30 de mai. de 2005
Mais uma vez fui ao JUCA (Jogos Universitários de Comunicação e Artes). Ao contrário do ano passado, não vou fazer o resumo dos acontecimentos mais legais e não tecerei nenhum comentário sobre os jogos e a beleza da camiseta da PUC.
Em razão da preguiça, cansaço e fadiga, deixo cá um trecho de uma conversa dos alunos da Metodista. Não sei explicar se tal fato ocorreu devido aos efeitos etílicos ou em detrimento da inteligência dos personagens. Enfim, esbaldem-se.
- Ano que vem eu não fico em alojamento, cara!
- Fresco. Por quê?
- Olha o meu tamanho! Durmo maior apertado, nem caibo nos colchonetes!
- Caibo?
- O que tem?
- É "caibo" que se fala? - (garota interrompendo)
- Lógico que não! Onde já se viu isso?
- E como se fala?
- Cabo!
- Ah, é mesmo...
24 de mai. de 2005
Ontem, por exemplo, aconteceu um fato deveras inusitado. Pego o famigerado Shopping Continental, em plena Avenida Paulista, com destino a minha casa. Hora do almoço, friozinho gostoso e, milagrosamente, o ônibus não está congestionado. Quando adentro tal meio de transporte e me deparo com algumas poltronas vazias, juro que felicidade maior não há. Passo pela catraca e sento na primeira vaga que acho, perto da porta. Começo a abrir a minha mala à procura de meus óculos. Noto uma sombra vindo em minha direção. Levantando suavemente o olhar, vejo um crachá e uma camisa xadrez a um palmo de meu nariz.
- Este lugar não foi feito para você! , ouço de uma voz rouca e impaciente.
Um pouco míope, fixo meus olhos no rosto do sujeito. Cabelo um pouco grisalho, ondulado e desarrumado, cavanhaque farto e também grisalho; óculos de armação de metal.
- Oi, perdão?
O tiozinho começa a jogar a sua saliência abdominal contra meu corpo.
- Um dia ainda vai chegar a sua vez, sabia?
Só agora noto que ele quer roubar o meu lugar. Olho para o fundo do ônibus e vejo que ele está mais vazio ainda! Reparo também que o meu assento tem o encosto pintado de amarelo, ou seja, ele é reservado para deficientes, grávidas, obesos e, logicamente, idosos. Antes da catraca, todos os assentos são destinados a tais características citadas. Passando pelo cobrador, umas quatro ou seis poltronas - e eu sentei em uma dessas.
Levanto-me, meio com vergonha, e ainda noto o senhor soltar uns impropérios para si mesmo, como se dissesse: "No meu tempo os jovens eram educados!". Mas, raios, se o ônibus está vazio, qual a razão do cara não sentar em outro lugar vago? Não, precisa dar show, impor a sua condição de "eu trabalhei a vida inteira por este país e o mínimo que eu mereço é um lugar reservado no ônibus". E ele era jovem, aparentava no máximo 55 anos - quase a idade de meus pais!
Olha, juro por minha falecida avó, que quando eu ficar velho não vou ser folgado. Lembro sempre de um episódio do Malcolm in the Middle para exemplificar o meu pensamento. Certa vez, numa liquidação em uma loja, a mãe do Malcolm pediu para ele e seus irmãos ficarem numa fila quilométrica apenas para irem ao vestuário. Quase uma hora e meia depois, os garotos finalmente iriam provar suas roupas. Mas, do nada, uma tiazinha de andador foi passando pela fila, como um carro folgado trafega pela pista do acostamento num congestionamento.
Os meninos brigaram com a tia. Sabe o que ela fez? Deu com a bengala na cabeça de cada um. Ela estava em seu direito, o que até concordo, mas coisa mais irritante que velho folgado não há. Ao menos que ele seja educado, peça licença e dê um sorriso. Não precisa vir desfilando, como se seus cabelos brancos e rugas fossem um atestado de "eu sou diferente e posso tudo". Só eu que não concordo com isso?
Agora, para finalizar minha raiva, alguns minutos depois o ônibus ficou lotado. Eu, sentado lá no fundão, mirava os olhos raivosos contra o tiozinho, desejando atirar uma flecha contra a sua nuca. E sabem o que foi irônico? Uma senhora, de 70 anos pra cima, estava de pé, ao seu lado. Ainda por cima, era obesa, estava com o pé enfaixado e carregava compras em seus braços. E, por acaso o tio do mal cedeu lugar para ela?
Coisa nenhuma! Fingiu que estava olhando a bucólica paisagem da Avenida Rebouças.
21 de mai. de 2005
- O que isso está fazendo aqui?
- Meu irmão vai vender no Mercado Livre.
- Sério? Tem gente que ainda compra isso?
- Orra! Nesse aí ele conseguiu 60 reais!
- Caramba! E eu vendi os meus para o Guilhem por 10 reais cada um!
- Tonto...
É isso aí, meus amiguinhos. O que vocês acabaram de ler é algo corriqueiro nesses meus quase 20 anos de existência. Eu nunca fui de ter apego material e, quando decidi dar cabo em alguns brinquedos meus, geralmente eu os levava em alguma casa de doação, ou dava para os filhos de minha faxineira ou empregada, que quase nunca tiveram com o que brincar.
Somente na vez dos Cavaleiros do Zodíaco que eu vendi meus brinquedos (quase a coleção inteira). Precisava de algum dinheiro para viajar, e achei mais do que justo vendê-los para alguém que cuidasse bem deles - o Guilhem, um dos inúmeros amigos nerds que eu tenho. Nas outras vezes, nunca fui de ligar sobre o valor monetário de meus brinquedos de infância.
Eu sempre acreditei que um brinquedo foi fabricado para ser brincado, quebrado, consertado depois, passar de mão em mão. Ter um carrinho, na minha concepção, foi feito para andar pelas paredes e ser usado em apostas de corridas com os outros amiguinhos. Jamais para ficar numa prateleira, servindo como exibição. Uma bola nasceu para ser chutada, para perder os seus gomos conforme os vários bicos que ela levou. Qual a graça dela ficar guardada numa estante, como relíquia? Ela foi feita para ser jogada na praia, morrer nos gols de traves feitos com chinelos Havaianas. Quer coisa mais apreensiva do que deixar a bola cair na casa do vizinho e correr o risco dela voltar rasgada por uma faca?
Outro dia eu me toquei o quanto eu podia ter ganhado uma bela quantia com os meus brinquedos. Para começar, eu tive quase a coleção inteira dos bonecos do Star Wars. Assim que mudei para Sorocaba, pedi para minha dá-los a alguma criança. Tal destino foi o mesmo da minha coleção de gibis da Turma da Mônica - que, aliás, tinha os primeiros exemplares do Chico Bento e do Cebolinha. Segundo a cotação nerd, eu já podia ter faturado mais de 500 reais apenas com essas preciosidades.
Mas eu ainda guardo alguns objetos, só que estes, sim, não vendo de jeito maneira. Todos têm um valor sentimental. Quem quer o primeiro livro que eu ganhei? O As Aventuras do Ratinho? Ou um relógio dado pelo meu avô antes dele falecer? E as cartas da bem-amada, o que elas podem representar a outra pessoa a não ser eu?
Ah, meu nego. Esses aí de cima eu não dou mesmo. Estão muito bem guardados, numa caixa em meu armário, para ninguém mais, além de mim, poder contemplá-los com um pequeno sorriso no canto da boca.
18 de mai. de 2005
Outro dia a Irena pôs um pouco de álcool, e a minha tia já quis colocar óleo (?) para ajudarem com o meu infortúnio. Para variar, as tentativas falharam. Quando começa a doer e, acreditem, dói mesmo, corro para o meu otorrinolaringologista predileto, o Dr. Mauro. Lá ele enfia aquele aparelho engraçado, acende a luz no fim do túnel e diz em tom jocoso: "Alagou aqui de novo!".
Quando entra água do mar é pior, porque daí dá fungo e a Otite, que é pior que siso arrancado. Nesses casos ele dá uma lavada, metendo um jato Corona de água quente canal auditivo adentro. Eu adoro! Alguns odeiam, mas eu amo. O Dr. Mauro disse que eu devia usar uns pedaços de algodão e tapar meus ouvidos quando eu fosse cortar o cabelo. Por incrível que pareça, a cada lavada ele acha uns tecos de minhas madeixas por lá. Segundo ele, isso é culpa do canal auditivo curto - não confundam com cerume!
Problemas com ouvido são parte de uma tradição familiar. Quando criança, um tio meu resolveu usar o telefone numa bela noite de temporal. Caiu um raio perto da casa de minha vó, que meio que conduzido pelo telefone, dando um estouro no ouvido esquerdo de titio. Meu pai diz que saia um pouco de fumaça da orelha de se irmão, mas nada de grave aconteceu - fora que ele morre de medo de chuva.
Pior, só o meu grande irmão. Certa vez ele acordou todos da casa aos berros, em plena madrugada. "Tem um avião dentro do meu ouvido! Tem um avião dentro do meu ouvido!", berrava o machão de quase dois metros de altura. Após longo trabalho e com a ajuda de uma pinça, um enorme pernilongo foi retirado de dentro de sua orelha. Ele é traumatizado por isso até hoje. Quando ele dorme, cobre-se com o lençol até a cabeça, deixando um clima meio muçulmano em seu quarto.
Mas eu ainda acho que é muito chato ter o tal do canal auditivo curto. Pior que levar um raio ou ter um avião dentro do ouvido!
13 de mai. de 2005
Ernest é rei!
O George Lucas deve ser um tiozinho pra lá de estranho. Tudo o que ele fez na vida foi um filme, se levarmos em conta sua produção (sim, eu sei dos cults THX 1138 e American Grafitti). Ele também produziu e escreveu os três Indiana Jones, dirá outra pessoa. Sim, eu sei novamente. Aliás, parece que ele quer fazer um quarto filme da série. Bem, se tem algo que Lucas deveria aprender, e não errar com um quarto Indiana, é que o número exato para fazer seqüências é três.
Podem ver, foram assim com algumas bacanudas trilogias: O Poderoso Chefão, De Volta Para o Futuro, A Vingança dos Nerds, Matrix e, inclusive, Indiana Jones. Passou da terceira película já fica algo pretensioso demais, soa como se o roteirista não tivesse imaginação, que ficou preso a uma história. Veja só como a minha teoria funciona: quais são os melhores Rocky ou Loucademia de Polícia? Os três primeiros, lógico!
Mas o pior do Star Wars não é nem o seu criador, mas os seus fãs. De boa, há algo mais chato que os seguidores do Guerra nas Estrelas? O João Ximenes Braga, do O Globo, fez em sua coluna uma lista de coisas boas - que realmente são demais - mas ficam um saco pelos atos estéricos de seus fãs. Exemplo? Chico Buarque, João Gilberto, qualquer mpbista... E do Star Wars eu só gostei dos três primeiros (olha ele aí de novo!), porque o resto me deu um sono dos diabos - cheguei a cochilar, em pleno cinema, na exibição do Episódio I.
E, como cada exceção tem a sua regra, digo que somente um filme conseguiu a proeza de fazer uma porrada de seqüências sem deixar a peteca cair. Alguém se recorda das comédias do Ernest? O ator Jim Varney deu vida, em mais de dez filmes, ao Ernest, um grandão atrapalhado que vivia se metendo em confusões, seja quando ele foi para a escola, para a África, prisão ou à fazenda. É muito bom quando passa algo do Ernest nas reprises vespertinas da TV Globo.
Os filmes do Ernest são clássicos. Recomendadíssimo!
9 de mai. de 2005
Existem álbuns que ficam melhores com o tempo. Acontece muito, às vezes o estilo proposto pelo artista não é adequado a um momento de sua vida ou, simplesmente, você tinha tantas esperanças naquele CD, que era elogiadíssimo ou bombardeado pelos críticos, que você já o foi ouvindo cheio de pré-conceitos. É, acontece.
Isso aconteceu quando os Strokes viraram moda. Ganhei o disco dos rapazes em um amigo-secreto, e recordo-me que escutei o álbum correndo, achando tudo gravado nas coxas e não entendia patavina do que o Julian Casablanca cantava. Demorou um ano para eu "descobrir" o porquê da veneração pelos caras. Com algumas teias e pó no encarte, desenterrei o som do Strokes e fiquei semanas sem largar o maldito CD. É, acontece.
Com o Seu Jorge foi da mesma maneira. Ao lançar seu segundo disco, Cru, fiquei com o pé atrás. O negão resolveu ficar cult, largou o samba malandro de Samba Esporte Fino, deixou para trás o suingue de Jorge Benjor e Trio Mocotó, indo mergulhar nas fontes da bossa-nova. Ah, Jorjão! Pára de ser pretensioso, querendo misturar viola com italiano e cuíca com inglês! Por isso, acabei por deixar o álbum num canto de minha prateleira, sem dar muita razão a sua existência.
Mas eis, que ontem, em mais uma madrugada de insônia, resolvo dar uma chance para o Cru. E o CD é do caramba, meninada! A voz gostosa e calma de Seu Jorge sai fino em qualquer estilo. Dane-se que o cara mudou todo seu repertório - quem disse que variar não pode ser bom? Como o próprio nome do álbum diz, o cantor quis deixar tudo na simplicidade, ficando apenas a dedilhar a sua viola e a tocar o seu pandeiro bem de leve, baixinho, só para ditar o ritmo. Ah, e tem o seu belíssimo vozeirão, por sinal.
Como se já não bastasse tamanha categoria, o ex-líder do Farofa Carioca tem em seu repertório umas das músicas mais bonitas feitas nesses últimos dois anos. "Bola de Meia" é linda, tem um refrão que gruda, cantiga feita para cantar baixinho, no ouvido da bem-amada. "Fui eu que te dei, o primeiro beijo, o primeiro toque, a primeira canção/ Se realmente quer ficar comigo, não faz bola de meia, com o meu coração...".
7 de mai. de 2005
3 de mai. de 2005
A minha impressão é que sempre sobra o bagaço para o pessoal da Sexy. Vejam o Big Brother, por exemplo. As mais bonitinhas logo assim contrato com o coelhinho (demorou, Grazi!) e o resto fica com a Sexy mesmo ? eles pagam mais, aliás. Outro costume deles é reciclar antigas capas da sua concorrente. Lívia Lemos, Lívia Andrade, Mulher Samambaia...
E, pelo que parece, a Playboy sacou isso e resolveu aderir ao sarcasmo - ou sadismo, se preferirem. Primeiro que aquela tia que fazia Chiquititas vai aparecer no próximo mês. De boa, eu assistia alguns episódios da série e nunca tive algum tesão pela professorinha, nenhum! E eu tinha lá os meus 14 anos, veja só! A Playboy acerta bastante, e dificilmente desagrada aos seus leitores. Às vezes o editor toma um porre e decide tirar fotos da Hortência, mas isso não vem ao caso. Mas, caramba: a professora da Chiquititas?! Isso que na edição de abril quem foi capa era aquela Natália (saída de onde?), que mais parecia a Índia Aigo.
E se tal sarcasmo já não fosse suficiente (ou sadismo, repito), parece que a Playboy está sondando ninguém menos que a Daiane dos Santos. De boa, só espero que ela não exiba a "dita cuja" numas posições, digamos, acrobáticas...
29 de abr. de 2005
27 de abr. de 2005
Vi o Romário jogar ao vivo apenas uma vez, quando ele atuava pelo Flamengo. Por anos eu desejava um dia que coincidisse um jogo do baixinho no Morumbi, contra o meu glorioso São Paulo, e que nessa data eu estivesse na capital paulista. Nunca dava, ou eu estava em Sorocaba ou ele estava com problemas musculares. Sorte a minha que em 1999 tal sonho deu certo. Eu vi o danado com os meus próprios olhos, aprontando daquelas que eu só via na televisão.
Um atleta que pouco corria em campo, que passava despercebido ao nosso olhar. De vez em quando eu o procurava, e lá estava ele, com as mãos na cintura, caminhando para um lado e para o outro. O zagueiro colava atrás dele, dizia algo em sua orelha e, de repente, numa ginga de corpo o beque ficava para trás. Cara a cara com o arqueiro, com a bola dominada no pé direito, eu só torcia para que o matador errasse. Mas, como diz o ditado popular, quando um artilheiro é nato, diz-se sempre: "Esse não perde!". Pois Romário perdeu. Chutou inúmeras bolas na trave, o goleiro são-paulino pegou o impossível, fizemos a festa. Xingávamos-no, mas também morríamos de medo, pois o Romário era daqueles que numa fração de segundos punha a bola no fundo das redes e mandava a torcida adversária calar a boca, gritando consigo mesmo: "Eu sou foda!".
Mas naquele dia o baixinho não fez nenhum gol, e o rubro-negro perdeu para nós. "Esse não joga mais bola!", diziam muitos na saída do estádio. "Contra o tricolor ele sempre amarela!", berrou outro. Pois é, amarela mesmo. Dois anos depois, defendo as cores do Vasco da Gama, Romário voltou a jogar contra o São Paulo. Ele não marcou um gol, meteu logo três de uma vez. A cada tento, ele corria em direção à torcida são-paulina, abrindo os braços e pondo o dedo indicador na boca. Para humilhar mais ainda, o danado apontava para o ouvido, como se dissesse: "Vai, bando de cornos! Me xinguem agora!".
Sorte a minha de que nesse dia eu estava em Sorocaba.
23 de abr. de 2005
A Meca do humor nacional tem região e tudo: Ceará. Renato Aragão, Tom Cavalcante e, recentemente, Wellington Muniz, do Pânico, são oriundos de lá. Com a exceção do Trapalhão, a grande maioria se destaca pelo dom da imitação, desde o tom da voz, às vestimentas ou pelos trejeitos. Batata! O que eu sempre curti dos Trapalhões, Falcão e do Costinha era que eles não precisavam mudar e criar outros personagens para se consagrarem no humor, como sempre fez o Chico Anísio. Todos vão lembrar do Mussum e seus "cacildis", da risada inconfundível do Zacarias, da banguela do Tião Macalé e do microfone aéreo do Costinha. Já basta, para que tentar ser mais cômico que isso?
E é nesse contexto que Tiririca se encaixa, graças à sua idiossincrasia, à sua figura imitável. Todos o manjam: o chapéu tosco, a calça apertada, a peruca ridícula e o ralo bigode de latin lover. E deu certo! Ele não precisa se reinventar a cada momento. Agora ele parece que voltou a estar na moda, usando do mesmo artifício do passado. Ao pôr um álbum de forró no mercado, somente com letras de duplo sentido, o chamado "forró malícia", o cearense lançou uma música Tikin, que não promete ser uma nova Florentina, mas mostra que ele sabe o que é ser engraçado.
Qualquer entrevista com o Tiririca rende, podem anotar. Ele não precisa se jogar no chão para arrancar aplausos ou se contorcer para atrair risadas; ele conta histórias. Poucos sabem usar de contos para atingir o humor, fato que o comediante usa com muito jeito. Por isso que eu adoro aqueles americanos fazendo "stand-up comedy", pois dificilmente há plágio entre eles. Lógico que existem algumas cópias parecidas de humor, mas ninguém conta a mesma piada ou imita o mesmo personagem público e caricato - por isso que eu acho um tédio um show do Cavalcante ou do Ari Toledo.
Tiririca fica na dele, sabe rir de si mesmo e, fato ralo entre comediantes, não é metido à estrela. Vi agora pouco uma matéria com ele que, ao ser perguntado como foi a sua primeira transa, respondeu que a sua parceira sexual não era de falar muito, que disse apenas uma frase ao término do coito. "Qual?", perguntou o entrevistador, curioso.
Com maestria, Tiririca respondeu todo sério, honrando a tradição dos virgens nordestinos:
- Béééé!
19 de abr. de 2005
Racismo no futebol
No segundo-tempo da partida, a torcida uniformizada Independente começa a gritar, ecoando Morumbi afora. "Ei, racista! Vai tomar no...". Ao ver o lance pela televisão, descobre-se o motivo da expulsão de Grafite; Desábato o havia
Nos últimos meses, o racismo no futebol vem se tornando algo corriqueiro, principalmente nos gramados europeus. O camaronês Samuel Etoo?, do Barcelona, ouve freqüentemente, da torcida adversária, imitações de macaco, assim que toca na bola. O brasileiro Roberto Carlos é outro que já passou por tal situação. No final de semana, o goleiro Carlos Kameni, do Espanyol, foi atingido por uma banana ao defender uma cobrança de pênalti. Ele também é camaronês.
Tal manifestação é comum no futebol. No livro Febre de Bola, o escritor Nick Hornby condena a torcida do Arsenal, clube britânico, por xingar atletas de macacos em jogos da década de 80. Dentro do próprio campo a situação é a mesma. Para irritar e tirar a concentração de Pelé, vários beques o xingavam de negro ou carvão - o que nunca deu certo, por sinal. O rei do futebol respondia com gols. Tostão, campeão mundial pela seleção canarinho e colunista da Folha de S.Paulo, afirma que o que Desábato fez é parte do futebol. "Difamar ou provocar atletas adversários é corriqueiro, não um exemplo de ato racista", escreveu.
O que aconteceu no Brasil é muito mais uma forma de mostrar ao mundo que aqui se faz justiça. Racismo tem manifestações muito piores às sofridas no Morumbi. O próprio Grafite já afirmou, há alguns meses, que vira-e-mexe a polícia o pára dirigindo. O atleta são-paulino dirige um automóvel importado. Ao se ver um afro-brasileiro em uma situação dessas, logo se julga que a pessoa dentro do veículo é ladrão ou traficante. Isso não é apenas a visão policial, a sociedade brasileira enxerga com os mesmos olhos.
Em um país cuja miscigenação é enorme, chega a serem estúpidas tais manifestações preconceituosas. Atores negros que atuam na maior rede de televisão nacional são sujeitados a papéis de motoristas particulares ou empregados domésticos. É hipócrita dizer que a punição de Desábato reflete o sentimento de justiça nacional. O que se espera com o caso é que ele sirva de exemplo e influencie outros julgamentos futuros.
14 de abr. de 2005
Honestamente, eu não faço nada. Assim: estudo numa faculdade meia-boca, cujos professores vivem faltando por "motivos de força maior" e que seus funcionários adoram uma greve. As minhas tardes são preenchidas com horas de sono e, irregularmente, uma ida à academia. Sou vagabundo, admito. E, como não arranjo um emprego bacanudo, decidi levantar a bunda e correr atrás de um idioma que acrescente algo ao meu futuro.
Para piorar, eu nunca fiz escolinha de idiomas, que vergonha! Mas me resolvo no inglês - inclusive na conversação. Quando me perguntaram qual o nível que estou em relação à língua, afirmo estar no "patamar Salma Hayek", ou seja, consigo falar e entender que é uma beleza, mas tenho um sotaque latino e disparo uma conjunção após cinco segundos de reflexão. São poucos o que entendem a minha linha de pensamento, devido a sua lerdeza.
Às vezes eu atinjo o "nível Roberto Benigni", o que é bem desagradável. É um dialeto macarrônico, filho do português com o inglês britânico. O everybody corre o risco de sair um "evribode". Também nutro o desejo de falar espanhol, mas daí eu preciso de mais calma. Na língua de Cervantes eu sei dizer, Yo quiero Tacobell e Somos los Orishas, somos de Cuba.
Acredito estar no "patamar Luxemburgo".
11 de abr. de 2005
Vejam com exclusividade o pensamento masculino...
- Opa! Essa eu comia!
- Quem? A coroa?
- Essa mesmo! Tá inteirinha, rapaz! Pegava mesmo
- Ela saiu na Playboy?
- A Ciça? [Guimarães] Há uns 10 anos.
- Ah, mas agora tá boa pra cara***!
- Essa moreninha eu também comia!
- A filha do Fábio Jr?
- Nossa, olha que tesãozinho! Morena, cara de quem gostar de dar o...
- Nossa! Total...
- Também pegava!
- Mas eu curto mais uma coroa! E tem muita mãe melhor do que filha por aí...
- Tem mesmo.
- Tipo aquela do Gilmore Girls, manja? Cara! Que mãe!
- Nossa, tô ligado!
- Aquela eu passava a vara!
- Ahahahaha!
- Ahahahaha!
- A Déborah Secco é boa, hein?
- Aff! Essa daí já rodou em cada mão... Vou te contar.
- Ah, dane-se! Pegava mesmo assim!
- Eu também!
- Opa! Sussa, cara!
- Mas eu ainda prefiro a Ciça...
- Pô! Pior que é, a mulher deve saber das coisas, igual a Vera Fisher.
- Ah, mas a Ciça eu não pegava não, aí...
- Bicha!
- Viado!
- Gay!
- Pô, nada a ver! Ela é a mãe do Catraca! Maior broxante!
8 de abr. de 2005
Eu mesmo me prometi não fazer nenhuma piada em torno do papa. Respeito, medo, sei lá! Vai que eu sou taxado de herege, meu pé seja puxado enquanto durmo; com essas coisas não se brinca, aconselha minha avó. Mas que aquela vestimenta usada por ele em seu velório, com uma bata de seda vermelha e sapatos de veludo é brega e esquisita, ah, isso é!
Desconfortável e quente, presumo. "Mas o cara está morto!", eu sei... Mas mesmo assim eu estava me perguntando onde é que os estilistas do Vaticano tiraram tamanha inspiração. É bem vintage, não? E não é que eu descobri? Vejam o furo jornalístico abaixo:
Eis o Mestre dos Magos, do desenho Caverna do Dragão
Que bomba, hein!
5 de abr. de 2005
Eu estou ficando careca. Ponto. É isso aí. Meu cocuruto está vazio, em processo de erosão. Céus, estou realmente perdendo cabelo. Medo, medo, medo. Deus, por que fazer isso comigo? Aliás, desde os meus 10 anos eu já ouço da boca dos outros: "Vixi! Esse vai ficar careca". "A vida que poderia ter sido e que não foi", né, compadre Bandeira?
Maldito código genético. Do lado paterno, todos são calvos: papai, vovô, titios. Todos. Pelo lado de mamãe, não. O cabelo é farto e ralo ao mesmo tempo. O telhado capilar é vazio, até com as mulheres da família é assim. O meu caso é complicado. Pergunto-me todo dia, assim que encosto a cabeça no travesseiro: "Até quando?". Às vezes eu até esqueço; por eu ser alto as pessoas nem chegam a notar. Mas basta estar com os cabelos molhados e sentar em algum lugar, para alguém, sempre há alguém, que vai me dizer com um sorriso na face: "Tá ficando careca, hein!".
Desejo a morte a quem me diz isso. Tomara que você fique broxa!, amaldiçôo em silêncio. Quando eu passei na faculdade, morri de medo. Vão passar a máquina, e se não crescer mais? Recordo-me daquele zagueiro cabeludo da seleção brasileira, o Gonçalves. Suas madeixas eram idênticas aos de minha faxineira. Certa vez, tosaram o homem. Nunca mais cresceu; apareceram as entradas, a coroinha lá em cima de o ar da sua graça. Chorou muito o homenzarrão.
Para dizer a verdade, eu não tenho cabelo e pronto! Por que ele não fica caindo, daqueles casos em que basta enrolar os fios com as pontas dos dedos para ter um chumaço nas mãos. Se um dia eu ficar apenas com o cabelo nas têmporas, tipo gramado de campo de várzea, vou raspar e poupar meu sofrimento. Sabe quando a Carolina Dieckmann, numa dessas novelas da vida, teve que ficar careca já que a sua personagem tinha câncer e passava por sessões de quimioterapia? Então, vai ser daquele jeito. Jorrarão lágrimas de meus olhos, a mesma cantiga da Lara Fabian ecoará ao fundo. Vai sentindo o clima.
Acho que depois eu me acostumo. Há homens bonitos e carecas, não é mesmo? O Fernando Scherer, por exemplo. E até sendo rico a careca é disfarçada. Aposto que a Cicarelli não reclama do escalpo do Ronaldo. Então é isso: preciso urgentemente ganhar bastante dinheiro e ficar fortão como o Xuxa e toda a sua envergadura.
3 de abr. de 2005
Eu colocaria o Padre Marcelo como o novo Papa. Podem tirar sarro, mas é uma ótima escolha. Para começar que o amigo do Gugu é o representante da maior nação católica do mundo. Além do mais, assim como o João Paulo II, o Marcelo foi um baita esportista antes de ser um puxa-saco de Deus. E ele também já lançou discos; imaginem as suas missas, que legal? Sai o Mr. Burns e entra o Paulo Cintura. Imaginem os italianos, lá na Praça São Pedro, dançando o "Vira" e cantarolando: "Os animaizinhos, subiam de dois em dois". O Papa seria pop!
Por eu estudar na PUC, não tenho aula nem na segunda e na terça. Maravilha! A morte do Karol me livrou de uma prova e de várias aulas chatas. Vejam só: o João Paulo II, que em seu papado deu a volta ao mundo a fim de expandir o catolicismo e acabar com as outras religiões, numa Cruzada do século 20, até quando foi pro saco fez de tudo para conquistar novos religiosos. Ganhou um católico fervoroso! Se Deus é brasileiro, o Papa é puquiano! Quer dizer, era...
***
E salve o meu tricolor paulista, que jogando numa retranca da porra, sagrou-se com toda a pompa o Campeão Paulista de 2005! Em quase dois anos de blog eu nunca tinha levantado um caneco. Tá mal, viu!
31 de mar. de 2005
Mania de ladrão
Quem me conhece, sabe que sou louco para ter um daqueles bonecos da Nestlè em meu quarto. Aquele azul, com um sapatão branco, que tem em todo supermercado ou sorveteria, sabe? Não consigo explicar tal desejo, apenas quero o maldito boneco da Nestlè! Assim como um dia eu quis uma placa de "Proibido Estacionar" pendurada na porta de meus aposentos.
Tudo começa quando você é criança. Meu irmão, assim como muitos, foi craque em pegar o lanche de seus coleguinhas do primário. O gordinho saía na maior maciota, abria a lancheira do pessoal e xeterava o que havia de gostoso para comer. Se no filme 60 Segundos o personagem do Nicholas Cage sonha em roubar um Mustang GT 500, a Eleonora, o meu mano queria porque queria achar um Danoninho alheio. O iogurte da Danone era a Eleonora do Fernando.
Tesão por cone de trânsito (ui!) eu nunca tive. Dizem que é rápido e fácil, geralmente é o primeiro furto do futuro meliante. Basta encostar o carro, olhar se não tem algum guarda por perto e zás! As mulheres, menos audaciosas, contentam-se com xampus e até cinzeiros de hotéis. "É para a recordação", escusam-se. Eu acreditava nessa resposta, até o dia em que vi a minha mãe sair com uma pantufa do Renaissance embaixo do braço.
De todos esses exemplos, nenhum chega aos pés do Guilhem, um amigo meu. Esse já levou de tudo, desde um relógio de parede da escola até um azeite de um bar. Azeite? Isso mesmo. É por essas e outras que eu não fiquei assustado quando o vi todo pimpão, escondendo debaixo da camiseta o retrovisor de um Monza anos 80.
27 de mar. de 2005
Sobre a Páscoa, eu me recordo de duas coisas. O primeiro momento é longínquo, lá pelos meus cinco anos, enquanto fazia o pré, na Escola Chapeuzinho Vermelho, em Tupã, interior paulista. Estava eu, cabelo tigelinha, band-aid no joelho ralado. Era hora do recreio. Na minha lancheira sempre tinha chá e algum sanduíche. Raramente minha mãe deixava alguma guloseima. Enquanto meus coleguinhas se entupiam de coisas gordurosas na cantina e tomavam refrigerantes, eu bebia chá-mate e comia patê de atum. Maravilha...
Naquele dia, porém, semana de Páscoa, havia um pedaço de chocolate crocante embrulhado em papel alumínio para mim. Recordo-me que no primeiro "nhac" eu senti uma sensação estranha, algo parecia estar fora do comum - e estava mesmo. Caía o meu primeiro dente de leite, logo o da frente, o que me deixou com uma janelinha pra lá de simpática. Aliás, durante anos a Páscoa foi sinônimo de dentes de leite caindo. Uma festa! No dia seguinte eu jogava-os em riba do telhado, pois vovó dizia que trazia sorte.
Em 93, casa de vovô, o domingo foi dia de corrida em Interlagos. O Ayrton Senna brigava pela liderança, junto com o Nigel Mansel (acho). Lembro-me que caiu um baita toró, e no momento em que caiu a primeira gota de chuva no autódromo, meu tio vibrou, já que Senna amava guiar com a ajuda de São Pedro. Foi muito legal: eu mandando a pau no pedaço de cacau ao leite, todo nervoso, e o piloto tupiniquim dando uma baita ultrapassada em Mansel. Depois o povo invadiu a pista e foi comemorar a vitória com o seu ídolo.
Demais.
22 de mar. de 2005
Eu sou um tremendo saudosista, e isso é um saco. Primeiro: todo saudosista é um chato em potencial. Exemplo? Arnaldo Jabor. O cineasta nunca está contente com nada, vive de comparações com o passado brilhante; nada do presente presta ou é relevante. Repito: ser saudosista é um saco.
Sou saudosista em relação à comida. Estranho, né? Nem um pouco, todos são. Quem não tem na memória o cheiro da comida feita pela vovó ou ainda tem no paladar o gosto daquele biscoito que só a sua vizinha sabia fazer? Quem não "fumou" um cigarrinho de chocolate da Pan? Existe alguém que ainda chama o Milkbar de Lollo?
Repararam como os produtos alimentícios feitos atualmente são piores do que os de sua infância? O requeijão era mais cremoso, lembram disso? Era só pôr a faca no pote e deixar escorrer aquela cascata de requeijão. Para passar no pão e não fazer sujeira, nós girávamos a faca, a fim de não deixar o creme cair na mesa. Bons tempos. Agora o requeijão parece mais um Polenguinho, ficou mais "sólido". Sabe por quê? Maisena. Fica mais barato pra empresa produzir.
E o que dizer da extinção dos iogurtes de maçã e de salada de frutas? Agora, nas prateleiras dos supermercados, impera os de morango. Os iogurtes de maçã e salada de frutas eram o "tchan". Eu sempre os deixava por último - a demora os deixavam mais gostosos e saborosos. Não havia razão deles saírem do mercado. Numa caixa de seis potes de iogurte de morango, eles eram poucos, no máximo dois. Isso não quer dizer que ninguém gostava deles, pelo contrário. Justamente por virem em menor número, rolava até briga por uma mera colherada no sabor de maçã. O morango ficava deixado de lado, mas nem por isso ele perdia a sua importância.
Não entenderam? Exemplifico: em um episódio do Simpsons, o Homer quer tomar sorvete napolitano, mas acabou o sabor de chocolate, restando apenas morango e creme. Sabe o que ele faz? Berra: "Margie, precisamos comprar outro pote de napolitano!". Alguns o chamariam de burro. "Por que não comprar um pote só de sabor chocolate?", não é mesmo?
Não é assim que funciona. Vejam bem: o morango e a baunilha (no da Kibon é de nata) são fundamentais para o sucesso do chocolate no sorvete de napolitano. Sem eles, o chocolate não seria o disputado pela criançada. Ele ia perder a sua graça, assim como aconteceu com o iogurte de morango nos dias atuais.
OBS: Pegaram a linha do raciocínio?