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17 de mai. de 2010

Mulheres à frente de seus tempos marcam as HQs 'Kiki' e 'Bordados'


Já estão à venda nas livrarias brasileiras dois dos quadrinhos que vão estar na lista dos melhores que sairão por aqui neste ano: “Kiki de Montparnasse” (Editora Galera Record) e “Bordados” (Quadrinhos na Cia).

Feministas a sua maneira, as duas obras retratam com intimidade e curiosidade o papel de mulheres à frente de seu tempo -  em épocas diferentes.

Em “Bordados”, elas conversam timidamente sobre homens, relacionamentos e sexo. Na sociedade machista em que vivem são alvo de casamentos arranjados e cirurgias de reconstituição de hímen (para serem “eternas virgens”).

Já em “Kiki de Montparnasse”, ela surge um exemplo de libertina, que vive a liberdade sexual e emocional. Ela é alcoólatra, usuária de drogas e não acredita em casamentos.

O curioso é que o primeiro exemplo é do século 21, enquanto o segundo é do período entre a 1ª e 2ª Guerra Mundial.

Mulher de verdade
“Kiki” é uma premiada HQ francesa, que chega ao Brasil com três anos de atraso. Ela conta a história de Alice Prin, uma camponesa da Borgonha que se tornaria a grande musa de uma Paris boêmia e efervescente pós-1920. Ela nasceu de mãe solteira e passou a infância nas ruas até ser criada afetuosamente pela avó materna.

Alice foi uma artista, que flertou com a pintura, cinema, dança e canto. Durante a adolescência, chegou a se prostituir para sobreviver a pão e vinho. Quis o destino (e sua ousadia) que ela tivesse a seu redor mentes brilhantes, como a dos pintores Moïse Kisling, Fujita Tsuguharu e Pablo Picaso, do fotógrafo surrealista Man Ray e do escritor Tristan Tzara (criador do movimento Dada).

 Foi aí que Alice virou Kiki, a rainha do bairro de Montparnasse. Modelo de diversos artistas de vanguarda, ela conheceu na época não apenas a liberdade sexual, mas também a intelectual. Kiki, apesar de toda a polêmica em torno de seu nome, é um dos principais exemplos da emancipação feminina no século 20.

Dividido em quase 30 capítulos, o livro é uma rica biografia. Realizada pela dupla francesa Catel Muller (arte) e José-Louis Bocquet (roteiro), a obra possui traços e narrativas simples, ótimos até para quem não é lá muito fã do gênero.

Laços de família
Já “Bordados” leva a assinatura da iraniana Marjane Satrapi. Autora de “Persépolis”, graphic novel que rendeu um documentário indicado ao Oscar, a artista volta-se novamente à própria família para revelar o mundo feminino dentro do machista Irã.

É tradição no país, após o almoço, que os homens tirem para um cochilo - enquanto as mulheres tiram, adivinhem, a mesa. Marjane costumava ser a responsável pela preparação do samovar, um tradicional chá de bule iraniano.

O costume é um pretexto para suas familiares “tricotarem”, como se diz no Brasil. “Falar mal dos outros é ventilar o coração”, diz sua avó, viciada em ópio.

Aos poucos, a autora arranca camadas da sociedade iraniana. Para falar francamente de virgindade, casamento e traição, ela pega exemplos de casos íntimos, como o de uma prima, mãe de quatro filhos e que nunca viu um pênis (seu marido a obriga a transar no escuro).

 Já outra tia, que sonhava viver no Ocidente, aceitou casar com um desconhecido, sendo que o próprio não esteve presente no casamento – ela posou para as fotos ao lado de um porta-retrato!

"Bordados” traz uma crítica política e social muito forte com diálogos divertidos e histórias curiosas. Apesar do título do livro remeter à fofoca, ele também é uma expressão iraniana para o procedimento cirúrgico que algumas mulheres se submetem para reconstituírem seus hímens – para que os futuros maridos acreditem que estejam casando com virgens.

O grande trunfo dele é revelar que, quando reunidas, mulher é igual em qualquer país e o assunto é sempre o mesmo. Basta trocar o chá do samovar por uma rodada de Cosmopolitan que "Bordados" vira praticamente um “Sex and the city”.

* Matéria publicada no G1 em 12/5/2010

16 de mai. de 2010

Thalita Rebouças ganha quadro de futebol na Globo e gibi em ‘Luluzinha’

 A escritora Thalita Rebouças, autora da popular série de livros “Fala sério”, foi convidada neste mês para escrever o roteiro da edição de maio do gibi “Luluzinha teen e sua turma”, versão adolescente da personagem criada por Marjorie Henderson Buell em 1932.

“Aprendi a gostar de ler graças aos gibis do ‘Fantasma’, da ‘Turma da Mônica’, ‘Tio Patinhas e até mesmo ‘Asterix’”, explica a autora, que vendeu 500 mil livros lançados no país de acordo com sua editora, a Rocco.

Thalita já tinha ganhado uma versão animada de si mesmo em dezembro, em uma edição da mesma revista. Dessa vez, ela preferiu assinar a história que, segundo a escritora, tem como tema a amizade. Nela, Luluzinha é nomeada representante de sua escola para um congresso estudantil. Lá ela conhecerá novos paqueras, para desespero de Bolinha - agora magro e apaixonado por Lulu.

O gibi tem conteúdo exclusivo para a internet, como tirinhas e vídeos que interagem com o conteúdo impresso.

Que cena!
Além do gibi, Thalita tem outras duas novidades para esta semana. Agora mesmo está em Portugal para o lançamento de seu 5ª livro por lá, cuja série “Fala sério” ganhou o curioso nome de “Que cena”. Mas ela garante que só o título é diferente.

 “Adolescente é tudo a mesma coisa, só muda de endereço. Mas uma diferença que senti lá é que os jovens portugueses respeitam muito mais os professores. É uma autoridade intacta que, infelizmente, se perdeu por aqui”, comenta.

No domingo (9), ela também estreia um novo quadro no “Esporte espetacular”, o “EE de bolsa”. O programete surgiu na internet e traz Thalita tentando de entender as regras do futebol.

“Já sei quantos jogadores o técnico convoca para a Copa do Mundo e aprendi o que é tiro de meta. Mas o impedimento ainda é um grande segredo”, brinca.

Em novembro, a escritora irá lançar o seu primeiro livro com um protagonista masculino. Ainda sem título, a obra irá mostrar a relação entre garotos e garotas de 12 anos em um colégio. Ela diz não temer uma certa rejeição dos meninos ao trabalho, afinal, Thalita é conhecida como autora de “livros de menininha”.

“Existe um certo preconceito porque a capa dos meus livros é rosa, mas tem muito menino que os lê escondido, sabia? Menina não tem esse preconceito, lê de tudo. O Ziraldo que me disso isso e é verdade”, diz. “Aliás, por que menina pode ler ‘Menino Maluquinho’ e menino não pode me ler?”, reclama, com bom humor.


* Matéria publicada no G1 em 7/5/2010

14 de fev. de 2010

Grau 26 mistura literatura com seriados e redes sociais


Em plena época de convergência digital, muito se fala sobre o encontro de mídias em uma única plataforma: a internet. A televisão já migrou para esse ambiente, assim como o rádio, a telefonia, os jornais e as revistas. Mas e os livros? Para se ter uma ideia de como pode ser feita tal conversa, vale a pena dar uma olhada em Grau 26: A Origem (Editora Record, 420 págs.), batizado de “o primeiro romance digital interativo” da história.

Escrito por Anthony E. Zuiker, o criador da popular série de TV CSI, em parceria com Duane Swierczynski, a obra é um livro policial misturado com elementos cinematográficos e rede sociais. Estão chamando isso de “digilivro” (http://www.youtube.com/watch?v=6GfYeaU7r9A). Mas, antes de saber o que é isso, entenda a história de Grau 26. O romance fala sobre um psicopata que foi incluído dentro de um novo grau de perversidade. Quem trabalha com a lei sabe que os homicidas são classificados em 25 graus, de oportunistas premeditados a torturadores metódicos. Mas acontece que há mais de duas décadas um serial killer apelidado de Squeegel obrigou a polícia americana a classificá-lo em uma categoria: o grau 26.

Ele nunca deixou um vestígio para trás. Não tem uma assinatura, um método, nada. Mata qualquer pessoa que passar pela sua frente – menos bebês. Veste uma roupa de látex que cobre o corpo todo, apenas com aberturas nos olhos e um zíper na boca. Somente um perito criminal conseguiu chegar perto de Squeegel: Steve Dark. Os outros morreram ou ficaram loucos. Após ter toda a sua família adotiva morta pelo psicopata, Dark larga o caso e a profissão. Anos depois é “obrigado” a voltar a caçar o serial killer, que agora é quem o persegue.



O que existe de digital no livro aparece ao final de alguns capítulos. Em momentos de cliffhanger (aquele suspense final que trará uma revelação surpreendente), a história é interrompida e mostra o endereço do site http://www.grau26.com.br/, com um código de acesso para ver um vídeo que mostra o que vai acontecer. São 20 desses ao todo. É preciso entrar na página e criar um cadastro. Ela é praticamente uma rede social para os leitores conversarem entre si. Ao fazer uma conta, os primeiros amigos que aparecem são, justamente, os autores. Os vídeos têm entre dois e três minutos, trazem legendas em português e lembram um seriado online.


A fórmula é interessante, mas acaba com a imaginação do leitor. Vemos, em carne e osso, os personagens descritos na obra literária, assim como os cenários que criamos em nossas cabeças. Também não é nada prática ler um livro com o computador ligado ao lado, para fazer aquilo que Zuker chama de ciberponte. Um livro exige concentração e dedicação. Precisar entrar em um site para ver um filmete dispersa um bocado. O objetivo dessa interação é fazer de Grau 26 uma experiência.

É preciso deixar claro que ele pode ser lido normalmente: aquilo que aparece nos vídeos é descrito algumas páginas à frente, ou seja, as ciberpontes são um complemento do romance policial - muito bem escrito, por sinal, com uma história envolvente e viciante. No final, o que importa mesmo é o conteúdo literário, não o digital. Mesmo assim, conferir o universo de Grau 26 dentro da web é uma obrigação, até para entender esse formato, que indica uma nova forma de leitura. Essa interação pode não funcionar perfeitamente com um livro tradicional, mas irá permitir um grau de imersão interessante em e-books.

* Matéria publicada no Virgula

7 de nov. de 2009

Uma semana com o Kindle

Sabe quando você segura um gadget e sente que aquilo ali em suas mãos pode ser o símbolo de uma revolução? Foi assim quando peguei pela primeira vez um iPod ou passei os dedos pela tela de um iPhone. E tal sensação aconteceu novamente após passar uma semana com o Kindle 2, o leitor de livros eletrônicos da Amazon.

No Brasil ele pode ser comprado pelo próprio site da Amazon, mas o seu valor por aqui supera a barreira do R$ 1 mil. O Kindle impressiona, a começar, pelo visual, que mais parece ter sido obra dos designers da Apple. Ele é muito fino e leve (menos de 1 cm e 289 gramas, para quem ficou curioso) e sua parte frontal é toda branca. Suas bordas são arredondadas e ele pode ser carregado na tomada ou em portas USB - o Kindle tem um adaptador incluso, que faz os dois serviços em um único cabo, uma ótima sacada.

Agora, a tela. Ela não é colorida, mas reproduz 16 tonalidades de cinza (o primeiro modelo, quatro). Ficou decepcionado? Não fique, ela possui uma tecnologia que dá a sensação de realmente estar lendo as páginas de um livro. O ambiente pode estar muito iluminado também, não tem problema, pois o visor se adapta à luminosidade. Porém, a tela do Kindle não emite luz, o que causaria um cansaço aos olhos. Não espere lê-lo em lugares muito escuros, portanto - só com a ajuda de uma luz externa, ou seja novamente, igual a um livro normal.

Como a maioria dos gadgets do momento são touch screen, chega a ser natural pressionar a sua tela. Mas para navegar no Kindle há o "5 Way Controler", uma espécie de joystick que permite ir para cima e para baixo da tela. Além disso, há 5 botões: dois para ir para a página seguinte, um para a página anterior, o de home, outro de menu e mais um de back. Esse joystick é um pouco duro e até ruim de manusear, mas pega-se o jeito com o tempo. Na parte debaixo, por fim, vem o teclado Qwerty, que é ótimo, apesar de exigir uma certa pressão dos dedos.

O e-reader ainda conta com speakers em sua parte de trás e uma entrada para fones de ouvido de 3,5mm. Sim, o Kindle toca também MP3! Mas essas duas opções também servem para ouvir áudio-livros - alguns livros eletrônicos vêm com a função de "Text To Speech", para quem quiser ouvi-los, em vez de lê-los.

LEITURA BÁSICA

Para ligar o Kindle, é só arrastar a barrinha switch que fica na borda superior. Ele é bem intuitivo, já abre diretamente na página home, que mostra todos os livros armazenados e todos aqueles trechos e palavras que você marcou por considerar importante ("Clippings"). Para procurar por um livro, e só clicar em menu e ir na Kindle Store.

Aqui vem o grande trunfo do Kindle, sua conexão 3G. Apesar de não ter Wi-Fi, o livro eletrônico da Amazon tem acesso à rede sem fio de telefonia celular, por um certo sistema Whispernet, da própria Amazon. Desta forma, pode-se comprar um livro virtual no site da loja virtual a qualquer momento do dia. Nos Estados Unidos, a navegação foi muito rápida. Em menos de 30 segundos foi possível baixar e-books. No Brasil, o tempo foi de aproximadamente 1 minuto, o que também é ótimo. Mas a conexão caiu em diversos momentos.

Os e-books são pagos e os valores vão de US$ 2 ("O Retrato de Dorian Gray") a US$ 12 ("Amanhecer", último livro da série "Crepúsculo"). Para comprá-los, só com cartão de crédito, registrado na Amazon. Infelizmente, na Kindle Store não há muitas opções de obras em português. Paulo Coelho tem 7 livros por lá, mas nenhum em sua língua nativa, só em inglês. A reportagem conseguiu encontrar "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro", ambos de Machado de Assis. Cada um custava US$ 3, mas ao optar por uma versão "preview", que geralmente dá acesso à apenas um ou dois capítulos da obra, eles vieram na íntegra.

Vale dizer que não muitas opções também em inglês. Best-sellers como "Free", de Chris Anderson, não estão por lá. Nem "O Código da Vinci", de Dan Brown. A melhor opção é buscar por livros eletrônicos na internet e depois transferi-los para o Kindle via USB. Para os brasileiros, uma opção é a Editora Plus. Está atrás dos clássicos? Garimpe pelo Google.

O gadget da Amazon lê e-books nos formatos AZW, MBP e mobi. PDF, não. Para fazer essa conversão, é preciso enviar um e-mail para um endereço específico da Amazon. A conversão custa centavos de dólares e demora algumas horas. Mas também há programas gratuitos na rede que fazem esse serviço.

O site da Amazon, sempre que for entrado pelo Kindle, irá exibir sugestões de livros para você comprar baseados em suas pesquisas. Também é possível checar o Top 25 dos mais vendidos. Mais de 60 jornais e revistas também estão por lá para serem lidos (o periódico O Globo é a única opção brasileira). Pode-se comprá-los por edição ou criar assinaturas mensais. Quase todos dão um tira gosto gratuito de 14 dias.

O Kindle 2 vem com o New Oxford Dictionary. Para saber o significado de uma palavra, é só parar com o cursor nela para receber uma breve descrição. Quer saber mais? Dê um clique com o joystick. Fazer marcações também é fácil, basta apertar o mesmo joytisck e correr sobre o texto. Para aumentar a fonte, é só apertar a tecla Aa, onde é possível também escolher o número de linhas pela tela.

RESUMO FINAL

Após 7 dias com o Kindle 2 por perto, o resultado é positivo. Ele vai agradar principalmente quem gosta de ler em inglês, já que a presença de títulos em português beira ao zero. Ele não tem entradas para cartões de memória, algo negativo, mas o seu 1.4 GB de memória permite armazenar cerca de 1.500 obras. Seu sistema de internet 3G é impressionante e nos EUA funciona de maneira espetácular (por lá, dá até para navegar pela internet, o que não funcionou por aqui). Sua bateria também se saiu bem nos testes.

Em uso intenso, durou dois dias. Regularmente, uma semana.

Por aqui, seu problema é o preço. Pagar R$ 1 mil em um aparelho desses é um luxo para poucos. Já acostumar a lê-lo é uma questão de hábito. No princípio há um estranhamento, mas a sua tela é extremamente confortável por dar a sensação quase fiel de se folhear um livro. Irônico, não? Só faltou ele ter aquele cheiro gostoso de livro novo. Ou de mofo, se fosse um livro velho.

5 de jun. de 2009

Gustavo, o gênio


"A primeira vez em que a gente é mandado para fora da sala de aula é algo inesquecível".

Estava dando uma lida agora pouco na linda edição especial que a escritora Ruth Rocha ganhou do Estadinho, pelas mãos da Caramico, em razão dos seus 40 anos de carreira.

Além, claro, da Coleção Vagalume, credito à Ruth uma certa influência por me fazer o escriba que sou hoje. Minha tia Marize me apresentou às principais obras dela durante minha infância. Devorei Marcelo, Marmelo, Martelo e a coleção A Turma da Nossa Rua numa sentada só, quando passei as férias na casa de minha avó Antonia.

Mas o motivo que realmente faz de Ruth uma pessoa inesquecível para mim é a sua presença na primeira vez em que fui mandado para fora de uma sala de aula.

[Antes, um adendo: como a minha mãe (e família) agora lê o DPL!, preciso explicar algo primeiro:[durante minha vida escolar levei uma mera advertência, na 5ª série, porque estava tirando as plaquinhas de identificação das carteiras. E só. E fui "convidado a sair da classe" outras duas vezes. Uma porque falei que a mãe do Osvaldo não se importava com ele, na 7ª série, e outra porque atirei um apontador de netal na cabeça da Daniela. Essa foi no 2º colegial.Posto isso, vamos lá.]

O meu début aconteceu na 2ª série e justamente durante uma prova de português, matéria que sempre, com o perdão do trocadilho, tirei de letra. Parte da redação era sobre a obra Eugênio, o Gênio. Nunca esqueço a capa com aquele burro usando óculos de grau.

Fiquei traumatizado.

Eu estava na dúvida se Ruth tinha agá ou não. Caxias que era, abri a minha mochila da Pakalolo e tirei o livreto. Segurei-o nas minhas coxas e verifiquei. Ok, era com agá mesmo. Nem tive tempo de guardá-lo. A vaca (de tamanho e de caráter) da Annelyse, uma tremendo dedo de seta, gritou "TIA DIVA" e ficou olhando para mim.

A tal tia Diva foi até a minha direção, pegou-me pela mão e me encaminhou até a diretoria. "Que decepção! Justo você, Luiz Gustavo!".

Não tomei suspensão nem advertência. Tampouco acho que ligaram para os meus pais. Não deu em nada, creio. Era bom aluno. Já a Annelyse ficou gostosa e fornida, tipo garota de capa da Sexy Premium, e apresentadora de uma TV online "de Sorocaba e região".

É o que o Google acabou de me mostrar.

* Ilustração: Mariana Massarani

14 de set. de 2008

Acho que eu nunca gostei de um filme baseado em um livro do qual adorei muito. No sentido de ler a obra primeiro e depois conferir a sua adaptação para a sétima arte. Creio que isso deva acontecer porque na literatura tem todo aquele lance de imaginar e, querendo ou não, o audiovisual MOSTRA e por isso MATA um pouco a imaginação.

Para vocês terem noção, não tive coragem ainda de alugar o DVD de O Amor nos Tempos do Cólera. Isso porque quando terminei o livro de Gabriel García Márquez, fiquei uns 10 minutos olhando para o teto do meu quarto pensando como tal história renderia um belíssimo filme.

Todo esse nariz-de-cera serve para dizer que ontem eu fui ver a adaptação de Fernando Meirelles para Ensaio Sobre a Cegueira. E não gostei. E odeio dizer isso porque parece que estou querendo pagar de crítico. Mas na verdade é que estou há quase 24 horas sem conseguir deixar de pensar no que assisti nesse último sábado.

O filme não é ruim. É bem filmado, os atores são bons (tirando o coreano). Mas a minha impressão é que Meirelles não soltou o filme confiante - ele mesmo diz que deseja mudá-lo toda vez que o vê. Parece que ele teve medo da pressão de filmar um livro dito infilmável e talvez devesse ter tido um pouco de ousadia e interpretasse as metáforas escritas pelo português. Não ficar tão preso em passar para a tela exatamente aquilo que Saramago escreveu, sabe?

A história é difícil, abstrata, não tem explicações mesmo. Mas, no livro, Saramago aponta uns caminhos para que a imaginação do leitor voe longe a fim de buscar explicações para a tal "cegueira branca". No filme eu não consegui refletir em nenhum momento. Fiquei curioso em saber como era a primeira edição do longa, que tinha mais narrações em off do personagem de Danny Glover. Talvez ajudasse.

[Não estou aqui defendendo filmes que façam pensar, por favor. Sou fã de blockbusters e tudo mais, mas é que Ensaio Sobre a Cegueira, para mim, tinha essa "obrigação".]

Lembro que no livro várias cenas me impressionaram. No filme, nenhuma. E não estou falando do ausência da cena do estupro coletivo, que foi atenuada na edição comercial. É no sentido de que tudo me pareceu meio retocado, fake, não querendo chocar muito e até buscando o humor - vide os cegos peladões, que fizeram a alegria da platéia.

Ainda me irritei bastante com o merchandising que correu solto e chamou muito mais atenção do que deveria. Era o novo carro da Fiat sendo exibido por todos os ângulos possíveis, a loja do Herchcovitch no meio de tantas outras quebradas e sem nome, o logo colorido da C&A resplandecendo no meio da bela fotografia branca, de luz quase etérea.

Mas valeu a tentativa, Meirelles. Pelo menos tu não ficou naquela de apenas filmar os problemas do Terceiro Mundo. Isso te deixa com bons créditos.

25 de ago. de 2008

Marley e nós

Gosto muito dos textos do Walcyr Carrasco, principalmente de suas crônicas. Há quatro anos ganhei de aniversário um ótimo livro que era uma coletânea de suas crônicas quinzenais publicadas na Vejinha. Lembro que li o livro todo na fila do alistamento do exército.

Admiro o jeito simples que ele escreve, como se estivesse narrando uma história para alguém ao seu lado. Isso me inspirou muito na hora de tentar encontrar o meu estilo de escrever, se é que tenho um.

Para "piorar", as novelas dele das 6h são ótimas. Né, Mirrrrrrrrrrrrrnaaaa!?

Porém, estou levantando toda essa bola do Walcyr para logo dar uma cortada. Soube agora pouco que ele acaba de lançar o livro Anjo de Quatro Patas, que conta a história de Uno, seu cachorro husky siberiano que morreu no ano passado.

Lembro bem desse caso: quando Uno estava bem doente e já nas últimas, o jornalista escreveu uma crônica sobre isso na Veja SP. O texto emotivo bateu recordes de cartas e e-mails de leitores enviados à redação.

Não dúvido que o livro seja interessante. Eu leria fácil, como apaixonado por cães que sou. Mas me incomoda o fato da obra ser muito, mas muito parecida, com a do best-seller Marley & Eu. Até é semelhante o lance do jornalista americano John Crogan ter escrito na sua coluna de jornal a história de seu labrador doente e no bico do corvo. Foram tantos os recados enviados por leitores emocionados que Crogan resolveu, veja só, escrever um livro sobre o caso.

Todo mundo que teve/tem cachorro já passou por essa situação de Carrasco e Crogan. É horrível quando o cão, já velhinho, fica muito doente e sofre demais com isso. Daí cabe ao dono a pior decisão do mundo: sacrificá-lo ou não. Eu poderia muito bem contar a história do Veludo, meu pastor alemão que morreu em 2001 num caso assim.

Nem preciso de livro não, é só montar um blog. E olha que tem ação de primeira, como quando ele arrancou um pedaço da minha orelha.

Não há nada de muito criativo e único na trama de Marley & Eu, veja bem, mas Crogan é o pai da criança, ele que teve essa "sacada". Não quero condenar aqui o livro de Carrasco, por favor, pois não consigo vê-lo como charlatão.

Mas que Anjo de Quatro Patas soa um pouco oportunista, ah, isso não tem jeito.

12 de ago. de 2007

Cultura Futebol Clube


Confesso que sou uma pessoa promiscua quando o assunto é essas megastores que vendem livros, DVDs e CDs. No começo do século, eu era Saraiva Futebol Clube. Sempre que estava em São Paulo eu enchia a paciência de meus pais ou tios para me levarem até a unidade que fica no Morumbi Shopping. Era batata: sempre saia de lá com uma sacolinha amarela a tiracolo (CD, na maioria dos casos).

Quando a francesa Fnac veio ao Brasil e se instalou naquele prédio enorme de três andares em Pinheiros, que antigamente era o Ática Shopping Cultural, virei de casaca bonito. Mas desde que me mudei para São Paulo, em 2004, venho arrastando as minhas asinhas para a Livraria Cultura. E, depois do que aconteceu ontem, posso dizer que sou Cultura Futebol Clube desde criancinha.

A livraria de Pedro Hertz tem a fama de só ter funcionários craques. A Veja S.Paulo uma vez deu um ótimo exemplo disso: a megastore tem vendedores tão competentes que eles procuram no sistema um livro do Dostoievski sem precisar perguntar como é que é que escreve esse trem. Isso não é brincadeira.

Voltando ao começo do texto, ontem eu estava no Shopping Market Place junto da Bem-Amada. Ela ainda não sabia o que me dar de aniversário, então sugeri uma passada na Livraria Cultura do lugar. Lá dentro, tentei de todas as maneiras lembrar o nome de um livro que me chamou a atenção nessa semana que passou. Era um livro sobre a história do futebol, feita por um professor de História Medieval e escrito com um viés todo sociológico. Até aí, tudo bem – acontece que eu não sabia o nome do autor, do livro, e nem como a capa dele era. Só lembrava que tinha saído uma resenha dele no Estadão há alguns dias.

Toda essa "capacidade" fez eu ficar que nem uma barata tonta procurando a obra na seção de lançamentos ou de esportes. Nada. Xeretei nas araras, pilhas... Niente. Depois de quase meia-hora nesse tremendo esconde-esconde, a namorada falou: "Pergunta de uma vez para o vendedor, senão vamos ficar aqui até amanhã tentando achar esse maldito livro!".

Fiz uma piada. "Ah, falou! O cara vai me mandar tomar naquele lugar. Imagina o sujeito procurando no computador: 'livro-futebol-sociologia-história-medieval''. Ri sozinho, pois ela, para variar, não achou graça, e insistiu em sua sugestão.

Bem, não tinha nada a perder mesmo. Assim que avistei a primeira pessoa com aparência de vendedor, fui até ela. "Errr... Oi, tudo bem? Olha, não me mate. Eu estou atrás de um livro sobre futebol, mas eu acho que é de sociologia, escrito por um professor de História Medieval e que saiu essa semana no Estadão... Você tem?'.

O cara me interrompeu e respondeu na lata. "A Dança dos Deuses, de Hilário Franco Júnior? Pô, lógico que tenho! Comecei a ler agora, estou na página 110, é animal. Para você ter uma idéia, o livro fala que uma das possíveis origens do futebol foi há mil anos na China. Após as lutas, os guerreiros chutavam a cabeça de seus oponentes!".

Mal tive tempo de processar a informação e o sujeito já me aparece com um livro de capa verde embaixo dos braços. Não adianta: a Cultura é fo...