun. de 2004

E agora, Mr. M?

Analisem o auto-retrato do pintor Van Gogh.

Agora vejam uma foto do Chris Martin, vocalista do Coldplay

Só eu que achei um a cara do outro?